Debates, workshops ‘hands-on’, competições de programação e de resolução de problemas, ou jantares onde o aperitivo foi a inteligência artificial (IA) preencheram a agenda da Lisbon AI Week, que durante uma semana trouxe a tecnologia ‘hype’ do momento para as ruas da capital no início de novembro. A grande maioria dos cerca de 40 eventos programados conseguiram casa cheia e atraíram mais de duas mil pessoas, um público variado, mais ou menos técnico, com muitos curiosos, de diversas nacionalidades.
Foi num destes eventos, no ambiente descontraído do cowork IDEA Spaces São Sebastião, que encontrámos Pedro Rodrigues e Francisco Ribeiro e Silva, dois jovens empreendedores, fundadores da Mena AI. Com aquele entusiasmo, próprio de quem está a dar os primeiros passos como empreendedor, uma ideia clara na cabeça e um pitch na ponta da língua, explicaram ao Observador o propósito da sua startup. “Queremos devolver tempo aos psicólogos para o que é mais importante, que é a terapia”, afirmou Francisco. A Mena AI propõe-se a eliminar tarefas administrativas e a reforçar o diagnóstico clínico com dados mais precisos, numa aposta que cruza tecnologia e saúde mental.
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Escolheram assistir às duas talks sobre IA na saúde e nas ciências da vida, dinamizada pela PyData, e que contou com a presença de representantes da academia, de um unicórnio, da indústria e de um hospital privado. Estas são áreas que consideram estratégicas para o futuro da empresa e, a meio do programa, as expectativas estavam a ser atingidas. “Estamos atentos às perspetivas da indústria que são os nossos futuros clientes”, esclareceu o fundador.
Além disso, o dia era de comemoração. A equipa da Mena AI já tem um MVP (versão do produto disponível para teste e feedback do mercado) e acabara de receber luz verde para o primeiro caso piloto. “Tivemos hoje uma boa notícia de um primeiro caso de uso”, contou Pedro Rodrigues, visivelmente satisfeito.
Com experiência e motivação diferentes, Maria e Rafaela Carvalho (o mesmo apelido é pura coincidência, como fizeram questão de sublinhar) escolheram este evento pelo valor do networking e pela partilha de conhecimento entre indústria e academia. Maria, colaboradora de uma das empresas patrocinadoras, que viajou propositadamente do Porto, sublinhou que “foi muito interessante e elucidativo, porque tornou simples um tópico complexo”, enquanto Rafaela, profissional da área da inteligência artificial, elogiou a diversidade do segundo painel: “É sempre interessante assistir a uma conversa que inclui grandes referências nesta área”.
Futuro da IA passa pela humanização da tecnologia
Para um público de perfil um pouco mais técnico, o 13.º encontro da comunidade GenAI de Lisboa juntou igualmente algumas dezenas de pessoas no AI Hub Lisbon para um final de dia que começou com um momento de networking, para seguir depois para o debate de três temas importantes que moldam a forma como são construídos e dimensionados os sistemas inteligentes. Observabilidade, análise forense e moneterização da IA atraíram profissionais de diferentes países e setores para explorar o futuro da IA, numa noite que terminou com o convívio entre uma fatia de pizza e uma bebida.
Aida, designer de UX da Roménia, foi uma das participantes que por ali encontrámos. Colaboradora numa startup local, a jovem de 31 anos revelou ao Observador que veio em busca de inspiração. “Estou a tentar aprender o que outras pessoas fazem, e como posso melhorar o meu conhecimento.” Na sua opinião, a troca de experiências foi essencial. “Conheci outro designer UX e trocámos conhecimento…foi muito importante.”
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Já José Camacho, 32 anos, trabalha com IA generativa e escolheu este evento pela qualidade dos oradores e pela possibilidade de networking. “Três oradores muito bons…valeu certamente a pena ter vindo”.
Com um objetivo distinto, Paulo Abreu, 40 anos, veio do Brasil para avaliar o ecossistema de inovação europeu. “Queremos estabelecer novas parcerias e ampliar o nosso alcance global, disse o Chief Product Officer da Wonder Data Labs. Com presença no Brasil, Portugal e EUA, a startup aposta em Lisboa como ponte estratégica.
26 horas de competição non-stop
Num dia diferente, e noutro ponto da cidade, foram 100 os estudantes, de 16 faculdades, que responderam ao desafio da NOVAe, o clube de empreendedorismo estudantil da NOVA IMS. O FORGe hackaton, organizado em parceria com a Lisbon AI Week, e que decorreu no Impact Hub Penha de França, convidava, sob o mote da inteligência artificial, a dar resposta a problemas da vida real, desenvolvendo soluções que, após 26 horas de trabalho ininterrupto, foram apresentados sob a forma de pitch. “O nosso principal objetivo era dar oportunidade a estudantes de todas as áreas e faculdades, nacionais ou internacionais, de terem contacto com o mundo da IA, abrindo portas ao setor e ao empreendedorismo”, explicou ao Observador Gustavo Neves, responsável de Parcerias e Comunicações da FORGe.
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Já para Abdul Khan, presidente da NOVAe, o balanço é muito positivo. “O evento superou todas as expectativas, e foi um orgulho ver alunos com experiências positivas e projetos lançados após 24 horas de muito esforço”. Os dois acreditam que iniciativas como esta são fundamentais para desenvolver o ecossistema. “A IA está a integrar-se na vida de todos, tornando crucial o envolvimento dos cidadãos”, sublinha Abdul Khan, reforçando o desejo de tornar a FORGe uma competição anual.
Mas o desejo de repetição do evento estende-se igualmente à equipa que organizou a primeira edição da Lisbon AI Week. “Foi um estrondoso sucesso”, garante Leo Xavier. O Chief Technology & Innovation Officer (CTIO) no Observador, e um dos promotores da iniciativa, revela que o feedback, tanto dos participantes como dos organizadores de eventos, “foi fantástico”, e que não faltam pedidos para que haja nova edição. “A equipa já está em conversações, incluindo com parceiros que se querem juntar a nós.”