Incapazes de concordarem no que quer que seja, André Ventura e António Filipe sentaram-se frente a frente para mais um debate das presidenciais. O comunista pronto para desconstruir a estratégia do adversário, criticando-o pela “conversa da treta”, e o líder do Chega a procurar colar o ex-deputado ao Governo da geringonça, acusando-o de ter deixado o país “no estado em que está”.
Com a greve como pontapé de saída, André Ventura assegurou que não se contradisse relativamente ao passado — quando criticou a greve —, argumentando que “ninguém dirá que uma greve geral é boa para o país” e logo cravando que o pacote laboral apresentado pelo Governo tem “coisas bizarras” — num difícil equilíbrio que tem feito ao longo dos últimos dias. Já António Filipe não vê em Ventura um defensor dos trabalhadores e acusa-o de ter defendido a “precariedade”. “Mudou de discurso, não creio que tenha mudado de posição”, previu, justificando que “enorme adesão” à greve confirmou a “justeza” da mesma.
André Ventura quis manter-se no limbo, defendendo que, entre Governo e sindicatos, “nem um nem outro têm razão“. Porém, aproveitou para afirmar que é diferente do PCP e que não tem problemas em votar propostas dos comunistas. Assim sendo, sublinhou, também não considera tudo errado no pacote do Governo: “Se não tivermos palas nos olhos sabemos que há coisas boas e menos boas.” Ainda assim, reiterou que “se [o pacote] se mantiver como está agora” o Chega votará contra.
António Filipe jogou a cartada do multitasking de André Ventura, acusando-o de estar ali na qualidade de deputado — o que leva o líder do Chega a provocar com as sondagens que colocam ambos bem distantes. O comunista entendeu que a proposta do Governo é “de tal modo radical” que o Executivo obviamente terá de estar disponível para ceder e que obviamente se prepara para deixar cair as novas regras “chocantes” para a amamentação. “Eu estou claramente do lado dos trabalhadores e o André Ventura do lado dos grandes interesses económicos, nas questões decisivas, independentemente dos ziguezagues discursivos“, acusou, criticando Ventura por ter apoiado “o pior Governo desde o 25 de Abril”, referindo-se ao tempo da troika. “Quem está contra este sistema sou eu, não é Ventura”, rematou.
André Ventura não teve pruridos em assumir que “preferia e tinha orgulho em ter um candidato como Passos Coelho, não como Fidel Castro ou Álvaro Cunhal”, o que levou António Filipe a interromper para pedir respeito por quem “sacrificou a sua vida na luta contra a ditadura”. O presidente do Chega provocou o comunista dizendo que “gosta de ditadores“, que “esteve sempre no lado de tentar pôr Portugal numa ditadura” e que “por isso é que não gosta do 25 de Novembro”. Seguiu para lembrar a “responsabilidade” do PCP nos tempos da geringonça, realçando que “a habitação subiu [de preço], a imigração se descontrolou e deixaram as pensões na miséria em que estão”.
“Não há conversa mais da treta do que a sua. Pode mandar-me para as Coreias que quiser, quero falar sobre os problemas das pessoas”, respondeu António Filipe, sublinhando que não se candidata a Belém pelo PCP e salientando que Ventura é “candidato porque o Chega tinha de ter candidato”. E defendeu que que o problema é Ventura não perdoar que Passos Coelho tenha sido afastado pelo governo da geringonça. Ventura ainda teve tempo para mais uma farpa, notando que “o governo anterior foi o que deixou país no estado em que está”.
No seguimento do debate, António Filipe fez saber que, aos seus olhos, esta eleição é uma batalha pela democracia e pela Constituição, tendo registado “declarações antidemocráticas” do adversário André Ventura. Garantiu que se for eleito vai jurar, cumprir e fazer a Constituição — tendo também em conta que Ventura quer outra Constituição — e lembrou que o Presidente da República não tem competências para mudá-la. Isso seria, rematou, um “golpe de Estado“.
Ventura ainda tentou acalmar o ambiente do debate atirando: “Acho que na segunda volta o António Filipe vai votar em mim.” Intitulando-se o “mais democrata” da corrida a Belém, o presidente do Chega disse “ver com graça” quando lhe chama uma “ameaça à democracia“, vindo esse ataque de alguém que “quer sair do euro e da NATO”. Questionou ainda se “um candidato a PR não pode dizer que quer mudar a Constituição democraticamente?”, voltando a acusar António Filipe de querer “tornar o país uma espécie de ditadura do proletariado”.
O ex-deputado comunista voltou a acusar Ventura de fazer “conversa da treta” e contra-atacou: “O Presidente da República tem de ter sentido de Estado. Quando o ouço falar de ir a Espanha e mandar prender o chefe do governo [espanhol], insultar o Presidente do Brasil… Seria uma vergonha internacional, uma chacota.” Ventura aproveitou para criticar Marcelo Rebelo de Sousa por não ter “enfrentado” João Lourenço: “Quem disser mal de Portugal vai ter de me enfrentar.” E acusou o PCP de alinhar politicamente com Brasil e Angola.
Questionado sobre segurança, André Ventura defendeu um “Portugal com ordem e autoridade” — “Todos os dias vejo novas imagens de esfaqueamentos… crimes de violação, de homicídio. Criminalidade violenta está a aumentar e nós sabemos porque se vê”, atirou, concluindo que prefere um “bandido morto do que um polícia morto”. Crente de que os “polícias têm medo de agir“, prometeu que lhes dirá que “quando tiverem de usar a força, usem sem medo”. António Filipe recordou que o chefe de Estado não dá poderes às polícias nem tem “poderes nenhuns” sobre ela. “É muito grave em vez de dizer que queremos que as pessoas e polícias vivam… Não queremos um país em que as pessoas se matem, que os polícias matem”, alertou o comunista, que acusou Ventura de se identificar com o ditador Bukele. Ventura, sem problemas, responde que sim e que El Salvador se tornou mais seguro do que a Suíça.
André Ventura disse saber que “o Presidente da República, o primeiro-ministro e os deputados não prendem ninguém, mas dão um sinal ao país de que não estão ao lado dos bandidos”. António Filipe ripostou para assegurar que não estão ao lado dos bandidos. Ventura ainda aproveitou os minutos para o acusar de ter apoiado a invasão da Rússia à Ucrânia. “Ora essa”, atirava António Filipe.
Diálogo revelador
André Ventura — Quero um Portugal com ordem e autoridade. Todos os dias vejo novas imagens de esfaqueamentos (…). A criminalidade violenta está a aumentar e sabemos não só pelos dados, mas porque se vê. E há outro problema: precisamos de dar à polícia poder de aturar. Eu prefiro um bandido morto do que um polícia morto. (…) A polícia tem medo de agir, fale com qualquer polícia. Além de terem uma carreira miserável, têm medo de agir. Então se for uma minoria coitadinha, vêm aqui com os cravos para a rua… Temos de dar à polícia esta mensagem: onde houver crime, atuem. Não tenham medo. O poder político estará cá para vos cobrir, não para vos ameaçar. (…) Se for para serem eles mortos ou o bandido, prefiro o bandido. Comigo o bairro da Jamaica não se vai voltar a verificar. Marcelo Rebelo de Sousa foi visitá-lo, eu vou visitar as esquadras.
António Filipe — Isto é muito grave. O PR não dá poderes às polícias, não tem poderes nenhuns sobre as polícias. É o MAI que tem.
AV — Mas tem uma mensagem política, não é?
AF — É muito grave que em vez de dizer: “Queremos que as pessoas vivam, não quero um país em que as pessoas se matem”… Os polícias devem ter condições de segurança e equipamentos, não quero que matem.
AV — Prefere que morram. É melhor que morram?
AF — Não, não. Quero um país em que todos vivam em segurança.
AV — Isso é fantasia.
AF — Não é fantasia nenhuma. Isso de o PR dar poderes excecionais às polícias deve ser numa República das bananas com que o senhor se identifica.
AV — É soviética.
AF — Em El Salvador, do seu amigo Bukele, será assim.
AV — Um dos países mais seguros do mundo!
AF — Portanto identifica-se com o ditador Bukele.
AV — Completamente. A pôr os gangues na cadeia. Não me identifico com Maduro ou Putin.
AF — O PR é que vai passar a andar de algemas e prender… é preciso ter noção de para que é que serve o PR. Quem prende são os polícias e os juízes.