A última parte do calendário na Europa correu da melhor forma, com Miguel Oliveira a fazer coincidir uma resolução final em relação ao futuro através do contrato com a BMW para rodar no Mundial de Superbike com os melhores resultados da temporada e ao serviço da Prima Pramac Yamaha na Catalunha e em São Marino (nono lugar), a passagem para outras latitudes voltou a trazer resultados mais modestos, entre um 11.º na Indonésia a pontuar na sprint, um 12.º na Austrália, um 14.º no Japão e um 19.º na Malásia depois de sofrer uma queda na corrida. Agora, o português voltava ao Velho Continente. Mais do que isso, voltava ao “seu” Grande Prémio no Autódromo Internacional do Algarve. A poucas semanas de fazer a despedida do MotoGP, o Falcão chegava a uma zona de conforto onde era a principal figura entre todos os presentes.

“Profeta na sua terra”, “arrasador”, “sensacional”: imprensa internacional rendida ao “Grand Chelem” de Miguel Oliveira

Aliás, bastou ver a receção no evento “Acelera Portimão”, promovido pelo próprio Autódromo Internacional do Algarve, para se perceber como existe uma realidade quase paralela em torno do piloto de Almada quando regressa ao país, com cerca de dois mil fãs a juntarem-se para ver ao vivo o seu “herói”. “Mais do que ser um momento motivador, é um momento de grande gratidão por todo o apoio recebido ao longo de todos estes anos”, apontou Miguel Oliveira à margem dessa cerimónia entre autógrafos e fotografias. Foi também esta quinta-feira que foi revelado o capacete especial que o piloto da Yamaha vai utilizar ao longo do fim de semana de “despedida”, com essa frase de “O menino que acreditou” em destaque na parte de trás.

“Quero aproveitar este fim de semana da melhor maneira possível. Sinto uma onda de emoções especial sempre que chego a esta pista. Há uma nostalgia associada a essa vitória que consegui aqui [em 2020]. Todos os anos sonhas em repeti-la, mas os desafios surgem sempre e este ano não é diferente. Ser o único piloto português na grelha dá-me uma motivação extra e correr em casa faz-me querer dar ainda mais”, referiu na antecâmara do arranque dos treinos livres, sem fechar a porta a um regresso ao MotoGP: “Neste momento, não há oportunidade para mim aqui. Agora é estar concentrado no que posso fazer na próxima época mas também neste fim de semana. O futuro permanece em aberto”, acrescentou ainda o português.

Em paralelo, Miguel Oliveira assumiu que a saída da Yamaha apenas um ano depois “foi uma experiência muito humilhante em todos os aspetos, porque nada é garantido”. “Cheguei com perspetivas de uma parceria de longo prazo, sabendo que precisaria de algum tempo e que a moto precisaria de algum tempo. Fui apanhado de surpresa em termos desta lesão porque demorou mais tempo do que esperávamos, não foi uma lesão de ‘correção rápida’ que permite regressar algumas semanas depois. Isso atrasou o meu processo de familiarização com a moto e de adaptação, levando-a ao limite. As decisões forçaram-me a ficar sem lugar. Acho que não devo encarar isso com ressentimento ou qualquer tipo de arrependimento, porque sei que dei o meu melhor. É esse o sentimento com que preciso de terminar, no final das contas: que fiz o melhor possível para ficar e o melhor não foi suficiente”, assumiu também em conferência de imprensa.

Era neste contexto que começava a última viagem do Falcão no Algarve no Mundial de MotoGP, com uma estreia que deixou uma boa “notícia” entre um resultado modesto do português: Miguel Oliveira não foi além do 20.º registo da manhã, que teve ainda umas ameaças de chuva mais na parte final, acabando com um tempo acima do 1.40 (1.40,857) ao contrário do que aconteceu com a maioria dos pilotos. Ainda assim, Jack Miller, com uma terceira posição a rodar em 1.39,378 apenas atrás de Álex Márquez (1.39,145) e de Marco Bezzecchi (1.39,341), mostrou que a Prima Pramac Yamaha tinha condições para crescer ao longo do dia, deixando em aberto essa janela de possibilidade de um lugar no top 10 para o piloto português.

Durante largos minutos, esse era um cenário que parecia muito complicado. Aliás, a 20 minutos do fim da sessão vespertina, Miguel Oliveira continuava ainda com um fosso superior a 0,6 segundos para entrar nos dez mais rápidos. As próprias paragens do português nas boxes mostravam o desalento que parecia sentir com as dificuldades encontradas, que neste caso chegavam também a Jack Miller, a rodar mais rápido do que o companheiro de equipa mas também longe do top 10. O time attack estava a aproximar-se, a Yamaha tinha somente Quartararo em posições de Q2 com o décimo registo, a chuva foi começando a dar sinais ainda que sem provocar alterações no asfalto e, já com essa ameaça superada, confirmou-se mesmo que o piloto da “casa” teria mesmo de passar pela Q1 este sábado, não indo além do 22.º e último lugar à tarde.

Álex Márquez, que corre no Algarve já com o segundo lugar do Mundial garantido atrás do seu irmão Marc Márquez, voltou a ser o mais rápido na sessão vespertina, assegurando a qualificação para a Q2 com o tempo de 1.37,974. Pecco Bagnaia (1.38,004) e Pedro Acosta (1.38,062) completaram o pódio a fechar os treinos livres esta sexta-feira, seguindo-se Marco Bezzecchi, Joan Mir, Johann Zarco, Fabio Di Giannantonio, Fermín Aldeguer, Pol Espargaró e Ai Ogura a fechar o top 10. Miguel Oliveira acabou com 1.39,881 num dia em que todos os pilotos da Yamaha ficaram fora da Q2 com Quartararo a ser o melhor com o 13.º lugar.