Foi uma conversa que todos tivemos nos últimos dias, com maior ou menor estupefação.

— O jogo no domingo é a que horas?
— Às 14h.
— Às 14h? Da tarde?

E era mesmo às 14h da tarde. À hora do almoço familiar domingueiro, Portugal recebia a Arménia no Estádio do Dragão e tinha a terceira possibilidade consecutiva de carimbar o apuramento direto para o Campeonato do Mundo. De certa maneira, a hora precoce do jogo era também a melhor maneira de a Seleção Nacional fugir a uma ansiedade crescente que se acumulava ao longo do dia — não era possível esperar pelas 18h, pelas típicas 19h45 ou até pelas europeias 20h. O melhor era mesmo resolver tudo às 14h.

Ficha de jogo

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Portugal-Arménia, 9-1

Qualificação para o Mundial 2026

Estádio do Dragão, no Porto

Árbitro: Irfan Peljt (Bósnia)

Portugal: Diogo Costa, Nélson Semedo, Rúben Dias (Rúben Neves, 73′), Renato Veiga, João Cancelo (Matheus Nunes, 73′), João Neves, Vitinha (João Félix, 68′), Bruno Fernandes, Bernardo Silva (Francisco Conceição, 56′), Rafael Leão (Carlos Forbs, 56′), Gonçalo Ramos

Suplentes não utilizados: Rui Silva, José Sá, Diogo Dalot, António Silva, Gonçalo Inácio, João Palhinha, Trincão

Treinador: Roberto Martínez

Arménia: Henri Avagyan, Kamo Hovhannisyan, Erik Piloyan, Sergey Muradyan, Styopa Mkrtchyan, Nair Tiknizyan, Artur Serobyan (Zhirayr Shaghoyan, 45′), Karen Muradyan (Artyom Bandikyan, 85′), Eduard Spertsyan, Narek Aghasaryan (Edgar Sevikyan, 45′), Grant-Leon Ranos (Arayik Eloyan, 65′)

Suplentes não utilizados: Ognjen Cancarevic, Arsen Beglaryan, Georgy Arutyunyan, Karen Nalbandyan, Edgar Grigoryan, Gor Manvelyan, Narek Grigoryan, Gevorg Tarakhchyan

Treinador: Eghishe Melikyan

Golos: Renato Veiga (7′), Eduard Spertsyan (18′), Gonçalo Ramos (28′), João Neves (30′, 41′ e 81′), Bruno Fernandes (gp, 45+3′, 52′ e gp, 72′), Francisco Conceição (90+2′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Karen Muradyan (70′)

Dias depois da difícil derrota contra a Irlanda em Dublin, onde tudo ficou ainda mais negro com a expulsão de Cristiano Ronaldo com cartão vermelho direto, Portugal tinha uma última oportunidade para garantir desde já o passaporte para o Mundial 2026. Para isso, bastava vencer a Arménia ou até empatar, sendo que nesta segunda opção era preciso esperar por um resultado favorável da Hungria contra a Irlanda.

“Temos uma equipa com muita responsabilidade e autocrítica. Tentamos criar um ambiente para crescer depois dos jogos, ainda mais depois de uma derrota. Estamos tristes. Já falei desse jogo, agora não é o momento de falar disso. A tristeza é uma oportunidade. Jogar em casa, em frente aos nossos adeptos. Em frente de uma equipa que respeitamos, mas é uma equipa perante a qual queremos demonstrar a nosso nível. E fechar o apuramento. Já são quase três anos, a dinâmica em termos coletivos é muito estável”, explicou Roberto Martínez na antevisão da partida.

Assim, sem Cristiano Ronaldo mas com Bruno Fernandes de volta do castigo, o selecionador nacional abdicava de Rúben Neves para dar a titularidade ao médio do Manchester United e ainda trocava Diogo Dalot, Gonçalo Inácio e João Félix por Nélson Semedo, Renato Veiga e Rafael Leão face ao jogo contra a Irlanda, sendo que Gonçalo Ramos era naturalmente a referência ofensiva. Do outro lado, numa Arménia já sem possibilidade de apuramento e vinda de três derrotas consecutivas, Eghishe Melikyan apostava em Grant-Leon Ranos e Artur Serobyan no ataque.

Num dia em que utilizou de forma única e inédita um equipamento de homenagem a Eusébio, totalmente negro, a Seleção Nacional assumiu desde logo o controlo total da posse de bola e atuava inserido no meio-campo contrário, mas sem grande capacidade para criar perigo no último terço. Ainda dentro dos dez minutos iniciais, porém, o golo apareceu mesmo. Bruno Fernandes bateu um livre direto na esquerda, Henri Avagyan defendeu para a frente e Renato Veiga, na recarga, cabeceou para abrir o marcador (7′).

A vantagem portuguesa, ainda assim, durou pouco mais de dez minutos. Na primeira aproximação à baliza de Diogo Costa, Grant-Leon Ranos fugiu a Bruno Fernandes na direita e cruzou para a área, onde Eduard Spertsyan se antecipou a Nélson Semedo para desviar para a baliza (18′). Portugal respondeu de imediato, com Gonçalo Ramos a aparecer na área a rematar para defesa de Henri Avagyan após cruzamento de Rafael Leão na esquerda (20′), mas a vantagem só foi recuperada já perto da meia-hora.

Gonçalo Ramos aproveitou um erro colossal da defesa da Arménia, pensou uns segundos à frente e intercetou um atraso para o guarda-redes para o contornar e atirar para a baliza (28′). A partir daí, a Seleção Nacional vergou por completo o adversário e foi aumentando os números com relativa facilidade e sem oposição: João Neves estreou-se a marcar por Portugal com um remate de fora de área após combinação entre Vitinha e Bruno Fernandes (30′), bisou logo depois com um brutal livre direto (41′) e Bruno Fernandes, já nos descontos, engordou a goleada de grande penalidade após falta sobre Rúben Dias (45+3′).

Ao intervalo, Portugal estava a golear a Arménia no Dragão e colocava-se a um pequeno passo do Campeonato do Mundo. Sem estar a ser necessariamente brilhante, a equipa de Roberto Martínez ia aproveitando a passividade adversária e acrescentava qualidade na eficácia para alimentar um resultado que ia fazendo esquecer a desilusão de há poucos dias em Dublin.

Eghishe Melikyan mexeu logo ao intervalo e trocou Narek Aghasaryan e Artur Serobyan por Edgar Sevikyan e Zhirayr Shaghoyan. A lógica do jogo manteve-se e Portugal beneficiou desde logo de duas oportunidades nos primeiros minutos da segunda parte, com Rafael Leão a obrigar Henri Avagyan a uma defesa apertada (47′) e João Cancelo a atirar por cima (48′), acabando por alargar o resultado à terceira: Bruno Fernandes combinou com Gonçalo Ramos e, já na área, atirou cruzado para bisar e aumentar a goleada (52′).

Roberto Martínez aproveitou o conforto do resultado para estrear Carlos Forbs, lançando também Francisco Conceição para os lugares de Bernardo e Rafael Leão, e Portugal entrou numa fase de total tranquilidade — tinha a bola, não permitia praticamente nada ao adversário e atuava por inteiro no meio-campo contrário, gerindo a vantagem e antecipando claramente o momento do apito final.

João Félix também entrou a pouco mais de 20 minutos do fim, para o lugar de Vitinha e logo depois de o médio do PSG ter rematado ao lado (67′), e Bruno Fernandes chegou mesmo ao hat-trick ao converter nova grande penalidade, desta feita cometida sobre o estreante Carlos Forbs (72′). Roberto Martínez deu minutos a Rúben Neves e Matheus Nunes, João Neves ainda teve tempo para também carimbar o hat-trick, aproveitando uma confusão na área para atirar de forma algo acrobática para a baliza (81′), e Francisco Conceição fechou as contas já nos descontos (90+2′).

Portugal atropelou a Arménia no Dragão e garantiu o apuramento direto para o Mundial 2026 à terceira tentativa, assegurando o nono Campeonato do Mundo em termos absolutos e a manutenção de qualificações ininterruptas desde 2000. A tristeza fez a oportunidade, a união fez a força — mas que ninguém se esqueça dos que fizeram a diferença.