Primeiro as provas continentais, agora o Mundo. De forma paulatina, o futsal feminino foi ganhando o seu espaço competitivo, naquele que foi também o último passo de uma modalidade em que a FIFA aposta forte e que no masculino começa a chegar de forma competitiva a cada vez mais países. Ainda é o início, tem muito potencial para crescer de forma sustentada. E era neste contexto que a Seleção chegava ao primeiro Mundial da história, numa organização assegurada pelas Filipinas que contou com as melhores seleções em Manila. A promoção foi garantida, as decisões estavam agora a chegar, com as duas formações mais fortes de Europa e América do Sul a cruzarem nas meias-finais depois de quatro encontros dos quartos mais desequilibrados do que na teoria se poderia pensar. Era a hora da verdade também para Portugal.

“Agora é continuarmos a ser Portugal. Se fizermos as coisas bem feitas, vai ser difícil não estarmos onde queremos. Este era um dos nossos objetivos claros, desde o sorteio do Mundial. Assumimos logo que um dos nossos objetivos era chegar às medalhas e isso obrigava-nos a chegar, pelo menos, às meias-finais. Estamos onde queremos. Acho que era nosso dever estarmos aqui, pela importância e pelo que temos feito no futsal feminino, não só em Portugal, mas também pelo que temos feito pelo futsal mundial. Este é o nosso lugar, que tanto desejávamos e que nos dava a possibilidade de chegarmos ao nosso objetivo. Que esta meia-final, este Campeonato do Mundo, seja um momento de extrema importância para continuarmos a crescer, o futsal feminino português e mundial. Se queremos ser fortes, precisamos de adversários fortes e competentes. Mas ainda não chegámos aonde queríamos mais, temos outro passo em frente para dar, queremos muito lá estar”, apontara o selecionador Luís Conceição, na antecâmara do jogo com a Argentina.

“Este era o adversário que tínhamos previsto. Só tínhamos de ser nós próprios, fazer o nosso caminho e chegarmos a esta altura na melhor forma. Começámos a olhar já há algum tempo para esta equipa e agora para o que tem feito nestes jogos no Mundial. É uma seleção que nos vai criar muitas dificuldades, com um jogo muito objetivo, muito prático: o que faz, faz bem, de uma forma muito intensa e competitiva. Mas temos de olhar para nós, para o que somos, para o que fazemos, e depois ajustar alguma coisa, em função do que o adversário irá preparar. Mas, essencialmente, sermos nós, sermos Portugal, com este compromisso que temos tido, em todos os jogos, e continuarmos a ser Portugal, nada mais”, pedira o técnico nacional.

Estavam lançados os dados para o primeiro duelo entre Europa e América do Sul, a que se seguiria a partida entre Espanha e Brasil. Para Portugal, esta era também mais uma oportunidade de estar numa grande final, depois das derrotas nos Europeus de 2019 e 2022 frente à Espanha (em 2023 o duelo ibérico aconteceu na meia-final, com a Seleção a acabar essa fase final na terceira posição), em paralelo com a possibilidade de manter a senda 100% vitoriosa depois dos triunfos com Tanzânia (10-0), Japão (3-1), Nova Zelândia (10-0) e Itália (7-2). No final, e no culminar daquela que foi a melhor exibição coletiva e individual das 14 guerreiras lideradas por Luís Conceição, Portugal “atropelou” a Argentina com seis golos de rajada nos dez minutos iniciais e alcançou um histórico apuramento para a final do primeiro Mundial de futsal feminino, ficando agora à espera do vencedor do Espanha-Brasil para a decisão de domingo (11h30).

Melhor início era impossível, confirmando que muitas vezes o mais simples é a melhor receita: reposição lateral, remate de Carolina Pedreira de pé esquerdo e desvio de Lídia Moreira na área a inaugurar o marcador com apenas 57 segundos de jogo. Portugal estava melhor, teve mais uma oportunidade flagrante com Maria Pereira a não conseguir bater Trinidad D’Andrea isolada (5′) e aumentou mesmo a vantagem com um hino ao futsal no jogo coletivo: bola a rodar por todas as jogadoras, vantagem de Janice, passe cruzado para Inês Matos na direita e assistência ao segundo poste para o desvio de Fifó (7′). Com uma ou outra rotação, perante uma formação argentina que aumentava (ou passava) os níveis de agressividade, a Seleção dominava.

Também aqui, houve outro mérito: percebendo que estava por cima, o conjunto de Luís Conceição não tirou o pé do acelerador, tentando materializar essa vantagem em mais golos. Conseguiu, entre muito demérito da formação sul-americana: reposição da Argentina no seu meio-campo, interceção de Lídia Moreira no passe da última jogadora e desvio no chão para o 3-0 (9′). Silvina Nava, a grande ausente desta meia-final, estava de boca aberta na bancada perante a diferença de andamento e o quarto golo não demorou, numa boa saída em transição de Fifó e Janice, que se conhecem melhor do que ninguém, a oferecer o 4-0 à segunda (10′) no mesmo minuto em que Fifó bisou em mais uma grande jogada coletiva (10′). Só nesse momento houve algum abrandamento no ritmo mas nem por isso Portugal perdeu o sentido da baliza, com a capitã Ana Azevedo a receber nas costas da fixo argentina para sentar uma adversária, a guarda-redes e fazer o 6-0 (15′).

O intervalo chegava com tudo definido, o arranque do segundo tempo não foi diferente com Maria Pereira a fazer a assistência ao segundo poste para Inês Matos encostar para o 7-0 (21′). A Argentina estava rendida e até as zonas de pressão foram começando a baixar quase como se tivesse o objetivo de não chegar aos dois dígitos na diferença do resultado, Portugal também foi aproveitando para gerir com bola e rodando todas as jogadoras, o encontro perdeu qualidade mas nem por isso deixou de ter a Seleção a comandar por completo e a começar a preparar já aquilo que poderá ser a decisão de domingo com Espanha ou Brasil, com Mailen Rodrigo a reduzir para 7-1 naquele que foi o primeiro golo sofrido no Mundial… de bola corrida (39′).