Sempre foi a metade mais esquiva da dupla, e mesmo agora que capitaneia o barco a solo, José Manuel Gonçalves despediu-se do público fiel à sua melhor imagem: com uma saída praticamente à francesa, chegando à boca de cena com a discrição natural, acenando e regressando ao habitat por excelência: os bastidores. “Foi tudo uma treta, para dizer a verdade. É sempre, porque você não consegue esquecer…”, desabafou ao Observador na ressaca do desfile, já para lá da meia noite. Uma treta porque o par na vida e na obra ficou incompleto, uma lacuna visível até na anterior distribuição de tarefas. “Era eu que empurrava o Manel. ‘À frente tu, à frente tu!’. Porque ele fazia aquilo facilmente. Era a onda dele. A minha sempre foi mais retraída. E agora não estava lá ninguém. Quando me dizem: ‘ai, tu tens que ir aqui e fazer isto e aquilo”, de repente, vejo-me naquela coisa que é, pá, agora tenho que fazer esta gaita!”, ri-se. Ainda assim, garante, não foi a hesitação de se lançar de cabeça que ditou o atraso na apresentação. “Mudámos muito de bastidores”, esclareceu, já na sala de imprensa.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Entre talentos do Sangue Novo e a plataforma Workstation, o primeiro dia de desfiles costuma servir de aquecimento dos motores para um fim de semana intenso. Mas não, esta não era uma sexta-feira típica, por mais que a chuva intensa nesta estação já seja familiar. A jornada arrancou com nota artística no CAM, a cargo de Constança Entrudo, e fechou entre inevitável nostalgia e olhar em diante. Depois da morte de Manuel Alves, a Sala do Risco aguardou com expectativa para ver o regresso aos desfiles da etiqueta Alves/Gonçalves, dois anos após a dupla ter apresentado a coleção outono-inverno 22/23, ainda no âmbito do Portugal Fashion. Um regresso tão especial quanto emotivo, bastava espreitar a fila da frente.

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Ana Salazar, uma das primeiras designers portuguesas reconhecidas internacionalmente, e que figurou no cartaz da primeira edição do evento, sentou-se na primeira fila para assistir à estreia do amigo a solo. “É a primeira vez que o Zé Manel desfila sozinho. Eu era mesmo muito amiga dos dois. A minha expectativa é boa porque acho que o Zé Manel é realmente uma pessoa que em termos criativos é fabuloso. Mesmo que seja inspirado em algo do passado vai ter a marca do Zé Manel”, disse ao Observador, antes do desfile. Quem também viu de perto o evoluir das coleções Alves/Gonçalves e nunca perdeu uma edição da ModaLisboa é Lili Caneças. “Vim com um vestido do Manel. Acho que para o José Manuel Gonçalves vai ser uma prova de fogo. Estiveram 40 anos juntos, agora estar sozinho… Por outro lado a estrela era o Manel, portanto agora ele (José Manuel Gonçalves) vai ser a estrela.”

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Ana Salazar

“Estou cheio de medo. Parece que é a primeira vez”, confessava Gonçalves em primeira mão ao Observador, numa entrevista em fevereiro último em que antecipava estes planos. Sem visita guiada aos charriots com a nova coleção, para evitar efeito de spoiler, o criador não deixou no entanto de fornecer algumas pistas. Desde logo, as deambulações frutuosas pelo cinema e por um certo chic francês, plasmado no estilo da atriz Isabel Huppert. Além da sétima arte, eterno pano de fundo para o desenho, as canções. “A roupa não existe sem música. Estou na fase que estou sempre a pôr a música do desfile para conseguir continuar a fazer a coleção.”, admitia à jornalista Joana Moreira. Sem mood para hip hops, “comecei a ouvir Carla Bruni, depois comecei a ver filmes franceses e descobri um ator pelo qual estou completamente apaixonado, vidrado.” Gonçalves não se descoseu sobre a estrela em questão mas não foi difícil chegar a Louis Garrel, jovem mestre de atitude e objeto de uma daquelas “paixões que nunca chegam a lado nenhum” — e que esta sexta-feira alimentou a trilha sonora do evento. “Vou fazer um mix de música francesa com uma faixa em que ele canta. Vai ser um ritmo lento, calmo, mesmo como me sinto neste momento. A tentar ganhar força para outras coisas.”, prometia então a metade resistente da dupla Alves/Gonçalves.

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Lili Caneças

E assim foi. A abrir a armada de 22 coordenados, um clássico fato preto de três peças com o devido twist, para funcionar ontem, hoje e amanhã, sem aborrecimentos de maior. “Gosto muito deste sentido de liberdade que as mulheres têm hoje em dia e gosto de utilizá-lo também em desfiles e com uma imagem que transmita um fator de poder. E o poder, esse, tem de ser das mulheres para quem eu estou a trabalhar.”, enquadra o designer, cujas principais novidades recaem sobre os casacos — o último dos quais, a encerrar as hostilidades, tem entrada direta na nossa lista de favoritos. “Acho que todos aqueles casacos com panos pendurados de alguma maneira têm um imaginário diferente das outras coleções que há um ano eu estava a fazer.”, nota, convocando para a equação a sobreposição de registos. “Nunca gostei de cortes de senhora nos casacos. Sigo a escola de alfaiataria masculina. É o que eu gosto. Para mim, um casaco, é isso. O resto, um tailleur, ok, são outras coisas. Mas gosto daquele corte, basicamente masculino. Acho que encaixa perfeitamente na silhueta feminina. E gosto muito da utilização de peças masculinas para a mulher. Sempre gostei disso e continuo a adorar.” Nota ainda para pormenores como as alças com efeito de suspensórios, os cinturões XL a acentuar as linhas, o estampado floral em relevo, as franjas ou os zippers.

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O allure parisiense (“está no meu DNA. Eu sou vidrado naquele protótipo de mulher francesa. E de facto, as mulheres que eu mais adoro, estão nos 50 anos. “) cruza-se com uma certa vibe sci fi, presente no regressado foil — “gosto muito de intervir na matéria-prima” — ou em acessórios como os óculos escuros. E nem as assimetrias e desconstruções comprometem o desejo de intemporalidade desta montra onde impera o preto, o encarnado e ainda um toque de bege e o brilho num patchwork metalizado. “Não quero estar na moda. Isso para mim não faz sentido nenhum. Eu nunca segui isso. A moda é aquilo que eu quero que seja, quando eu acho que é, e é o meu trabalho. É aquilo que você acha, é aquilo que os outros acham, e cada um faz a sua moda. Eu limito-me a dar uma proposta.”, sustenta José Manuel. “Cada vez quero estar mais na história de trabalhar na moda, em cima do busto, o manequim não tanto. Se bem que depois eu tenho que passar para a modelagem, eu sei. Mas, para já, estou-me a entreter, neste momento, com coisas mais inventadas sobre o corpo”.

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Conhecidos pelo bom gosto, imprimido tanto a criações mais casuais como a coleções festivas, a nova etapa da etiqueta Alves/Gonçalves quer-se leal a um certo passado e a uma fiel elite de clientes, mas abordando uma “linguagem moderna e atual”. “Não me interessa nada estar afastado dessa realidade. Quero fazer progredir a marca para além de mim.”, defendia nessa entrevista ao Observador José Manuel Gonçalves, que continuará a assinar vestidos para encomenda, num registo habitualmente mais exclusivo, mas desejando que “a marca chegue a um nível médio de consumidores, daí estar a ser estudada uma nova estratégia de preços.”.

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Nem de propósito, à 64.ª edição a ModaLisboa reuniu na mesma sala alguns dos que viram nascer a iniciativa, há mais de 30 anos, sem descartar uma renovação dos rostos. Eduarda Abbondanza sentou-se ao lado da antiga ministra da cultura Graça Fonseca. Na mesma fila da frente sentaram-se outros criadores de moda como Luís Buchinho ou Luís Borges, figuras da televisão, como Sílvia Alberto ou Rita Ferro Rodrigues, antigas manequins como Lúcia Garcia ou Pedro Crispim, atletas como a surfista Joana Schenker, e muitos jovens a seguir as tendências do streetstyle — calças de ganga largas, cabelos coloridos, maquilhagens extravagantes, para uma plateia que não podia ser mais democrática e transversal. Ainda antes do desfile um rapaz sentado na terceira fila levantou-se para ser fotografado no centro da passarelle. Atirou-se ao chão para posar e foi aplaudido por quem seguiu a cena. Quando as luzes se apagaram, a geração Z tinha os telemóveis prontos para filmar cada segundo. A música francesa intimista deu o tom sóbrio e calmo ao desfile e, serenos, todos os que assistiam acompanharam o enredo com atenção e sem burburinhos. No momento em que todos os looks desfilaram pela passarelle, o público parecia ansioso por aplaudir. Aos poucos os amigos fiéis levantaram-se. A aparição rápida e discreta de José Manuel Gonçalves foi suficiente para arrancar assobios e gritos daqueles que assistiam. Até os que filmavam arranjaram mãos para aplaudir. “Não tenho nada contra o star system, mas pela minha personalidade gosto sempre de estar entre o star system e qualquer coisa que não encaixa nele. E que está sempre à procura de coisas mais marginais, de um certo underground, que apanha as coisas e as faz subir para o outro nível.” Para cima, em frente, e por diante.