Este artigo é da responsabilidade de Excelência Robótica

Kris Maes conta com um percurso marcado pela evolução na urologia robótica e pela formação de uma nova geração de cirurgiões. Fomos conhecer a estória do primeiro cirurgião robótico no país, que começou em 2010, quando foi convidado a estrear o sistema da Vinci no Hospital da Luz. Vinte anos e mais de quatro mil cirurgias depois, conversámos com Kris Maes sobre o passado, o presente e o futuro da cirurgia robótica.

Realiza cirurgia robótica com o sistema da Vinci há mais de 20 anos. Conte-nos como tudo começou.

Eu já realizava laparoscopia da próstata e do rim desde 2000, quando o sistema robótico da Vinci foi introduzido na Europa, em 2002. Percebeu-se rapidamente que esta tecnologia poderia transformar o mundo cirúrgico. Tive a sorte de encontrar e conectar-me com colegas que estavam entre os primeiros a explorar este campo e, em 2003, já integrava equipas que realizavam cirurgia robótica. Em 2005, o hospital belga onde trabalhava adquiriu o sistema da Vinci e passámos a realizar, diariamente, cirurgias robóticas em casos de cancro da próstata, do rim e da bexiga.

Como aconteceu o seu envolvimento com a cirurgia robótica em Portugal?

Em 2010, fui convidado pela engenheira Isabel Vaz, CEO do Grupo Luz Saúde, para iniciar um programa de cirurgia laparoscópica e robótica no Hospital da Luz, em Lisboa. O hospital planeava adquirir um sistema robótico da Vinci e procurava um cirurgião experiente para iniciar as primeiras cirurgias e formar equipas locais. Comecei então a vir regularmente a Portugal para operar e ensinar.

A determinada altura tomou a decisão de ficar permanentemente em Lisboa. Como correu essa mudança?

Em 2013, mudei-me com a minha família para Lisboa. A decisão foi desafiante, deixei para trás um cargo estável na Bélgica, onde já realizava cerca de 250 cirurgias robóticas por ano, com uma equipa consolidada. Existia alguma incerteza, especialmente tendo em conta a situação económica de Portugal, na altura. Contudo, vi neste convite uma oportunidade única de fazer parte de um projeto pioneiro.

Convencer a minha família foi essencial. Os meus três filhos mostraram-se entusiasmados com a mudança e integraram-se bem em escolas internacionais. O maior desafio, para mim, foi a língua. Não falava quase nada de português e tive de aprender rapidamente, pois precisava de ser fluente para me poder registar na Ordem dos Médicos.

Isso tornou-se uma das minhas prioridades. A adaptação à língua e a necessidade de reconstruir a minha reputação profissional num novo país foram os desafios mais significativos.

Como evoluiu a cirurgia robótica, a nível internacional e nacional, nestes vinte anos?

Em Portugal, tudo começou em 2010, no Hospital da Luz, com a introdução do primeiro sistema da Vinci. Fui o primeiro urologista a realizar cirurgia robótica no país. Comecei com uma pequena equipa, ao lado do meu colega de Urologia, Rui Formoso, que foi fundamental nessa fase inicial. Progressivamente, fomos realizando cada vez mais intervenções e formando novos médicos.

Na mesma altura, o cirurgião geral Carlos Vaz iniciava as suas primeiras intervenções robóticas e, gradualmente, outras especialidades — como torácica, cardíaca e ginecologia — começaram também a integrar a abordagem robótica. Em 2016, o Hospital da Luz adquiriu o segundo sistema, o da Vinci Xi.

Contudo, tivemos que esperar por 2019 para ver chegar a cirurgia robótica aos hospitais públicos, tendo sido o Hospital Curry Cabral, da USL São José, o primeiro a adotá-la. Atualmente, a maioria dos hospitais públicos em Lisboa e Porto já possui sistemas robóticos, assim como todos os hospitais privados nas duas metrópoles. De Braga a Faro, os principais hospitais do SNS já contam com implementação de sistemas robóticos da Vinci, incluindo a Região Autónoma da Madeira.

No contexto internacional, a cirurgia robótica teve início nos Estados Unidos, entre 2000 e 2002, e depois expandiu-se para a Europa, com Bélgica e Itália a serem os primeiros países a implementá-la. Seguiram-se a Alemanha, França e Espanha. Para além da Europa, a cirurgia robótica já está bastante desenvolvida no Brasil e na Ásia. Atualmente, existem mais de 10 670 sistemas cirúrgicos da Vinci instalados em todo o mundo. Naturalmente, os Estados Unidos são o país com mais sistemas robóticos da Vinci em operação – cerca de 5 000 – enquanto na Europa estão em funcionamento mais de 1 800.

Como avalia a evolução do sistema cirúrgico da Vinci ao longo dos anos?

A evolução tem sido impressionante. A plataforma da Vinci Xi representa atualmente o sistema mais avançado de cirurgia robótica. Faculta uma visão imersiva 3DHD aumentada até 10 vezes, instrumentos com 540° de rotação — mais do que a mão humana — maior precisão e acesso facilitado a zonas anatómicas difíceis. Mais recentemente, nos EUA, surgiu uma quinta geração com maior velocidade e integração de inteligência artificial. Já existe, também, o sistema da Vinci SP (Single Port), que permite realizar cirurgias com uma única incisão, o que é particularmente vantajoso em intervenções em áreas de acesso limitado.

Quais as principais diferenças nas intervenções de cirurgia robótica ao longo destes 20 anos?

Inicialmente, as intervenções robóticas eram sobretudo urológicas — prostatectomias radicais, nefrectomias parciais e cistectomias. A urologia liderou a cirurgia robótica, seguida rapidamente pela cirurgia geral, ginecologia e pela cirurgia torácica, que beneficiou enormemente ao permitir intervenções intratorácicas minimamente invasivas.

O mais interessante é que, ao longo dos últimos vinte anos, desenvolvemos técnicas que são específicas e somente possíveis com o robô da Vinci. Ao longo desse tempo, não apenas continuamos com intervenções convencionais, mas redescobrimos e aprimoramos técnicas exclusivamente para a cirurgia robótica. Essa evolução redefiniu a nossa abordagem cirúrgica e a compreensão da anatomia humana, demostrando que a cirurgia robótica se tornou uma forma distinta de operar, alterando a perceção do corpo humano na prática médica.

A nossa equipa conseguiu produzir publicações científicas, demonstrar a nossa qualidade e participar em congressos internacionais com palestras e cirurgias com transmissão em direito, para divulgar a marca Luz Saúde globalmente. Hoje, podemos afirmar que nossa equipa de cirurgia robótica da Vinci é uma das melhores da Europa, com reconhecimento em termos de qualidade e resultados.

Atualmente, contamos com três robôs da Vinci: um no Porto e dois em Lisboa, trabalhando em colaboração com várias equipes. Além disso, é importante destacar que o nosso serviço obteve a idoneidade formativa de Urologia robótica no Sistema Nacional de Saúde e uma certificação europeia como ERUS Fellowship Program Host Center, que nos permite formar oficialmente outros médicos em cirurgia robótica e emitir certificados europeus, um dos poucos centros no mundo inteiro.

Um legado de inovação e ensino

O percurso profissional de Kris Maes é exemplo da interseção entre a tecnologia e a medicina. Como pioneiro, formador e inovador, o seu legado é um testemunho vivo do impacto positivo que a tecnologia pode ter na vida dos pacientes. Com um olhar sempre voltado para o futuro, continua a formar uma nova geração de cirurgiões robóticos em Portugal e no estrangeiro, enquanto instrutor oficial da Intuitive Surgical na Europa.

O seu contributo é amplamente reconhecido pela comunidade médica e académica. Ao celebrar duas décadas de dedicação à cirurgia robótica, Kris Maes mantém o seu compromisso com a evolução da medicina: “o futuro promete avanços ainda mais disruptivos e o papel do cirurgião robótico continuará a ser determinante na forma como reinventamos os procedimentos cirúrgicos para proporcionar os melhores cuidados de saúde aos nossos pacientes, que são o centro de toda a nossa atuação e o nosso objetivo maior. Tudo o que fazemos é para eles e por eles.”