As luzes acendem-se no palco e surgem letras gigantes, vermelhas, a lembrar as das cidades-marca, que levam os turistas a posar para fotografias destinadas às redes sociais. Juntas, compõem a palavra “Matadouro”. Fala-se num “negócio sanguinário”, o do comércio de carne. Empresários sorridentes contam cabeças à medida enquanto se abeiram de um grupo de pessoas que soam como animais: vacas, ovelhas, porcos. São trabalhadores que hão de erguer as vozes, em coro, para reivindicar o básico: salário para pôr comida na mesa e garantir um teto. Ao longo de duas horas e meia, ouve-se falar de fome, exploração, desemprego, despejos. Eis Santa Joana dos Matadouros, peça de Brecht levada à cena, por Bruno Martins, diretor do Teatro da Didascália, com estreia agendada para a próxima quinta-feira, no Teatro Carlos Alberto, no Porto. O paralelismo com os tempos atuais é assumido.
De lutas entre empregados e empregadores se faz o espetáculo, ou não fosse o cenário a Chicago da Grande Depressão, na ressaca do crash bolsista de 1929, nos Estados Unidos da América, quando ao colapso da economia se seguiram o desemprego, a miséria, a desesperança. É uma peça fulcral no repertório brechtiano, escrita entre 1929 e 1931, mas que só viu a luz em 1959, essa que Bruno Martins e o Teatro da Didascália pretendiam, há muito, abordar. Pelo menos desde 2020, conta o responsável pela encenação e dramaturgia, à margem de um ensaio aberto à imprensa.
Em rigor, eram duas as obras de Brecht que o encenador tinha ganas de trabalhar, porque “se afiguravam muito pertinentes no contexto atual”, e assim foi: A Ascensão de Arturo Ui, relativa à ascensão da extrema-direita, e esta Santa Joana dos Matadouros, que “nos fala do crescimento do neoliberalismo, de uma política capitalista super agressiva”, com impacto sobre os trabalhadores, assim como da “nossa vida quotidiana em geral”.
▲ “Somos 70 mil trabalhadores nas indústrias de carne Lennox; com salários tão baixos, não conseguimos viver nem mais um dia”, atiram os trabalhadores em palco, em coro
Bruno Martins não duvida: “Aqui, estamos no contexto de um matadouro, mas poderíamos estar a falar sobre trabalhadores a título individual”. “Apesar de partir do crash da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, todos os mecanismos que orientam esta peça estão muito próximos do que é a mais esta nova investida de um capitalismo agressivo que estamos a viver, e não só em Portugal”, acrescenta, dando como exemplo as “guerras tarifárias”.
O encenador encontra semelhanças também no que toca à emergência da extrema-direita em Portugal, e critica, o contexto atual, a cedência aos “fait divers montados pela extrema-direita, episódios recentes, relacionados com coisas que não são sequer problemas, como as questões ligadas à imigração, à nacionalidade ou à burka”, enquanto, a seu ver, temas como a saúde, a educação e a habitação é que deviam estar a ser debatidos.
Mata-galos a servir de megafones
“Somos 70 mil trabalhadores nas indústrias de carne Lennox; com salários tão baixos, não conseguimos viver nem mais um dia”, atiram os trabalhadores em palco, em coro. Vestem fatos de operários de diversas cores, personalizados com motivos tão diferentes como corações ou caveiras (os figurinos são de Catarina Barros), e empunham megafones que mais não são do que os chamados mata-galos, funis usados para ceifar a vida a animais. Bruno Martins salienta a preocupação em dar voz àquelas pessoas (elas mesmas desumanizadas em certos momentos) e em fazer ouvir os seus protestos enquanto força coletiva que não se cinge a um contexto específico.
Daí em diante, os trabalhadores mostram-se em protesto, marchando, entoando cânticos como “Estamos do lado dos sofredores. Ó tu, que estás a naufragar, há quem acuda, não te vais afogar!”. E, pouco depois, entra em cena a personagem que dá nome à peça: é Joana Dark, numa referência a Jeanne D’Arc, e nas costas do seu fato de operária bege exibe uma caveira negra, em jeito de prenúncio. “Ela é uma mártir. É como se tivesse estampado já o seu fado”, comenta Bruno Martins.
▲ os trabalhadores mostram-se em protesto, marchando, entoando cânticos como “Estamos do lado dos sofredores. Ó tu, que estás a naufragar, há quem acuda, não te vais afogar!”
Trata-se de uma mulher movida pela fé, que procura lutar ao lado dos operários, acabando por se ver enredada numa teia com efeitos, por vezes, perversos. O seu idealismo embate nas lógicas do mercado. Quando primeiramente se revela, fala de um “mundo parecido com os matadouros”, de “tempos sombrios” e de Deus como remédio para esses males. Afinal, Ele garante sustento tanto aos “lírios do campo” como aos “pássaros, que não têm carteira profissional”, observa. “Todos vós quereis subir na vida. Mas subir para onde, e de que maneira?”
“Escolher entre pagar a renda e comer”
E o mundo laboral é mesmo como um matadouro? Bruno Martins pára para refletir e conclui: “O mundo do trabalho esmaga. Por mais produtivos que sejamos (e temos sido, com recurso a máquinas, inclusive), a produtividade não tem acompanhado as expetativas salariais”. Mais: “Seja o trabalho, seja a falta dele, é esmagador. Sou do Vale do Ave, e lembro-me de, em fins dos anos 1980-90, com as crises no setor têxtil, trabalhadores plantarem-se à porta das fábricas, na expetativa [de que reabrissem], porque deixavam de ter função. Fazemos parte dessa ideia de sociedade em que só somos úteis quando estamos a produzir. E hoje as pessoas são obrigadas a escolher entre pagar a renda e comer – outra vez. Como diz um trabalhador, na peça: como é que vou pagar agora a minha casa, cujo cheiro a humidade já nos é tão familiar? Até o mais miserável dos sítios nos é caro.”
Santa Joana dos Matadouros, uma criação do Teatro da Didascália em coprodução com o Teatro Nacional São João, a Casa das Artes de Famalicão e o Cineteatro Louletano, fica no Teatro Carlos Alberto até ao próximo dia 16. Há sessões quarta, quinta e sábado, às 19 horas; sexta, às 21 horas; e domingo, às 16 horas. Os bilhetes custam 12 euros.
▲ Esta é uma peça fulcral no repertório brechtiano, escrita entre 1929 e 1931, mas que só viu a luz em 1959
Depois da temporada no Teatro Carlos Alberto, o espetáculo segue para a Casa das Artes de Famalicão, onde fica em cena nos dias 28 e 29 de novembro, e no próximo ano ruma a Sul. Há apresentações programadas para 28 de fevereiro, no Teatrocine de Torres Vedras, e para 26 e 27 de março, no Cineteatro Louletano, em Loulé. Do elenco fazem parte Beatriz Wellenkamp Carretas, Carolina Rocha, Eduardo Breda, Flávio Catelli, João Cravo Cardoso, João Melo, João Miguel Mota, Lucília Raimundo, Pedro Couto e Telma Cardoso. Já a composição e a direção musical estão a cargo de Amélia Muge.