Morreu o guitarrista e cantor britânico Chris Rea, aos 74 anos. A sua morte foi confirmada por um porta-voz da família à BBC. “Ele morreu hoje tranquilamente no hospital, após breve doença, rodeado pela família”, lê-se na curta nota divulgada.
Nascido em 1951 em Middlesbrough, no norte do país, Chris Rea começou por trabalhar na fábrica de gelados e nos café detidos pelo pai, antes de comprar uma guitarra e optar por mudar de vida. “Era suposto transformar a gelataria do meu pai numa empresa global, mas passava todo o meu tempo na arrecadação a tocar guitarra slide”, revelou, em declarações recuperadas pela BBC.
Foi a partir daí que, após tocar em algumas bandas locais, aventurou-se numa carreira a solo com o single S Much Love, lançado em 1974. Esse foi o tiro de partida para uma carreira onde lançou 25 álbuns, tendo particularmente sucesso no final dos anos 80, quando dois deles — The Road to Hell e Auberge — chegaram ao topo das tabelas do Reino Unido. Ao todo, vendeu mais de 30 milhões de discos e chegou a ser nomeado para um Grammy pela canção Fool (If You Think It’s Over), o seu único êxito nos EUA.
A sua canção mais conhecida e que se veio a tornar num clássico de Natal, Driving Home For Christmas, foi, todavia, escrita num período de dificuldades para si. “Foi em 1978, perto do Natal. Para mim, estava tudo acabado: o meu contrato discográfico estava prestes a terminar e o meu empresário tinha acabado de me dizer que me ia deixar. Eu só precisava de voltar para casa, em Middlesbrough, vindo de Londres, mas a editora discográfica não pagava o bilhete de comboio e eu estava proibido de conduzir”, recordou ao The Guardian em 2016.
Foi a mulher que o foi buscar de carro e, ao ficarem os dois presos no trânsito na viagem de regresso, surgiu-lhe espontaneamente a inspiração ao olhar “para os outros condutores, que pareciam todos tão miseráveis”. Driving Home For Christmas, todavia, não era suposto ser cantada por si: tentou vendê-la ao cantor norte-irlandês Van Morrison, sem sucesso.
Rea deixou-a ficar na gaveta até 1986, quando ele e o seu teclista encontraram-na quando estavam a testar material. O músico não estava convencido quanto a lançar um tema de Natal porque achava que isso retirar-lhe-ia credibilidade. “Naquela altura, não precisava de uma canção de Natal. Fiz tudo o que pude para que não lançassem aquele disco. Felizmente, lançaram!”, admitiu. O tema saiu como lado B de um single e o sucesso inicial levou-o a regravá-la para a sua compilação de êxitos editada em 1988, New Light Through Old Windows.
Esta “versão automobilística de uma canção natalícia” teve sucesso modesto, mas a partir de 2007 começou a ser encarada como um clássico de Natal nostálgico, passando a figurar todos os anos nas tabelas do Reino Unido e tornando-se triplo Platina. A febre chegou também a Portugal, onde tornou-se num single de Ouro.
Rea passou a maior parte da carreira sem tocá-la ao vivo, até 21 de dezembro de 2014, quando deu um concerto no lendário Hammersmith Odeon. “A road crew andava a insistir para que eu a tocasse. Eu disse: ‘Se vou tocar o raio dessa música, vou fazê-lo bem’. Por isso, alugámos 12 canhões de neve. Quando começamos a música, não dava para ouvir nada por causa do barulho da multidão, e ligamos as máquinas. Colocamos quase um metro de neve artificial nas bancadas. A sala cobrou-me 12 mil libras para limpar tudo”, contou nessa mesma conversa com o The Guardian.
Apesar das suas reservas quanto a Driving Home For Christmas, Rea veio a apreciá-la numa fase tardia da sua vida. Este ano, por exemplo lançou The Christmas Album com esse tema a abrir este disco de canções natalícias. E menos de 24 horas antes de morrer, a sua conta oficial de Instagram tinha feito uma publicação alusiva a este tema e ao ritual de tanta gente conduzir até casa para passar o Natal com a família.
Não foram adiantados detalhes quanto à doença que o vitimou, mas Rea já tinha atravessado por vários problemas de saúde graves e que o deixaram debilitado. O músico teve de remover o pâncreas e partes do estômago e do intestino delgado em 2001 devido a um cancro pancreático, sendo esta operação, ainda que necessária, fez com que se tornasse diabético.
Em 2016, sofreu um AVC, o que o fez achar que tinha perdido a sua noção de afinação. Rea conseguiu recuperar, mas no final de 2017, depois de uma sequência de quase 30 concertos numa digressão europeia em promoção ao álbum Road Songs for Lovers, desmaiou em palco durante uma atuação em Oxford, motivando o seu internamento. A partir daí, deixou de tocar ao vivo.