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Mourinho fintou virose para dar outra aula sobre antídotos (a crónica do FC Porto-Benfica)

Este artigo tem mais de 6 meses

Não conseguindo ganhar, Benfica soube jogar para não perder frente a um FC Porto que foi melhor mas raramente conseguiu soltar as suas melhores armas ofensivas e saiu vivo do clássico no Dragão (0-0).

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▲Rodrigo Mora entrou em cima do minuto 90 e, na primeira vez em que tocou na bola, acertou na trave naquela que foi a melhor oportunidade do FC Porto

Getty Images

▲Rodrigo Mora entrou em cima do minuto 90 e, na primeira vez em que tocou na bola, acertou na trave naquela que foi a melhor oportunidade do FC Porto

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Em condições normais, se um jogo fosse apenas um jogo como nunca é, este seria um encontro em torno do regresso de José Mourinho ao Dragão para defrontar o FC Porto – e com essa curiosidade de, uns dias antes de assinar pelo rival Benfica, ter estado na tribuna como convidado especial e ter recebido uma ovação de pé de todos os presentes que desta vez não iria por certo acontecer. No entanto, este era um clássico que tinha tudo menos condições normais, a começar pela hora a um domingo (21h15) e a seguir por diversos pontos de interesse com o condão de secundarizarem o impacto de ver de volta o Special One no estádio onde fez parte da campanha que terminou com os dragões campeões europeus em 2004. Se uma partida entre portistas e encarnados é sempre um dos pratos fortes de qualquer competição, este comportava um peso maior.

FC Porto-Benfica. Clássico recomeça sem alterações (0-0, 46′)

Da parte do FC Porto, de moral em cima por mais um triunfo nos minutos finais na Liga Europa, poucos ou nenhuns tinham dúvidas sobre a completa metamorfose dos dragões com Francesco Farioli mas, dentro de uma ideia de jogo que obriga a uma disponibilidade física e a uma intensidade extras para assegurar a nova identidade em campo pedida pelo transalpino, havia essa dúvida sobre a justificação para o rendimento um pouco mais baixo com o Estrela Vermelha na antecâmara de uma partida que poderia terminar com o melhor arranque de sempre dos azuis e brancos, que levavam nove triunfos consecutivos e com apenas dois golos sofridos. Apesar desses números favoráveis, o italiano não baixava a guarda, relativizando a questão da virose que afetou o Benfica (“Eu há três dias que estou a tomar comprimidos porque estive com 38º de febre. É a gripe sazonal”, comentou) e puxando dos galões do sentimento “regionalista” neste tipo de duelos.

“Tentámos preparar o jogo com muita atenção, vendo os últimos quatro jogos deles, mas também um pouco mais além. Temos de tentar prever o que vai acontecer, não sou o único a preparar o jogo da melhor forma possível. Vamos defrontar uma equipa de Liga dos Campeões, com um grande orçamento, que vem cá para competir ao mais alto nível. O jogo com o Chelsea mostrou como as equipas de Mourinho são camaleónicas, são muitas dinâmicas e cenários e temos de estar preparados para o inesperado. Decisivo? É importante, não podemos negar as evidências, mas não será decisivo. Muita coisa pode acontecer”, apontara.

“Há sempre um ‘se’. Tudo o que estamos a fazer é trabalho de muita gente no clube, departamento médico, treinadores, estive doente e estive menos tempo do que queria no centro de treinos. É bom saber que quando não estás a 100% tens alguém que te ajuda. O Porto é a cidade das pessoas que saem muito cedo de casa para trabalhar e chegam a casa muito tarde para a família. Representamos uma cidade, o que conta é como vamos continuar na nossa jornada e no final da época logo veremos onde estamos”, completara, neste caso a propósito dessa possibilidade de bater o melhor arranque portista de sempre… de Villas-Boas.

Do lado do Benfica, além do supracitado regresso de José Mourinho ao Dragão, havia bem mais em jogo. A derrota frente ao Chelsea em Londres não deixou de ser uma derrota que complica as contas para a passagem à fase seguinte apesar das melhorias, os quatro pontos de atraso para os azuis e brancos não eram decisivos mas podiam pesar em casa de novo insucesso e, a par de tudo isso, havia também um ato eleitoral no dia 25 onde todos os resultados desportivos contam. E, como um mal nunca vem só, a semana ficou marcada por uma virose que atingiu vários jogadores e elementos da equipa técnica. O técnico tentava passar ao lado de tudo isso, saindo-se com uma resposta “à Mourinho” quando lhe perguntaram o impacto de poder ficar a sete pontos em caso de derrota. “E se sairmos a um do FC Porto? Também pode acontecer…”.

“Estamos todos bem de saúde, treinámos todos. Não há ninguém impedido de viajar ou de jogar, não há ninguém que fique para trás. Vamos todos. Fizemos um bom jogo em Londres e, não havendo dois jogos iguais, se pudéssemos ter o mesmo tipo de controlo seria a situação ideal. Esta virose começou em Londres.  Há um jogador que é o grande culpado, eu sei quem é e brinco com ele, depois fui eu… Foi preocupante há uns dois dias mas hoje [sábado] toda a gente treinou. Esqueçam a virose, para mim não entra na equação. O FC Porto tem muito trabalho por trás, há ali muito trabalho. A equipa está bem, tem uma estrutura óbvia, dinâmicas bem adquiridas e os resultados são consequência do muito trabalho que têm e que nós não temos”, tinha referido o técnico na antecâmara do primeiro clássico desde o regresso a Portugal.

“Ao nível tático tivemos um dia que nos permitiu trabalhar bem, mas com baixa intensidade, as nossas ideias. Ao nível emocional é importante que tanta gente nova perceba bem o contexto. Para um treinador que já esteve do lado de lá e está do lado de cá é mais fácil antecipar cenários ao nível emocional. Mesmo que tenham tido clássicos de outros países de onde venham, é importante terem uma boa noção do que este clássico tem”, reforçou José Mourinho, sem fugir ao peso de uma partida com o contexto que esta teria.

Foi muito por aí que passou o clássico, foi muito por aí que o Benfica conseguiu “sobreviver” no Dragão com um nulo que, nesta fase do clube e da equipa, perante um FC Porto que só sabia ganhar até ao momento. Não se pode dizer que os encarnados tenham chegado ao Dragão para ganhar de uma forma assumida, o plano de maior risco que podia estar guardado para os minutos finais não saiu da gaveta, mas a imagem que ficou da formação encarnada foi a de um conjunto competente, bem organizado taticamente para secar todas as fontes ofensivas dos azuis e brancos e que nunca permitiu grandes oportunidades a não ser o momento em que Rodrigo Mora, nos descontos, acertou na trave na primeira vez que tocou na bola. Numa semana em que se falou tanto de viroses, Mourinho encontrou o antídoto para travar o líder e continuar na luta.

Ficha de jogo

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FC Porto-Benfica, 0-0

8.ª jornada da Primeira Liga

Estádio do Dragão, no Porto

Árbitro: Miguel Nogueira (AF Lisboa)

FC Porto: Diogo Costa; Alberto Costa, Bednarek, Kiwior, Francisco Moura; Alan Varela (Rodrigo Mora, 90′), Froholdt, Gabri Veiga (Pablo Rosario, 62′); Pepê (William Gomes, 62′), Borja Sainz e Samu (Deniz Gül, 74′)

Suplentes não utilizados: Cláudio Ramos, Prpic, Eustáquio, Zaidu e Ángel Alarcón

Treinador: Francesco Farioli

Benfica: Trubin; Dedic, António Silva, Otamendi, Dahl (João Rego, 90+4′); Enzo Barrenechea, Richard Ríos, Aursnes; Lukebakio (Leandro Barreiro, 79′), Sudakov (Tomás Araújo, 90′) e Pavlidis

Suplentes não utilizados: Samuel Soares, Gonçalo Oliveira, Schjelderup, Ivan Lima, Henrique Araújo e Ivanovic

Treinador: José Mourinho

Ação disciplinar: cartão amarelo a Richard Ríos (45′), Bednarek (48′), Pepê (62′), Alan Varela (77′), Pablo Rosario (80′), Borja Sainz (90+4′), Francisco Moura (90+4′) e Dedic (90+4′)

O clássico começou exatamente como se esperava, com o FC Porto a tentar “afogar” o Benfica nos minutos iniciais com aquela expressão “de faca na língua” a fazer mais sentido do que nunca perante a forma como um dos estreantes em jogos grandes no Dragão, Borja Sainz, foi ao chão de carrinho cortar duas tentativas de passe longo de António Silva e acabou a olhar para as bancadas de olhos abertos pedindo o apoio dos adeptos enquanto estava a morder a língua. Em paralelo com isso, Mourinho foi visado nos cânticos da claque dos azuis e brancos depois para a passagem para o rival, o mesmo acontecendo com Otamendi que ouvia assobios em todas as ações que tinha com bola. O ambiente era escaldante, os encarnados mostravam que sabiam ir caminhando sobre brasas, Mourinho ganhava o primeiro round a Farioli no duelo tático do clássico.

Em termos ofensivos, apesar de um par de iniciativas de Lukebakio que nada deram pelas falhas no passe decisivo, o Benfica mostrava pouco ou nada. Sem bola, aí, mostrava uma lição bem estudada: tirava largura ao jogo dos azuis e brancos com a subida dos laterais nas alas e as superioridades numéricas feitas com os deslocamentos dos médios (sendo que as tentativas de Pepê e Borja Sainz por dentro encontravam quase sempre oposição), conseguia bloquear com o posicionamento de Aursnes as ações do todo-o-terreno Victor Froholdt, tirava também do jogo Alan Varela na primeira fase de construção. Por mais que as bancadas fossem tentando reagir a tudo o que acontecesse como se fosse um lance de final de Champions, o clássico continuava “morno”, com a hipótese de haver um golo a não ser mais do que uma miragem.

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do FC Porto-Benfica em vídeo]

Estava decorrida meia hora sem balizas, estavam a chegar 15 minutos bem mais intensos perto das áreas. A primeira situação com algum perigo nasceu pela esquerda do ataque do FC Porto, com Gabri Veiga a ver bem a entrada de Francisco Moura sem compensação de Lukebakio, o lateral a conseguir ainda cruzar mas Pepê a chegar ligeiramente tarde na área para o desvio de cabeça (30′). De seguida, numa falta em zona central que “ganhou” e marcou, Sudakov atirou forte mas para defesa a dois tempos de Diogo Costa (33′). Ato contínuo, num lance que parecia não ter pernas para mais, Samu encontrou um palmo de terreno para cruzar ainda na linha de fundo perante a oposição de Dahl e Pepê, a ganhar a segunda bola após corte, atirou de pé esquerdo por cima (35′). Os dragões cresciam antes do intervalo, tendo a mais flagrante oportunidade num remate de Francisco Moura que ficou prensado na área por um grande corte de António Silva antes de Trubin defender com a perna no chão para canto a recarga de Gabri Veiga (42′). Seguia-se o descanso.

Sem necessidade de fazer mexidas nos jogadores, Farioli e Mourinho partiam para uma espécie de terceiro round depois das melhorias que o italiano foi conseguindo introduzir na equipa sobretudo com Samu, com outros movimentos a fugir dos centrais que abriu espaços para os movimentos de rutura nos médios. Do lado do FC Porto, perante a liberdade que os encarnados davam para serem os centrais a sair a partir de trás, era na primeira fase de construção que poderia estar a chave para começar a soltar as unidades nevrálgicas do meio-campo para a frente. Da parte do Benfica, com o encaixe quase perfeito sem bola naquilo que era o jogo ofensivo dos portistas, o desafio passava por ganhar metros, sendo que os minutos iniciais tiveram a tentativa de sair a partir de trás com bola que depressa mudou para a bola mais longa perante alguns lances em que o técnico percebeu que a equipa não estava com a confiança necessária para superar a pressão alta.

Gabri Veiga, num remate de meia distância após ganhar uma bola a Lukebakio à entrada da área, deixou um primeiro aviso à baliza de Trubin (56′) mas o FC Porto continuava a enfrentar as mesmas dificuldades com que se deparara no primeiro tempo mas com um crescimento sustentado do Benfica em posse. Foi aí que as primeiras substituições começaram a surgir, com as saídas de Gabri Veiga e Pepê para as entradas de Pablo Rosario e William Gomes, no minuto que coincidiu com a grande oportunidade dos encarnados no clássico até aí num desvio inadvertido de Kiwior para a sua própria baliza que bateu na trave antes de sair para canto (63′). Pouco depois, e na primeira vez em que partiu para o 1×1 com Dahl da direita para o centro, William Gomes tentou aquele remate em arco de pé esquerdo ao poste contrário que não passou longe (68′). As questões táticas não perdiam importância mas havia outro vetor que ganhava peso: a condição física.

Era isso que colocava os encarnados em vantagem: com o passar dos minutos, o FC Porto quebrou na parte física, com tudo o que isso envolvia depois a nível de decisões, ocupação de espaços ou saídas em transição. Até quando a inspiração aparecia por uns segundos, como aconteceu numa combinação entre Borja Sainz e Francisco Moura pela esquerda, havia sempre uma perna milagrosa a cortar o último passe como aconteceu com António Silva. Mourinho só mexeria a dez minutos do final, colocando Leandro Barreiro na posição de Lukebakio visando também um maior controlo pelo meio que permitisse dar metros às subidas de Dedic. Já Farioli, de forma tardia, arriscou com Rodrigo Mora no lugar de Alan Varela em cima do minuto 90, para fazer apenas os quatro minutos de compensação até ao final. Parecia não dar para nada, poderia ter sido mesmo a chave de tudo: após uma jogada fantástica de Deniz Gül pelo meio, o avançado assistiu Mora que estava descaído sobre a esquerda para um remate em arco de pé direito que ainda bateu na trave (90+1′).

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