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"Zeca, esta noite preciso de abrigo": e se voltássemos aos coliseus com José Afonso?

Este artigo tem mais de 6 meses

Música, teatro, vídeo e literatura cruzam-se em “José Afonso, ao vivo nos Coliseus, 1983”, espetáculo do Teatro Experimental do Porto. Depois do Rivoli, segue-se Lisboa, Loulé e uma paragem na Galiza.

A interpretação está a cargo de Catarina Chora, Catarina Carvalho Gomes, Inês Salvado e Hugo Inácio, enquanto a banda é composta por Mariana Leite Soares, Pedro João, Josué, Saulo Giovannino e Teresa Costa
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▲A interpretação está a cargo de Catarina Chora, Catarina Carvalho Gomes, Inês Salvado e Hugo Inácio, enquanto a banda é composta por Mariana Leite Soares, Pedro João, Josué, Saulo Giovannino e Teresa Costa

@José Sérgio

▲A interpretação está a cargo de Catarina Chora, Catarina Carvalho Gomes, Inês Salvado e Hugo Inácio, enquanto a banda é composta por Mariana Leite Soares, Pedro João, Josué, Saulo Giovannino e Teresa Costa

@José Sérgio

Trabalhar a memória e a figura de José Afonso, “figura incontornável da cultura portuguesa do século XX”, era uma vontade antiga, conta Gonçalo Amorim, diretor artístico do TEP – Teatro Experimental do Porto. E ei-la agora concretizada no espetáculo José Afonso, ao vivo nos Coliseus, 1983, criado com base nos últimos concertos que o cantor e compositor deu, nos coliseus de Lisboa e do Porto, naquele ano.

José Afonso inclinava-se para recitais coletivos, gostava de “convidar toda a gente para tocar com ele”, mas, nessa ocasião, em que a doença já o debilitava (morreria quatro anos depois, em Setúbal), apresentou-se em nome próprio. “Foi uma despedida do cantor da Revolução, do poeta da Revolução e, ao mesmo tempo, da própria Revolução”, interpreta Gonçalo Amorim, encenador do espetáculo, que se estreia, no próximo dia 7, no Teatro Municipal do Porto / Rivoli.

O concerto de Lisboa, em particular, foi registado pela RTP e imortalizado em álbum, filme-concerto e numa edição restaurada que o recupera de forma quase integral. Tal documento histórico transparece em José Afonso, ao vivo nos Coliseus, 1983 (inclusive, no alinhamento seguido), sem se colar demasiado a ele. Para tal, o TEP desafiou cinco autores, de diferentes ramos da escrita, a elaborar um texto para alguém que poderia estar a assistir àquele concerto em 1983 como em 2025.

Miguel Cardoso, Lígia Soares, Marta Figueiredo, Susana Moreira Marques e Rui Pina Coelho responderam à chamada, e o resultado foram cinco textos, de estilos diferentes, que vão sendo intercalados com as canções. O de Rui Pina Coelho, por exemplo, “pede uma noite de asilo ao Zeca”, assinala Gonçalo Amorim, um dos diretores artísticos do TEP, a par com o próprio Pina Coelho (responsável pela coordenação dramatúrgica) e com Catarina Barros (que assegura a cenografia).

Diz assim o texto de Pina Coelho: “Zeca, acho que esta noite preciso de abrigo. Dói-me muito a cabeça. Já quase não consigo abrir os olhos. / Ando muito fotossensível, com isto tudo. / Estou muito cansado. Acordo sempre com dor de cabeça. / Só me apetece ficar calado. / É de mim ou isto está a ficar um bocado abafado? Controlado. Censurado”.

▲ “Há uma toada triste, por vezes com um pouco de raiva, às vezes um bocadinho de confusão, desespero, mas também muito cerrar de dentes, muito abraço coletivo, muita camaradagem”

@José Sérgio

“No fundo, estamos a pedir energia e força a José Afonso para um tempo confuso, difícil de lidar, com algumas derrotas até civilizacionais”, comenta Gonçalo Amorim. “Revejo-me no texto do Rui. Pedimos uma noite de asilo ao José Afonso para, de forma amiga, nos reunirmos à volta do seu legado e tentar recuperar algumas ideias que ele foi passando”, prossegue, convicto de que “não são só as ideias da Revolução que estão sob ameaça — é a própria democracia”.

Gonçalo Amorim não duvida de que “a nossa Revolução está sob ataque”, hoje, pois “o revivalismo da ditadura é evidente”, marcando presença na esfera pública de forma diária. “Não é fácil cantar a Grândola a plenos pulmões. Não somos tontos, sabemos o que está a acontecer”, continua, a propósito do momento, durante o espetáculo, em que as gargantas parecem fechar-se, incapazes de soltar aquelas palavras, aquela melodia. Outras é certo que se vão ouvir.

É uma oportunidade para mergulhar no universo musical do autor, com temas como Natal dos Simples, Os Vampiros, Canção de Embalar ou A Morte Saiu à Rua a desfilar pelo palco. “Há uma toada triste, por vezes com um pouco de raiva, às vezes um bocadinho de confusão, desespero, mas também muito cerrar de dentes, muito abraço coletivo, muita camaradagem”, conclui o mesmo responsável, em conversa com os jornalistas, à margem de um ensaio aberto que mereceu a presença de Pedro Afonso, filho de José Afonso.

“O objetivo não é endeusar Zeca, ele não quereria isso”

Tanto Pedro como Zélia Afonso, viúva do cantor, foram ouvidos no processo de desenvolvimento do espetáculo, explica Gonçalo Amorim: “A Zélia disse-me que gostava que a obra do Zeca fosse usada com atualidade, nada de histórias de vida ou pessoais”. Apesar de ser um artista que colhe grande unanimidade, “não gostávamos que ficasse só a imagem do Zeca consensual e inócuo”, até porque essa teve “uma forte componente de compromisso político”, precisa. Dito de outra maneira: “O grande objetivo não é endeusar Zeca, porque ele não quereria isso”.

Pedro Afonso confirma: “O meu pai sempre foi anti-vedeta e sempre foi avesso ao vedetismo dos outros, também. Aos vedetismos, aos narcisismos dos artistas. Não é ser excessivamente humilde. Ele era genuinamente anti-vedeta e profundamente exigente em relação ao trabalho e, muitas vezes, o vedetismo anda de mãos dadas com uma menor exigência em relação à qualidade e à ética do trabalho”.

▲ “Não gostávamos que ficasse só a imagem do Zeca consensual e inócuo”, até porque essa teve “uma forte componente de compromisso político”

@José Sérgio

É longa a relação da família com o TEP, contextualiza Pedro Afonso: “Os meus pais vinham muito ao Porto e tinham muita ligação ao teatro. O TEP teve um papel incontornável no teatro político, muito antes do 25 de abril”. Pedro é investigador na área de Biologia Marinha e vive há décadas no Faial, nos Açores, onde integra o Teatro de Giz, “um grupo de teatro amador que se vê também como teatro político”.

O Teatro de Giz já fez vários trabalhos com o TEP e com Gonçalo Amorim. O primeiro deles foi a peça Toda a gente, “na ressaca da Troika, muito sobre a emigração forçada dos portugueses para fora, tal como os muitos imigrantes que agora estão a ser vilipendiados com as novas leis também o fazem de forma forçada; têm de sustentar as famílias, o mesmo que os portugueses fizeram na altura”.

Há um par de anos, aquele grupo da ilha do Faial pôs igualmente em palco, com encenação de Gonçalo Amorim, O Rinoceronte, de Eugène Ionesco. “É uma peça sobre como o nazismo se apoderou da sociedade alemã na altura, mas que é por demais atual”, recorda Pedro Afonso. “Fala sobre a força como, quase voluntariamente, nos deixamos aprisionar por narrativas que nos desumanizam.”

“Uma espécie de fim de festa da Revolução”

Por agora, é “José Afonso, ao vivo nos Coliseus, 1983” que concentra as atenções, com a estreia agendada para o dia 7 de novembro, no Teatro Municipal do Porto / Rivoli, e uma segunda sessão, na mesma sala, no dia seguinte. Seguem-se apresentações, de 11 a 13 de dezembro, na Culturgest (Auditório Rui Vilar), em Lisboa; e, no dia 16 de dezembro, no Salón Teatro de Santiago de Compostela, na Galiza. Já no dia 8 de janeiro, é a vez de rumar ao Cineteatro Louletano, em Loulé.

▲ “No fundo, estamos a pedir energia e força a José Afonso para um tempo confuso, difícil de lidar, com algumas derrotas até civilizacionais”, comenta o diretor artístico Gonçalo Amorim

@José Sérgio

O espetáculo estende-se por duas horas e meia, com um intervalo de 15 minutos. Ao longo da atuação, Mariana Leite Soares, que dá voz e corpo ao músico, vai mencionando nomes essenciais das suas relações, como Adriano Correia de Oliveira, Rui Pato ou Júlio Pereira, e também revisitando momentos da sua vida, como a passagem por Coimbra. A interpretação está a cargo de Catarina Chora, Catarina Carvalho Gomes, Inês Salvado e Hugo Inácio, enquanto a banda é composta por Mariana Leite Soares, Pedro João, Josué, Saulo Giovannino e Teresa Costa. Os figurinos, da autoria de Cátia Barros, incluem cabeças de animais, ou não estivesse a animália muito presente na obra de Zeca, da formiga ao vampiro.

No ensaio aberto, Pedro Afonso teve o primeiro contacto com a obra já de pé, após as muitas conversas iniciais. “Havia uma espécie de fim de festa da Revolução”, recorda ele, acerca daquele último concerto, que “foi, incontornavelmente, um momento muito particular de uma certa vivência cultural e definiu como a cultura é política em Portugal”.

“A forma como o Gonçalo [Amorim] quis pegar na ideia como leitmotiv para repensar um pouco onde estamos, como comunidade, nestes tempos tão desafiantes, é uma ideia muito interessante e absolutamente legítima, porque isso é matéria viva que pode e deve ser usada para pensar politicamente. A cultura inócua do ponto de vista político nunca foi algo que interessasse ao meu pai, que era professor de liceu. Foi empurrado para a profissão de músico porque o regime a isso o obrigou.”

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