Passaram cinco anos desde um daqueles momentos em que todos e cada um de nós sabe exatamente onde estava e o que estava a fazer quando recebeu a notícia. Numa tarde fria de novembro, numa altura em que a pandemia ainda era e seria assunto e as máscaras faziam parte da indumentária diária do mundo inteiro, Diego Armando Maradona morreu.
Cinco anos depois, nenhuma homenagem ficou por fazer. Buenos Aires e a Bombonera tornaram-se destino de romarias, Nápoles e o San Paolo tornaram-se um memorial a céu aberto — tanto que o estádio deixou de ter o nome que tinha para ter o nome do argentino. Num quase golpe do destino, até a Argentina conquistou o Mundial 2022 e o Nápoles já venceu a Serie A em duas ocasiões, títulos que os dois conjuntos só tinham tocado enquanto Diego Armando Maradona vestia as camisolas azuis. Cinco anos depois, nada ficou por dizer. Mas tudo está ainda por resolver.
Not a day goes by that we don’t miss you, ???????????????????? ♾️ pic.twitter.com/siXqY7WFNf
— Selección Argentina in English (@AFASeleccionEN) November 25, 2025
Desde logo, a decisão final sobre a própria morte do antigo jogador argentino. Na altura, em novembro de 2020, a autópsia indicou que Maradona morreu devido a um edema agudo no pulmão provocado por insuficiência cardíaca. Meses depois, porém, oito profissionais de saúde foram interrogados e acusados de negligência médica e homicídio simples por não terem prestado os cuidados necessários na sequência da cirurgia para retirar um coágulo cerebral que tinha realizado semanas antes: o neurocirurgião, a psiquiatra, o psicólogo, dois médicos e ainda três enfermeiros.
Todos arriscam penas que podem chegar aos 25 anos de prisão e o julgamento chegou a começar no passado mês de março, mas foi interrompido logo em maio. O motivo? A juíza responsável pelo processo, Julieta Makintach, era uma das personagens principais do documentário “Justiça Divina”, oferecendo vários testemunhos detalhados sobre os desenvolvimentos judiciais sem nunca o ter comunicado oficialmente. Julieta Makintach foi destituída e considerada inabilitada de maneira permanente para exercer cargos judiciais, com o julgamento a ser adiado para março do próximo ano.
A dúvida sobre se Diego Armando Maradona poderia ou não ter sobrevivido com outros cuidados médicos, contudo, permanece. Até porque os mais próximos têm declarações ambíguas sobre o assunto — incluindo Rocío Oliva, a última companheira que teve. “Se o assassinaram? A verdade é que não sei. Acho que se deixou ir, abandonou-se muitíssimo. Não queria viver, seguramente”, disse numa entrevista na Argentina há alguns dias.
Para além do julgamento, também o património do antigo jogador continua a provocar desentendimentos — até porque, e muito devido ao facto de este não ter deixado um verdadeiro testamento escrito, existem dois blocos. De um lado da barricada estão as cinco irmãs de Maradona, que se uniram a Matías Morla, o advogado do argentino; do outro lado estão os cinco filhos legítimos, Dalma, Gianinna, Diego Júnior, Jana e Diego Fernando.
A herança total de Diego Armando Maradona ronda os 30 milhões de dólares, entre contas bancárias em vários países, imóveis e uma coleção de carros de luxo que foram distribuídos automaticamente e em partes iguais pelos filhos. Contudo, o que tem estado em causa tem sido a marca do antigo jogador, incluindo os direitos de imagem, que Matías Morla assumiu como sua e que tem comercializado sem consultar os cinco filhos do argentino. Dalma, Gianinna e Jana processaram o advogado por apropriação indevida da marca e das suas receitas, num valor que deve ascender aos 13 milhões de euros, e o caso também está a decorrer na justiça da Argentina.
Mais encaminhada, porém, está a ideia de criar um mural permanente em frente à Casa Rosada, a sede da Presidência da República da Argentina, mesmo no coração de Buenos Aires. O projeto tem sido liderado a partir da Fundação Maradona, coordenada pelos cinco filhos, e os mil metros quadrados destinados à local de homenagem vão incluir um “Muro do Legado” para que os visitantes possam deixar mensagens. Até lá, os filhos do antigo jogador vão pedir a exumação dos restos mortais, atualmente no cemitério de Bella Vista em conjunto com os pais, para que sejam colocados no M10 Memorial.
Seja como for, cinco anos depois, Diego Armando Maradona continua a estar presente e as homenagens nunca são demasiadas. Ainda na semana passada, durante um concerto no Estádio Monumental de Buenos Aires, os Oasis colocaram uma imagem a preto e branco do argentino num ecrã gigante e Liam Gallagher virou-se de costas para o público de braços abertos enquanto cantava “Live forever”. A resposta da multidão de 85 mil pessoas foi simples: “Olé, olé, olé, Diego, Diego”.