Estamos na década de 1990, na cidade fictícia de Big Bone, Oregon, no escritório de cinco mulheres que asseguram o trabalho administrativo de uma grande serração. O cenário de clausura, num ambiente estéril, parece saído de um filme slasher (subgénero do terror marcado pela carga psicológica). E não estamos assim tão longe da realidade que se revela. Do grupo de mulheres contamos quatro secretárias – Dawn, Ashley, Peaches e Patty – e a supervisora, Susan Curtis. As tarefas administrativas, geridas por uma rígida hierarquia, e os limites éticos das relações laborais neste contexto profissional estão prestes a ser postos à prova. É a partir daqui que entramos no universo de As Secretárias, peça encenada por Maria Inês Marques, em cena no Estúdio Valentim de Barros, nos Jardins do Bombarda, em Lisboa, de 17 a 19 de outubro.
Confinadas a este espaço, atravessado por influências que vão de Twin Peaks a Mad Men, acompanhamos o quotidiano e a convivência destas funcionárias. O foco recai primeiro sobre a relação entre as quatro secretárias e, em seguida, sobre a forma como a supervisora gere o trabalho, oscilando entre a camaradagem e jogos de poder. Juntas, estas mulheres formam um culto secreto que se dedica a corrigir as injustiças de género na empresa através do assassinato mensal de um lenhador, sempre na primeira noite das suas menstruações sincronizadas.
Profundamente atual e atento aos estereótipos associados a este tipo de função laboral, o espetáculo marca a primeira adaptação para palcos portugueses da peça The Secretaries, do coletivo The Five Lesbian Brothers. Estreada em 1993 no célebre WOW Café, em Nova Iorque, a obra marcou a vanguarda teatral norte-americana, propondo uma reflexão rigorosa e desconfortável sobre o poder do patriarcado no âmbito profissional, político e interpessoal das mulheres. Três décadas depois, encontra na encenadora portuguesa não só a mesma preocupação temática, mas também uma ligação direta à realidade portuguesa.
▲ Assiste-se igualmente à quebra das barreiras entre chefia hierárquica e trabalhadoras. A ética e a moral são colocadas em causa, e o ambiente onde a união faz a força transforma-se também em espaço de abuso
Formada em Dramaturgia pela Yale School of Drama, nos Estados Unidos, Maria Inês Marques conheceu o texto no seu contexto original que, desde logo a interessou, mas também uma familiaridade e ligação inusitada à situação vivida em Portugal. “Aquele escritório relembrava-me um local semelhante onde trabalhou a minha mãe e onde também cresci. Lembro-me da decoração, do cheiro a tabaco e de toda a estética dos anos 90, que nesta adaptação decidi manter, tal como no original”, explica ao Observador.
Os padrões de leopardo das roupas, a maquilhagem carregada, os cabelos exuberantes, as máquinas de escrever, as molduras com fotografias de gatos e outros detalhes de cenografia transportam-nos para essa realidade que não é apenas uma versão americanizada do mundo das secretárias. Está presente na ficção televisiva da época, na música pop – a encenadora recorda-se, a título de exemplo, do vídeo de Shania Twain da canção That Don’t Impress Me Much – mas também numa tendência contemporânea, onde muitos criadores procuram recriar essa estética expressionista e assumidamente kitsch.
Quando o poder vira abuso
Como comédia negra bem inscrita no seu género, a peça é incisiva na forma como aborda os vários temas e na linguagem pop fluida que atravessa toda a narrativa, facilitando o diálogo com diferentes gerações. A apresentação das personagens e a oscilação entre solidariedade e desconforto sentida pelo público fazem parte da sua construção. “Nunca olhe uma secretária nos olhos”, avisa uma voz off logo no início, que ao longo da peça dita outras regras sobre como o público deve posicionar-se neste universo onírico, por vezes bizarro.
Uma nova secretária chega ao emprego. Fala-se do seu percurso notável, com formação superior numa das melhores universidades do país. Conseguiu, por sorte, numa chance de “um para um milhão”, o trabalho que sempre sonhara. É agora a mais recente integrante deste grupo de secretárias que, primeiro, desconfia e interroga, mas rapidamente a acolhe. Ao longo da peça, assistimos a momentos marcados pela inveja, pelos boatos e pelo maldizer, mas também por laivos de companheirismo e de espírito coletivo que emergem neste contexto.
No desenrolar da ação, assiste-se igualmente à quebra das barreiras entre chefia hierárquica e trabalhadoras. A ética e a moral são colocadas em causa, e o ambiente onde a união faz a força transforma-se também em espaço de abuso e de assédio. Em duplo sentido, a peça critica o sistema patriarcal e machista, mas funciona igualmente como autocrítica: estas mulheres acabam por mover-se dentro dessa mesma lógica, mesmo que isso as conduza a um contexto autodestrutivo.
“É uma crítica a essa passividade que também existe. Penso sempre num clássico pop, como é o caso da série Mean Girls… há um grande prazer naquela performance, de fazer parte da trupe e de serem bem recebidas, ao mesmo tempo que há um lado perverso na manutenção da sua sobrevivência”, sublinha a encenadora, que não deixa de destacar também o papel da supervisora. “A Susan Curtis, embora em certos momentos se coloque do lado das secretárias, continua a ser garante de uma ordem patriarcal. Não questiona o patrão e fá-lo em nome dos seus interesses individuais.”
▲ No palco destas secretárias, reconhecemos não só um retrato dos anos 90, mas também um espelho do presente
Perante estas várias camadas de autocrítica, importa, acrescenta Maria Inês Marques, refletir sobre a relação das mulheres com o mercado de trabalho, que ainda hoje sustenta tantos estereótipos e desafios que, por mais anos que passem, continuam a reaparecer. Nesse sentido, a figura da secretária é um dos exemplos mais fascinantes. “É um dos grandes estereótipos dessa relação da mulher com o mundo laboral do século XX e até mesmo atualmente. Continuo a ficar perplexa com a manutenção paternalista da mulher no cargo de assistente ou de coadjuvante. Há sempre um aposto que a coloca nesse lugar de retaguarda e mesmo na sua relação com a máquina”, sustenta a encenadora.
No universo de As Secretárias, esse lado satírico de vingança e resistência ganha corpo num culto que, sob a capa de missão coletiva, pratica a sua própria caça furtiva ao homem. Mais de 30 anos depois da estreia, a peça mantém a atualidade ao questionar discursos conservadores, inclusive por parte de mulheres, que insistem em resgatar um papel subalterno, aliado ao homem e marcado por um machismo latente.
“Não é que haja um público ideal para este espetáculo, mas se tivesse de escolher diria que também seria importante para algumas mulheres ligadas à extrema-direita e às políticas conservadoras, como vemos na administração Trump ou em cargos políticos um pouco por toda a Europa. É um fenómeno que me irrita, mas que me interessa bastante e que quero perceber. É uma nova vaga de um movimento quase suicida”, observa.
Entre o progresso conquistado e a sombra de um conservadorismo que regressa com força, “a luta contra os estereótipos laborais e o assédio permanece urgente”, ouvimos várias vezes. No palco destas secretárias, reconhecemos não só um retrato dos anos 90, mas também um espelho do presente.
Com tradução e encenação de Maria Inês Marques, o espetáculo conta com interpretação de Carolina Amaral, Crista Alfaiate, June João e Maria Jorge, no papel de quatro secretárias, e ainda de Lígia Roque, no papel da sua chefe. Depois de Lisboa, onde vai estar em cena na Sala Estúdio Valentim de Barros/Jardins do Bombarda (pertence ao Teatro D. Maria II), entre os dias 17, às 21h00, 18, às 19h00, e 19, às 16h00 (sexta a domingo), e, por fim, dia 23 (quinta-feira), a peça será apresentada no Cineteatro Louletano, em Loulé, com horário por definir.