De longe vê-se na parede a imagem inconfundível de um ovo estrelado. O branco a brilhar, com algumas bolhas estouradas no rebordo, e o amarelo vivo, um pouco manchado, como se a gema estivesse mais ou menos cozida. Mas é só a poucos metros da parede que se nota o volume no centro da peça, que quase convida ao toque. “Esta imagem do ovo estrelado com o mamilo no lugar da gema, é um resumo muito bom do que é a nossa linguagem. E junta duas coisas. Um lugar comum, que é o ovo, e outro lugar comum, que são as mamas, mas que é escondido”, explica ao Observador a ceramista Maria Betânia, que com Ana Cruz forma a dupla Ana+Betânia. “Peças que envolvem mamas ou mamilos, ou outras partes do corpo feminino, é uma coisa que nós adoramos usar, mas são facilmente associadas a movimentos politizados e feministas. Nós gostamos mais do termo feminino do que feminista. Para nós o feminino é algo que é muito mais bruto, é muito mais intenso, primordial e visceral do que qualquer outra construção que se faça a partir de política”, destaca a artista sobre a peça.
▲ Maria Betânia e Ana Cruz são as ceramistas por trás da dupla Ana+Betânia, que assina o novo azulejo da Clay
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
As artistas, que trabalham juntas desde 2013, apresentam o primeiro trabalho em azulejo no âmbito do Clay, um projeto da Cultural Affairs, entidade fundada por Alexandre Farto, ou Vhils, que produz e comercializa azulejos com assinatura de artistas contemporâneos. “O nosso percurso todo de faculdade foi em azulejo. Ou seja, nós fugimos completamente ao fim de uns anos a trabalhar em azulejo, e agora, ao fim destes anos todos, quando tivemos este desafio, ficámos super contentes, porque era uma coisa que já andávamos a querer voltar há́ algum tempo e isto foi um ótimo pretexto”, comemora Ana Cruz, que destaca algumas exigências da dupla de ceramistas para esta peça. “Era importante ter uma abordagem com algum volume, não ser só bidimensional. E este apelo ao toque. Não só porque na nossa prática comum o volume existe, mas também porque, ironicamente, esta imagem pedia volume e não podia deixar de o ter. Há esta quase que vontade de tocar, mas não sei se devo… À partida podemos tocar, podemos nos apoiar. E há quase que vergonha de tocar num mamilo, mas é logo aí que a gente vai tocar. Portanto, haver também esta relação com o espetador, ou com quem tem contacto com este objeto, de ter esta sensação desconfortável e ao mesmo tempo de apelar à curiosidade do toque”.
O relevo é uma inovação nos azulejos da Clay, que além de Egg, de Ana+Betânia, lançou recentemente o padrão Tshiganji, do artista angolano Yonamine. Delfina Sena é a curadora da coleção, que pretende levar a arte às paredes do dia a dia, seja de colecionadores de artes ou de pessoas comuns. “A ideia, desde o começo, foi reexplorar e reexaminar o azulejo tradicional português, trazendo um toque contemporâneo ao convidar artistas e designers a pensar novamente esta peça, de uma forma nova, mas sempre combinando o antigo com o novo, a tradição com a contemporaneidade”, diz a responsável pela linha de azulejos produzidos em Portugal e até agora criados por artistas como AkaCorleone, Kruella D’Enfer, JonOne e o próprio Vhils.
▲ O relevo e a pintura à pipeta diferenciam o azulejo criado por Ana+Betânia. O artista angolano Yonamine assina o outro lançamento do Clay, que tem ainda peças de Kruella d'Enfer ou JonOne
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O projeto nasceu no verão e até o final do ano deve contar com mais cinco artistas no catálogo, incluindo nomes como Joana Astolfi. O pedido é para que criem um padrão, “uma imagem que pode ser rodada, como os padrões geralmente fazem, para fazer imagens maiores, para deixar a nossa imaginação abrir portas para novos tipos de imagens. Mas também com o objetivo de vender esse padrão como objeto e não só como obra de arte“, explica Delfina Sena, sobre a coleção Patterns, em que os azulejos são vendidos individualmente, e podem ser comprados em unidade, como uma peça de decoração, ou em quantidade, para por exemplo revestir uma parede. “O objetivo do padrão é servir em combinações que podem ser usadas numa cozinha, no exterior e também no interior, numa casa de banho, num corredor, em qualquer lugar. É o uso comum do azulejo, mas de uma forma contemporânea, porque convidamos os artistas a intervir com esses padrões”.
Já na linha Editions, os artistas desenvolvem com o padrão uma combinação específica, que é vendida como uma obra de arte, com a assinatura do seu ou seus autores. “A edição é especial, porque é realmente produzida pelos artistas e tem a sua assinatura”. Por fim, a equipa ainda oferece uma curadoria para instalações específicas, por encomenda. “Neste caso é um colecionador ou uma pessoa que quer ter uma parede ou um painel de azulejos específico, com um tema ou um artista específicos”, explica Delfina. Um único azulejo desenhado por Vhils, por exemplo, custa 35 euros, enquanto o padrão com relevo de Ana+Betânia sai por 50 euros. Já um painel Editions pode ir dos 250 aos 3800 euros, a depender do desenho e do artista.
Apesar de artística, a proposta também precisa considerar uma linha de produção industrial, o que Defina Sena assume ser difícil, à partida, para os autores. Desenhos e cores são alguns dos detalhes que podem funcionar de forma diferente ao serem transpostos da tela para a cerâmica do azulejo, entretanto, a curadora destaca que com Ana+Betânia o desafio foi maior, pela necessidade do relevo. “São uma dupla de artistas muito acostumadas a trabalhar com cerâmica, mas nunca com azulejo. Para elas foi muito difícil pensar em apenas uma imagem. E o que sempre lhes pedimos é que o desafio aqui seja trazer o seu universo, a sua prática, em uma única imagem. Entendemos o desafio de trazê-lo em apenas uma imagem, com a qual você também pode interagir e tocar, e assim por diante. Mas realmente queremos que as pessoas sintam que, mesmo que não estejam a comprar a obra original de um artista, que estão a comprar um azulejo especial, feito por um artista e que transmite o seu universo.”
▲ Delfina Sena, curadora da coleção, diz que o objetivo do projeto é chegar a um público mais abrangente, além dos colecionadores de arte. O Clay ganhou recentemente uma loja física dentro da nova galeria Eterno, em Marvila
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Há poucas semanas o Clay, que já tem loja online, ganhou também um espaço físico — um corner na galeria Eterno, que abriu em junho em Marvila e dedica-se à arte digital. Aqui os clientes podem tocar e sentir os azulejos, parte da experiência artística proposta pelo projeto, que espera alcançar públicos mais abrangentes e chamar a atenção de espaços como hotéis ou restaurantes. “Até agora é verdade que a maioria dos nossos clientes são colecionadores, com quem já estamos em contacto nos últimos anos, por causa do link do Clay com as outras marcas que temos na Cultural Affairs. Mas o nosso objetivo com o Clay é abri-lo para muito mais do que apenas colecionadores. Os azulejos não são apenas para os amantes de arte, mas para todos os tipos de pessoas interessadas em design.”