Apesar de tudo, Carlos Alcaraz ainda tem 22 anos. Mesmo com seis Grand Slams no currículo, muitas semanas na liderança do ranking ATP e protagonista de algumas das melhores partidas das últimas décadas, o tenista continua a ser um jovem adulto com sonhos, objetivos e obrigações — principalmente as obrigações familiares dentro de quatro paredes.

“Quando chego a casa sou o Carlos de sempre. Não sou o tenista, o número 1, seja o que for. Sou o mesmo de sempre. Como passo muito pouco tempo em casa, cada vez que volto gosto de estar com os meus pais e os meus irmãos. A minha mãe também sente a minha falta e ainda quer que esteja em casa. Mimam-me, sim, de vez em quando. Não sei cozinhar e a minha mãe é uma cozinheira fantástica, aproveito muito, não há nada igual à comida da minha mãe. Mas em casa dos meus pais existem regras. Já não me dão horas para chegar, mas continuam a dizer ‘não venhas tarde’, ‘faz isto’, ‘faz aquilo’… Se não cumpro, repreendem-me”, contou o espanhol em entrevista ao jornal ABC.

Em pleno ATP Finals, onde já está nas meias-finais apesar de ainda defrontar Lorenzo Musetti esta quinta-feira, Carlos Alcaraz sentou-se com o jornal espanhol durante alguns minutos para responder a perguntas rápidas. Desde logo, o facto de ainda esta semana ter travado uma batalha dura contra Taylor Fritz, na fase de grupos da competição que nunca conquistou, derrotando o norte-americano ao fim de praticamente três horas. Jogos que, para o espanhol, são o contrário de se sentir imbatível.

“Momentos em que a vitória esteve muito difícil, como ontem ou na final de Roland Garros, funciona ao contrário. Não te sentes invencível, mas sim vulnerável, porque sentes que tens lacunas e debilidades que os outros podem aproveitar. É um ‘feedback’ muito bom para continuar a trabalhar”, sublinhou o tenista, que com uma vitória contra Musetti pode também garantir que termina o ano civil na liderança do ranking ATP e à frente de Jannik Sinner.

Quase a encerrar uma temporada onde conquistou Roland Garros e o US Open, mas perdeu a final de Wimbledon e continua sem ganhar o Open da Austrália, Carlos Alcaraz está agora concentrado em oferecer às qualidades físicas uma dimensão mental que diz ainda não ter. “O facto de estares positivo ou negativo, a nível mental, pode ter influência. Tenho estado a trabalhar esse lado de estar forte mentalmente para que, nos momentos de dificuldade, possa ver as coisas com maior clareza e com muita calma”, explicou, abordando depois a maneira como interpreta as derrotas.

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“Claro que me sinto culpado. A larga maioria das coisas da partida passa apenas por ti. Sentes-te desiludido porque sabes que podes fazer muitíssimo melhor. A parte boa é que, como as coisas dependem de ti, tens a possibilidade de mudar, sabes o que tens de fazer para melhorar. Sou uma pessoa sempre muito positiva, tento retirar o lado bom das coisas, seja uma derrota ou um momento negativo. Ao invés de pensar sempre no mal que fiz, tento dar prioridade ao bom que já existe”, acrescentou.

Alcaraz garante que não tem pesadelos com Jannik Sinner, defendendo que a rivalidade que mantém com o italiano é “bonita e necessária”, e reconhece que tem de aprender a passar mais tempo sozinho. “Gosto de ter sempre gente à minha volta, custa-me estar sozinho. É algo que tenho de aprender porque acho que estar sozinho, confiar em ti mesmo, é importante. Mas prefiro estar com pessoas”, confessa, sem esconder que não abdica de algum tempo livre fora do ténis.

“Tenho 22 anos e gosto de me divertir, de passar bons momentos. Há muitas opiniões, há muita gente que acha que não faço bem e que saio mais vezes do que devia, que estou sempre em festas, que não trabalho. Não pensam que consigo conciliar as duas coisas. Acho que, se conseguir fazer tudo de maneira adequada, também tenho de ter tempo para me divertir, para estar com os meus amigos, para sair à noite. Mas ser também profissional dos pés à cabeça e dar prioridade ao trabalho para tentar sempre ser melhor. Acho que é isso que faço”, garante.

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Questionado sobre se está a caminho dos 24 Grand Slams de Novak Djokovic, Carlos Alcaraz mantém a calma — e lembra que ainda “nem está perto” do sérvio, de Roger Federer ou Rafael Nadal. “O que posso dizer é que estou no caminho certo. Ter seis Grand Slams é algo incrível e que quer dizer que estamos a fazer bem as coisas. Agora tenho de continuar a remar no mesmo sentido, a trabalhar e a treinar da mesma forma ou até melhor. Ninguém sabe o futuro, é incerto”, atira, revelando que também tem o sonho de conquistar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos.

Por fim, numa resposta que reflete a normalidade que sempre quis transparecer, o tenista espanhol deu a sua ideia de “êxito”. “Estar em casa é o que me dá tranquilidade, é o mais bonito. Que me vejam sempre como a mesma pessoa. Os meus amigos olham para mim da mesma maneira que olhavam quando tinha 12 anos, os meus pais a mesma coisa, os meus irmãos também. E para mim isso é o melhor, é o que quero. Dá-me muita tranquilidade para continuar a viajar durante todo o ano”, terminou.