Uns minutos antes, no mesmo palco 7 do Sports Summit da Web Summit, Giorgio Ricci, diretor operacional do Inter que é responsável por toda a estratégia comercial, de parcerias e marca do conjunto de Milão, tinha abordado vários assuntos no painel “Investir no futuro do futebol”. Se fechássemos os olhos e não tivéssemos referências sobre quem era o interlocutor, poderia ser um dirigente de um dos “grandes” de Portugal – com as devidas diferenças de realidade, claro, mas com pontos chave que são transversais e comuns a todos.
Ponto 1: o Inter, como qualquer clube de renome internacional que não esteja na Premier League, sabe que tem o desafio quase diário de encontrar formas para minimizar aquilo que é a dependência do peso da venda dos direitos televisivos no total de receitas. Ponto 2: o Inter, como qualquer clube de renome internacional que não esteja na Premier League, tenta encontrar as melhores maneiras de chegar às novas gerações falando a linguagem que vai nortear uma nova forma de “consumir” o jogo. Ponto 3: o Inter, como qualquer clube de renome internacional que não esteja na Premier League, aposta também nas infraestruturas para a partir daí potenciar novas e melhores verbas, neste caso com um novo San Siro que vai nascer até ligeiramente mais pequeno do que o atual mas com capacidade de melhorar a experiência dos fãs e aumentar todos os espaços corporate com o que isso tem de revenue. Ponto 4: o Inter, como qualquer clube de renome internacional que não esteja na Premier League, sabe que está obrigado a brilhar na Champions para estar depois no centro das grandes decisões do futebol internacional, numa fase em que a “riqueza” está cada vez menos distribuída.
À devida escala e proporção, até tendo em conta que o Inter voltou a uma final europeia na última temporada frente ao PSG (e que terminou o exercício com um lucro recorde de 35 milhões de euros também pela boa participação na Liga milionária), estes são quase guias para todos os planos a breve/médio prazo dos clubes nacionais. No fundo, tudo passa por “repensar os clubes globais para os adeptos e para a era digital”, naquilo que se pode descrever como “futebol da nova geração”. E foi nesse painel no Sports Summit que marcou presença André Bernardo, vice e diretor de estratégia do Sporting, a par de Alejandro Ugarrio, diretor do Atleti Lab do Atl. Madrid, e Erdem Erkul, vice-presidente executivo do Galatasaray.
“O Sporting faz parte de algo que tem muito a ver com valores, com pessoas que têm uma ligação ativa a nós. O que nos diferencia dos outros é o sentimento de pertença, sentir que se faz parte de algo. O mundo digital facilitou muito nisso. Recentemente, lançámos um plano estratégico a dez anos anos, no qual vemos o Sporting na intersecção entre três ecossistemas: bem-estar, entretenimento e estilo de vida. É no meio destes três que nos encontramos. Temos como principal missão assegurar que o clube seja, de forma estratégica, um pólo desportivo e de estilo de vida, em que, todos os dias, se possa levar a marca para todo o lado. É um ecossistema aberto e bidirecional. Todos os dias são dias de jogo para nós, são dias dos fãs e são dias para vestir Sporting. É levar a causa a todo o lado”, começou por referir, recordando aqueles que foram os principais pressupostos do plano apresentado pelos leões no ano passado para a próxima década.
“Posso dar dois exemplos de como pretendemos fazer essa ligação. Há duas ou três semanas, lançámos um novo conteúdo chamado In my boots. O objetivo é que as pessoas sintam que estão nas botas do jogador, a viveram essa experiência. Usámos os óculos Meta da Ray-Ban e isso criou uma grande agitação no primeiro vídeo, porque aparece um jogador famoso, o Francisco Trincão, com os óculos e todos perguntam ‘O que se passa com os óculos?’. Gerou uma grande agitação e depois lançámos o conteúdo e percebemos através das lentes a experiência de estar no balneário, de chegar ao estádio e do pós-jogo. Já fizemos três vezes isso, também com um dos treinadores adjuntos no campo e no último encontro com o Luis Suárez. As pessoas gostam muito disso, é um exemplo de uma ligação direta com os adeptos e que procuramos”, referiu.
“Outro exemplo que vamos lançar a breve prazo no futuro será uma parceria com o Shopify. Vamos lançar uma coisa chamada My Way, que é o nome da nossa música principal. Queremos que as pessoas façam as coisas à maneira delas, portanto vão poder escolher as suas próprias coleções, a sua organização, as suas roupas. Vão ter o direito de poder escolher se querem a camisola A, B ou C. Provavelmente, no futuro, quando tivermos capacidade, vamos ouvir que opções os adeptos gostariam de ver e votaremos por isso. Vamos dar poder ao adepto e tornar isto numa rede e uma ligação em que participam e criamos juntos. No fim de tudo, o Sporting é uma cultura. Vivemos por ela e existe uma crença forte em relação à causa de ser adepto do Sporting. É outro exemplo do que tentamos fazer de forma mais personalizada para trazer o fã não só para o centro mas para participar no ecossistema que tentamos construir”, acrescentou André Bernardo.
“No final, aquilo que queremos é que as pessoas saibam quem nós somos, através de uma identidade e de uma autenticidade claras. Pretendemos criar um sistema à volta disso e expandir a marca localmente e globalmente”, concluiu o dirigente do clube de Alvalade, no final desse painel no palco 7 do Sports Summit.