A Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra anunciou que desde este sábado o Serviço de Urgência do Hospital Geral, comummente chamado de Hospital dos Covões, funciona como Centro de Atendimento Clínico (CAC) assegurando situações agudas não emergentes.
“A ULS de Coimbra decidiu qualificar a resposta do Serviço de Urgência do Hospital Geral (HG) como Centro de Atendimento Clínico (CAC), reforçando a rede de respostas assistenciais de proximidade e promovendo uma maior adequação dos percursos dos utentes aos diferentes níveis de cuidados”, anuncia em documento.
Na nota de imprensa enviada à agência Lusa, a administração refere que a decisão surge “na sequência da análise do perfil de atividade do serviço de urgência do HG, que registava entre 10 a 15 atendimentos diários, face a uma média de 450 atendimentos por dia no Serviço de Urgência dos Hospitais da Universidade de Coimbra” (HUC).
“Este desfasamento evidenciou a necessidade de reorganizar a resposta assistencial, garantindo a melhor utilização dos recursos e uma maior eficiência na resposta fora do horário normal de funcionamento das unidades de cuidados primários”, justifica.
O novo Centro de Atendimento Clínico do HG, realça a administração presidida por Alexandre Lourenço, “assegura o atendimento clínico imediato e resolutivo a situações agudas não emergentes”.
Um atendimento que funciona “como uma resposta complementar e articulada com as unidades de saúde familiar, a Linha SNS24, os cuidados domiciliários e os hospitais”.
“Paralelamente, os HUC passam a referenciar doentes para este centro, sempre que adequado, assegurando respostas mais rápidas e humanizadas para situações clínicas que não exigem o enquadramento hospitalar de urgência”, destaca.
No entender da administração da ULS de Coimbra, a rede de Centros de Atendimento Clínico (CAC) da ULS de Coimbra “constitui um pilar essencial do modelo assistencial integrado da instituição, assegurando que cada cidadão tenha uma porta de entrada adequada ao seu estado clínico e à sua localização geográfica, num quadro de proximidade, continuidade e eficiência”.
Atualmente, esta rede de atendimento clínico funciona no Hospital Arcebispo João Crisóstomo (Cantanhede), no Hospital do Avelar (Ansião), no Hospital da Fundação Aurélio Amaro Dinis (Oliveira do Hospital), no Hospital da Compaixão (Miranda do Corvo) e passa a funcionar também agora no Hospital Geral, Covões, (Coimbra).
A administração refere ainda que, desde a criação dos Centros de Atendimento Clínico da ULS de Coimbra, já foram atendidos “mais de 12 mil utentes referenciados pela Linha SNS24”.
Ou seja, justifica, uma contribuição “significativa para a redução da afluência às urgências hospitalares (redução de 17% face a igual período do ano anterior) e para uma melhor adequação da resposta às necessidades reais da população”.
“Com o objetivo de reforçar a cobertura no concelho de Coimbra, a ULS de Coimbra prevê ainda a abertura de outro Centro de Atendimento Clínico, destinado a responder às necessidades das duas margens do rio Mondego, consolidando uma rede de respostas assistenciais de proximidade e acessíveis a todos”, indica.
Enfermeiros denunciam “morte anunciada” do serviço
O Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) considerou hoje que a passagem do serviço de urgências do Hospital Geral, vulgo Hospital dos Covões, para centro de atendimento clínico é “a morte anunciada” do serviço.
“Há muito que as sucessivas comissões liquidatárias, vulgo governos, ministérios da saúde e respetivas administrações, tinham traçado o fim da Urgência do Hospital Geral do Covões. Hoje, foi o passo/decisão final de uma morte há muito anunciada”, realça.
Numa nota de imprensa enviada à agência Lusa, o SEP indica que, nos “últimos meses, a administração da ULS Coimbra, foi descaracterizando o acesso dos utentes àquela urgência, até que deixou de haver referenciação do INEM para ocorrer a situações de urgência”.
A título de exemplo, o sindicato refere que na quinta-feira, “incompreensivelmente, os enfermeiros da urgência do Hospital dos Covões receberam um email da ULS Coimbra” a informar que “por decisão do CA, a partir de dia 31 de Outubro o SU deixará de ter doentes a partir das 20:00”.
“Neste sentido iremos alterar as escalas de trabalho e solicitar que a segurança encerre as portas às 20:30 e proceda à sua abertura às 07:30”, anuncia.
De acordo com a decisão do diretor do Serviço, refere o sindicato, “as inscrições dos doentes serão apenas até às 18:00 para permitir que até às 20:00 os doentes estejam observados e com orientação clínica”.
Um dia depois, refere o sindicato, e “dando o dito por não dito, dois responsáveis da direção de enfermagem, deslocaram-se ao serviço e informaram os trabalhadores presentes que a partir de 31 de outubro de 2025, a urgência encerrava definitivamente”.
“Há muito que afirmamos que à boleia das proclamadas sinergias da fusão dos hospitais de Coimbra, da dita reestruturação da rede de referenciação de diversas especialidades médicas, da economia de escala e o que mais lhes interessou e interessa, para o ataque e descaracterização do SNS [Serviço Nacional de Saúde], o Hospital Geral dos Covões, é o alvo a abater. Só podia”, destaca.
Isto, porque no entender do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, “ao lado esquerdo da margem do Mondego, onde o capelo e a borla carunchosa da universidade não gostam de ir nem nunca foram” e “onde também reside povo laborioso”.
“A golpada de veludo da fusão, que mais não foi do que anexação com vista à destruição duma instituição. Simultânea e paulatinamente, constrói-se um caminho que leva à sangria de recursos humanos”, considera.
Para a direção do sindicato, esta decisão “tem como consequência o necessário caminho de confluência política dos setores mais interessados no negócio da doença”.
“Não sejamos ingénuos. O caminho e o plano para o Hospital Geral dos Covões (HGC), foram e estavam traçados. O Plano para o HGC era e continua a ser o não plano”, escreve.
Neste sentido, o sindicato avisa que “estará na primeira linha em defesa de um SNS universal, geral e gratuito”, pelas “legítimas aspirações dos utentes e profissionais” e numa “clara rutura com a política de destruição mansinha e de veludo do SNS”.
E “exige uma efetiva e verdadeira reorganização hospitalar para fortalecer a resposta pública e não permitir fragilidades que deem azo ao florescimento do setor privado, como continua a acontecer em Coimbra”.
PCP exige reversão da decisão
O Partido Comunista Português (PCP) exigiu, entretanto, a reversão da decisão da ULS de Coimbra.
“É uma decisão errada que tem que ser revertida”, exige o Partido Comunista Português (PCP) numa nota enviada à agência Lusa.
No entender do PCP, esta decisão da administração da ULS de Coimbra “ao serviço do governo do PSD/CDS” lembra “a primeira tentativa de encerramento, em 2012” e que o partido se manifestou, igualmente, contra.
Para o PCP, “o número de utentes abrangidos pela área que serve este hospital justifica a manutenção, em pleno, das urgências do Hospital dos Covões” e realça que “as urgências não são gorduras, não são redundâncias, não são desperdícios”.
“Gorduras, redundâncias e desperdícios são as parcerias público-privadas na saúde, a convenção de serviços que podem ser oferecidos pelos serviços públicos, a contratação privada de meios auxiliares de diagnóstico quando há capacidade instalada no público”, refere o PCP.
Esta decisão, no entender do partido, “não pode ser desligada da destruidora fusão dos Centros Hospitalares de Coimbra que deu origem ao CHUC, decidida em 2010 durante o governo PS e implementada no terreno a partir de 2011 pelo Governo do PSD/CDS, continuada pelos sucessivos governos”.
O que levou a “encerramentos de muitas valências, e aprofundada pelo último governo de maioria absoluta do PS com a criação da ULS que passou a ser uma estrutura de anormal dimensão e de difícil e complexa gestão, com uma área de influência enorme”.
“A insistência nesta medida, 13 anos depois, demonstra que a política dos governos do PSD/CDS tem como objetivo central o desinvestimento e desarticulação do SNS, criando assim caminho para o florescimento do negócio da doença”, entende o PCP.
Para o PCP, o envio dos doentes para o serviço de urgência do Bloco Central do CHUC “não é solução, apenas contribuirá para as crescentes situações caóticas e sobrelotação nos serviços, degradando condições de atendimento e favorecendo o negócio” da doença.