Com um aplauso de pé de um pavilhão morno e um keffiyeh (lenço tradicional que sinaliza o apoio à Palestina) aos ombros, Mariana Mortágua subiu ao palco da XIV Convenção do Bloco de Esquerda para pôr um fim ao seu capítulo como líder, o “orgulho” da sua vida. E foi ali que anunciou que o Bloco deve “mudar tudo” para se reforçar, embora colocando o ónus dos problemas que o partido vive no crescimento da extrema-direita — e garantindo: “Não se livram de nós”.
Em primeiro lugar, e depois de ter ouvido críticas — sobretudo de fora do partido — por ter rumado a Gaza na flotilha humanitária em tempo de eleições autárquicas, fazendo-se substituir no Parlamento, Mortágua quis frisar que não se arrepende dessa decisão. Por isso, falou da “energia” que foi sentindo pelo caminho, nas manifestações em vários países — incluindo a pressão que “levou o Governo de Montenegro a tomar alguma posição, por pequena que fosse”, e reconhecer o Estado da Palestina; criticou os “desalmados da extrema-direita” que não percebem a ligação que se cria entre quem luta por estas causas; e registou que o Bloco falou “a uma só voz” sobre este assunto.
Depois, garantindo que não leva desta fase “qualquer ressentimento nem desalento”, e num momento em que se discute as mudanças que a próxima liderança deve fazer, quis começar por avisar: no Bloco “a combatividade” — uma das características que lhe são mais apontadas, como elogio e como defeito — “não é defeito, é feitio”; o partido é e continuará a ser feminista, a romper “silêncios de gelo” sobre o racismo, a “desmascarar as maravilhas” da precariedade, a “envergonhar quem rouba o povo” e a — “desta não nos perdoam” — “obrigar a pagar impostos e a devolver uma pequena parte do que levaram à força do privilégio” (fazendo questão de lembrar o “imposto Mortágua“, que já recolheu mil milhões de euros para o fundo da Segurança Social — “valeu a pena”).
“Nunca lhes demos descanso e isso eles não perdoam”, concluiu. Ainda assim, admitiu, o Bloco de Esquerda tem de “ser mais forte e recuperar”. “O Bloco tem de mudar quase tudo, e quase tudo não é demais. Só não mudamos a fibra do que somos feitos, porque quem não tiver uma âncora forte será arrastado”.
O que muda ficará para a próxima liderança; a coordenadora cessante dedicou-se a avisar para o “plano da extrema-direita” — “estender os limites do aceitável e apodrecer o senso comum” — e a classificar esta como “a pior versão de todas as misérias e violências da sociedade, os cães de guarda do regime económico”. E é daí, diagnosticou, que vem o “ódio à esquerda”.
“Não se livram de nós, estamos aqui para vencer”, prometeu. Sobre a restante convenção, prometeu que aí virá uma “batalha de ideias“, com o Bloco a tentar responder sobre que partido quer ser e com que alianças vai avançar. “Não escolhemos em que tempo vivemos, mas escolhemos como queremos vivê-lo”, rematou. Numa ovação em pé de um partido que se quis mostrar solidário com a líder, saiu para deixar o lugar sucessor, José Manuel Pureza, que terá como missão dar a volta à situação de declínio do Bloco.