Era um jogo que valia muito para o Benfica, era um jogo que valia ainda mais para a temporada, era um jogo que valia por tudo para José Mourinho. Como foi sendo habitual ao longo da carreira, mesmo em latitudes e realidades diferentes, as equipas do técnico português podiam jogar melhor ou pior, podiam ganhar mais ou menos mas tinham o condão de aparecer revitalizadas sempre que havia uma “terapia de choque” mais forte do timoneiro após uma derrota, como aconteceu em Leiria frente ao Sp. Braga para a Taça da Liga. Houve mexidas na equipa, houve uma lesão com alguma gravidade pelo meio de Richard Ríos, houve uma outra versão dos encarnados, não houve o mais importante. E, com novo desaire, a Taça de Portugal “acabou”.

Bednarek, o sentido de um Porto que foi da Lello a Rui Veloso para se reerguer (a crónica do FC Porto-Benfica)

Chegado à Luz a meio de setembro, num ambiente particular no clube e no futebol dos encarnados depois da saída de Bruno Lage, Mourinho chega a meio de janeiro fora das duas taças, na terceira posição da Primeira Liga a dez pontos do líder FC Porto e sem margem de erro na Liga dos Campeões nos encontros diante de Juventus e Real Madrid para chegar ao playoff de acesso aos oitavos. A sexta visita ao Dragão como técnico adversário não conseguiu inverter a “regra”, com dois empates e quatro derrotas nas seis partidas.

“As justificações para o resultado são óbvias: a melhor equipa perdeu, a melhor equipa não fez golo e sofreu um. Controlámos o jogo a bel-prazer contra uma equipa que tem muita intensidade, com ADN de verdadeiros atletas, mas o Benfica dominou do princípio ao fim. Sofremos um golo de bola parada onde, em função de algumas ausências, os jogadores que estavam fora da zona eram Dahl, Barreiro e Dedic a marcar Bednarek, Froholdts, Kiwior. Trabalhámos muito as situações de bola parada porque sabíamos que não tínhamos Otamendi e Enzo [Barrenechea]. Não tivemos muitas oportunidades de golo mas um domínio que me pareceu claro contra uma equipa que está em alta de confiança, num momento em que os seus adeptos aceitam, pelo grande momento que a equipa tem, que a sua equipa esteja 45 minutos no seu meio-campo a defender em casa. O golo que falhámos no último minuto é elucidativo. Se no jogo passado com o Sp. Braga estava chateado com os jogadores, hoje estou chateado pelos jogadores”, começou por dizer à SportTV.

“Época praticamente perdida? Fui contratado para trazer títulos numa situação difícil que começou mal”, atirou depois. “Adeptos comigo? Porque é que me está a fazer essa pergunta diretamente, acha que sou importante? Não sou importante, o Benfica é importante”, acrescentou ainda na zona de entrevistas rápidas do canal desportivo, antes de assumir também que Richard Ríos tem “uma lesão importante”.

De seguida, na sala de conferências de imprensa, o treinador dos encarnados voltou a destacar aquilo que foi a exibição coletiva apesar da derrota. “Não é fácil jogar com o FC Porto, principalmente no Dragão, e fazê-lo da forma como fizemos acho que merecíamos mais. A oportunidade falhada no minuto 90 é elucidativa do que estou a dizer. Não tivemos problemas, controlámos bem, os rapazes estiveram bem. Faltou o golo, que podíamos ter feito. Sem termos dez oportunidades mas as suficientes para fazermos golos e termos um resultado completamente diferente”, resumiu numa ideia que já tinha passado na SportTV, antes de falar da opção de colocar Prestianni e Sidny Lopes Cabral de início nas alas a apoiar o avançado Pavlidis.

“O objetivo foi ter jogadores abertos, que limitassem o jogo ofensivo dos laterais do FC Porto e que proporcionassem situações como as que conseguimos pelo Andreas [Schjelderup], que faz a assistência. Com as ausências que tínhamos, tínhamos de ser mais agressivos. A equipa sem Enzo e Otamendi perde capacidade física contra uma equipa que vive disso. O próprio golo… Metemos jogadores mais altos a defender zona e os jogadores que estão na marcação são jogadores de metro e meio a marcar gigantes. O golo aparece numa situação que temíamos que pudesse acontecer. Depois foi um controlo absoluto, não se viu jogo ofensivo do adversário. Estou contente com a minha equipa. Se há uns dias estava chateado com a minha equipa, hoje estou chateado com o resultado. Ganhar é o mais importante, continuo a dizer que é o mais importante. O FC Porto ganhou, não interessa como. Parabéns ao FC Porto”, destacou Mourinho.

“Impacto pessoal das eliminações? Porquê impacto pessoal? Estou sempre para ganhar e estou para ganhar sábado. Quando não há competições para ganhar há jogos para ganhar e sábado é mais um. Jogar aqui da maneira como jogámos, contra uma equipa que exige muito, voltar para Lisboa e jogar contra um Rio Ave fresco seguramente é difícil. Somos uma equipa que tem tantos jogos importantes, somos uma equipa com tantos objetivos que, com o grupo que temos limitado, com tantas ausências, é complicado mas o objetivo não muda. Fácil motivar a dez pontos? Sim. É Benfica, sou eu, é fácil de motivar. Não temos nenhum tipo de problema. Quem joga no Benfica tem de dar sempre, há sempre coisas para jogar, sempre objetivos para atingir. O de agora é ganhar o próximo, mas há sempre objetivos como aquilo que sou enquanto pessoa: desistir, nunca”, comentou também o técnico dos encarnados sobre o atual momento.