A Galp Energia vê como “racional e atrativa” uma estratégia de parceria para a refinaria de Sines. Horas depois de ter anunciado o fim das negociações com a Moeve para uma fusão dos ativos industriais e comerciais, os gestores da petrolífera manifestaram a abertura para voltar a discutir uma joint-venture, desde que haja alinhamento e criação de valor a longo prazo para os acionistas.

Os dois co-presidentes executivos da empresa, Maria João Carioca e João Diogo Marques da Silva, repetiram a mensagem genérica para o fracasso das negociações que se iniciaram em janeiro para criar um grande player ibérico na refinação e retalho. “A disciplina de capital não é negociável. O negócio não foi para a frente porque não conseguimos um alinhamento na criação de valor” nesta parceria, indicou Maria João Carioca no arranque da sessão de respostas aos analistas que se seguiu à apresentação dos resultados trimestrais da Galp.

Galp lucra 1.494 milhões nos nove primeiros meses do ano com mais produção de petróleo e exportações de produtos petrolíferos

João Marques da Silva recusou comentar fatores específicos que levaram ao fim das conversas com a Moeve (dona da antiga Cepsa). Entre estes destacam-se a instabilidade dos mercados energéticos — o acordo foi anunciado antes de rebentar a crise no Golfo — e as imposições do Governo português face à perda de controlo acionista da refinaria de Sines ou até a criação em Portugal de uma taxa extraordinária sobre os lucros excessivos atribuídos à subida dos preços.

“Foi um longo processo negocial. Não comento razões específicas. Foi uma combinação de fatores que não nos permitiu criar um negócio sustentável em termos de valor e foi uma decisão muito bem fundamentada”.

Com as ações a cair mais de 9%, os dois gestores da Galp procuraram destacar o valor dos ativos da empresa e a história de crescimento dos lucros que é suportada pelos resultados do terceiro trimestre e deixaram a porta aberta à procura de outros parceiros para as várias áreas de negócio e à separação dos ativos da área comercial de venda a clientes.

Notícias avançadas recentemente pela Bloomberg indicam que a Galp estava à procura de vender uma parte ou a totalidade do portefólio das renováveis, mas também o negócio de clientes de eletricidade e gás.

“Estamos confortáveis com a qualidade dos nossos ativos”, mas os meses de conversa com a Moeve ajudaram a reforçar a confiança numa estratégia de segregação dos negócios comercial e industrial. “A racionalidade estratégica é atrativa e vemo-nos a querer fazer uma transação”, afirmou o Co-CEO da Galp que acrescentou: “Não faz muito sentido não ter um parceiro no downstream“, apontando para ganhos de escala e competitividade e, nesse cenário, “não faz sentido manter 100% do negócio numa possível parceria”.

Não obstante, João Marques da Silva garantiu que não existe qualquer negócio em cima da mesa, assinalando que a empresa acredita que a refinaria de Sines é uma unidade de primeira qualidade, muito equilibrada ao mercado nacional e que está a ir na direção certa com os investimentos em curso na descarbonização.

A abertura para parcerias estende-se ao setor das renováveis onde a Galp aumentou a escala com as recentes aquisições feitas em Espanha, tornando esta área de negócio numa plataforma mais atrativa.

Maria João Carioca referiu, por seu turno, que o longo trabalho de negociação “mostrou-nos caminhos. Há lições a tirar e vamos continuar a otimizar o nosso portefólio e a olhar para as parcerias”. Mas, neste momento, o upstream (produção e venda de petróleo) continua “a ser o nosso motor de crescimento”.

Margem de refinação da Galp duplicou num trimestre, mas agora está a cair devido ao custo de transporte

Os gestores foram ainda questionados sobre as margens de refinação, que sofreram uma queda acentuada após os valores recorde alcançados no terceiro trimestre, devido ao custo dos fretes. João Marques da Silva sinaliza que as margens estão a recuperar para valores de dois dígitos.

Maria João Carioca acrescenta que o custo do frete passou de 3 a 4 dólares por barril para valores na casa dos 20 dólares. É uma consequência direta da procura da Ásia e da necessidade de encontrar novas rotas que contornem as vias normais de escoamento dos produtos com origem no Médio Oriente. Se a pressão sobre os preços dos fretes se mantiver, a empresa terá de repensar a estratégia de transporte, admitiu Maria João Carioca.