As emoções à flor da pele, por uma última vez. O circo que envolveu a derradeira decisão de um Mundial na corrida final estava longe daquele que se sentiu em 2021, quando Max Verstappen começou o percurso até ao tetracampeonato com a dramática vitória numa prova polémica frente a Lewis Hamilton depois da entrada de safety car virtual a sete voltas do fim com o neerlandês a passar pelas boxes para trocar de pneus sem perder posição na pista ao contrário do britânico, que se manteve e acabou por não ter argumentos para fazer o histórico oitavo Mundial da carreira que o colocaria como o melhor entre os melhores. Agora, a par da pista de Abu Dhabi, havia algumas parecenças. Eram três concorrentes e não dois pelo título, eram 12 pontos de diferença e não uma igualdade, eram McLaren e Red Bull na luta e não Mercedes e Red Bull. Mas havia os seus pontos de contacto, aqueles que acabariam por nortear a corrida e o próprio fim de semana.

O dia em que Lauda abdicou, a ultrapassagem de Hamilton, a estreia de Vettel. As outras 30 vezes em que a F1 só teve campeão no último dia

Num cenário que parecia definitivamente afastado quando Lando Norris ganhou no México e em São Paulo, Max Verstappen voltava a Abu Dhabi com a possibilidade de ser apenas o segundo piloto da história a ganhar cinco campeonatos consecutivos, igualando o recorde de Michael Schumacher no início do século. Contudo, tinha uma pequena grande diferença: não dependia apenas de si. E era nas mãos do britânico, que ganhou a corrida em Abu Dhabi no ano passado, que estava a decisão do Mundial de 2025, podendo alcançar o seu primeiro título de forma automática caso terminasse no pódio. A partir daí, e caso o neerlandês acabasse no primeiro lugar, estava em risco. E ainda havia a correr por fora Oscar Piastri, companheiro de Lando na McLaren que ainda podia ser campeão se ganhasse a corrida e o britânico acabasse na sexta posição. Por tudo isto, não faltaram holofotes em torno dos três candidatos à vitória, sobretudo do líder Lando Norris.

“Tenho muito mais a perder porque estou em primeiro. Falhar a conquista não mudaria a minha vida mas é para isto que trabalhei para toda a vida, significaria tudo para mim”, destacava o britânico de 26 anos antes da corrida, numa sessão de qualificação que terminou com Max Verstappen na frente. “O que pode fazer o Max? Não vale a pena pensar demasiado nisso. Vou sentar-me com a minha equipa e ver como podemos preparar-nos da melhor forma para amanhã [domingo], com planos para todas as eventualidades. O nosso objetivo é tentar vencer a corrida, essa é a nossa mentalidade. Não será uma corrida simples, será provavelmente das mais complicadas que posso ter. Não preciso de correr riscos e, com sorte, posso usar isso a meu favor. Sei o que tenho de fazer. Nunca é tão simples como ‘fica ali’ ou ‘faz isto’. Cada um tem a sua própria agenda. A única coisa que posso fazer é concentrar-me no meu trabalho”, acrescentava Lando.

Do lado de Max Verstappen, pressão para o outro lado e mais uma tentativa de sair por cima numa espécie de mind games que começaram no Qatar, quando fez questão de dizer que se tivesse o carro de Lando Norris e Oscar Piastri o título estava há muito decidido. “Estou descontraído, nem esperava chegar à última corrida com hipóteses. Aliás, os meus pais nem estão aqui…”, salientara. “Na Q2, mantive os pneus usados e essas voltas pareceram muito boas. Na Q3, a temperatura da pista aqui desce e sabes que podes forçar mais. Foi exatamente isso que fiz. Encontrámos mais algum tempo e estou incrivelmente feliz por ser o primeiro. É a única coisa que posso fazer, que posso controlar – maximizar tudo o que tenho à disposição. Foi isso que consegui fazer na qualificação”, apontara o neerlandês, passando todas as decisões para a McLaren.

Por fim, Oscar Piastri. O trajeto do australiano chegou mesmo à política, com o senador Matt Canavan a fazer uma pergunta ao Secretário dos Transportes e também ao Ministro Assistente do Desenvolvimento Regional sobre um alegado favorecimento a Lando Norris. “Foi uma noite muito frustrante para alguns australianos. Não sei bem a quem perguntar isto, mas vocês lidam com transportes, carros… Por isso, acham que a McLaren está a conspirar contra o Oscar e a custar-lhe o título no Mundial?”, questionou. O piloto, esse, passava ao lado do ruído, depois de garantir no Qatar que nunca teve ordens para cumprir por parte da equipa para favorecer o companheiro de equipa. Hipóteses? Curtas, tendo de ganhar e esperar que Lando Norris não fosse além da sexta posição. Mas, num Mundial de 2025 que teve de tudo, havia impossíveis?

Era neste contexto que chegava a corrida decisiva a um Yas Marina Circuit, em Abu Dhabi, que voltava a ter casa cheia e com muitas celebridades pelo meio incluindo a portuguesa Margarida Corceiro, atriz e modelo que torcia pelo namorado Lando Norris voltando a captar muitas atenções das câmaras, num “filme” que foi criticado antes por alguns pilotos que sentiram haver mais interesse nas pessoas que estavam fora da corrida do que no que se fazia em pista. A partir das 13h (horas portuguesa), aí, o foco era único – e tinha Max Verstappen, Lando Norris e Oscar Piastri nas primeiras posições da grelha, seguidos por George Russell e Charles Leclerc (Lewis Hamilton não foi além do 16.º lugar). A largada podia ser determinante para o resto da corrida, não sendo de prever grande risco nas manobras iniciais tendo em conta o que estava em causa.

Foi mesmo isso que aconteceu, com Max Verstappen a ter um arranque “à patrão”, a ir logo buscar a melhor linha de trajetória para a primeira curva controlando a liderança e Lando Norris a aguentar o segundo lugar sem estar muito preocupado com essa primeira posição do neerlandês. No entanto, tudo ficaria ainda mais em aberto pouco depois: Piastri foi aguentando a pressão de Charles Leclerc, que passou George Russell no arranque, manteve o terceiro posto, aproveitou a intromissão de Fernando Alonso a tentar chegar ao quarto lugar e foi buscar a segunda posição de Norris com uma grande ultrapassagem. Verstappen acelerava na frente para começar a consolidar uma vantagem que lhe permitisse outra gestão, Piastri era o Mc Laren mais rápido, Lando Norris estava no lugar limite para carimbar o primeiro título da carreira.

O britânico não tinha propriamente descanso. No final da décima volta, Verstappen levava cerca de dois segundos de avanço sobre Piastri, Norris estava a mais de 1,5 segundos de atraso sobre o companheiro de equipa e Charles Leclerc ia entrando no seu DRS, com Russell na quinta posição à frente de Alonso. Estava na hora das primeira paragens nas boxes conforme previsto, com Lando a ser o primeiro dos três candidatos a trocar de pneus tendo depois duas grandes ultrapassagens a Kimi Antonelli e Carlos Sainz que deixavam em alerta Verstappen e Piastri pelos tempos após paragem, algo reforçado pela dupla ultrapassagem a Lance Stroll e Liam Lawson na 20.ª volta que Leclerc “imitou” de seguida. Tsunoda era o último obstáculo antes do britânico regressar ao pódio, com o Red Bull a dar uma luta muito comedida antes de ser superado.

Foi nessa altura que Verstappen aproveitou para ir às boxes, contando sobretudo com uma ação de maior resistência de Tsunoda que não apareceu. Já Piastri, na frente, levou o jogo de pneus que tinha ao máximo e só depois do meio da corrida começou a pensar em passar pelas boxes, algo que aconteceu apenas a 17 voltas do final numa altura em que se começava a perceber junto das principais equipas que o título começava a ficar atribuído tendo em conta tendo em conta o posicionamento sólido de Lando Norris no pódio… tanto que chegou mesmo a parar antes do australiano. George Russell ainda rodou na quarta posição mas Leclerc passou de forma natural o piloto da Mercedes e ficou a 5,3 segundos do pódio. Era aí que estava todo o foco.

Contas feitas, os seis primeiros em relação à grelha de partida tinham apenas aquela alteração na frente entre Piastri e Norris, também porque o britânico sabia que o terceiro lugar era suficiente para ser campeão. Piastri falava com a equipa para perceber as possibilidades de chegar ainda a Max Verstappen, Lando Norris tentava acelerar o ritmo para manter a distância de segurança para Leclerc tendo ambos pneus quase novos. A dez voltas do final da prova e do Mundial, Leclerc estava a pouco mais de quatro segundos de Lando com a melhor volta com Verstappen a perguntar à equipa as suas hipóteses: “O Charles está a chegar-se a ele ou não?”. A resposta ainda tentou incentivar o tetracampeão mundial, o cenário não era o mais famoso e o bom ritmo dos três pilotos da frente permitiu aguentar as posições, com o terceiro lugar de Lando Norris a valer o primeiro título da carreira com mais dois pontos no Mundial do que o neerlandês (423-421) e a Red Bull a fazer contas sobre como teria sido o filme se o britânico não tivesse passado Kimi Antonelli no Qatar.