O grupo americano Saks Global, proprietário das lojas Saks Fifth Avenue, Neiman Marcus e Bergdorf Goodman, anunciou esta quarta-feira que entrou com um pedido de falência. A empresa debate-se com problemas de liquidez desde o início do ano passado e, apesar de terem sido disponibilizadas várias centenas de milhões de dólares, as vendas fracas e os problemas de inventário persistiram, de acordo com a Bloomberg.
O conglomerado de grandes armazéns de luxo dos Estados Unidos nunca recuperou totalmente da pandemia da COVID-19, uma vez que a concorrência das lojas online aumentou e as marcas passaram a vender mais produtos nas suas próprias lojas, segundo a Reuters. No ano passado, a empresa teve dificuldades em pagar aos seus fornecedores, que começaram a reter o stock.
O pedido de falência gerou incertezas sobre o futuro do grupo americano, embora a Saks tenha afirmado que as suas lojas vão permanecer abertas por enquanto, após a conclusão de um pacote de financiamento de cerca de 1,5 mil milhões de euros e nomear um novo diretor executivo, Geoffey van Raemdonck, ex-CEO da Neiman Marcus.“Este é um momento decisivo para a Saks Global, e o caminho que temos pela frente apresenta uma oportunidade significativa para fortalecer a base do nosso negócio e posicioná-lo para o futuro”, disse o novo diretor, citado em comunicado.
Van Raemdonck sucede a Richard Baker, CEO e presidente do conselho de administração que decidiu abandonar o cargo, e que em 2024 foi um dos responsáveis pela aquisição do Neiman Marcus Group pela Saks, por mais de 2,3 mil milhões de euros. O objetivo era criar um gigante do luxo que pudesse voltar a ter mais controlo das marcas individuais, negociar a custos mais baixos e, ao mesmo tempo, atrair os consumidores de volta às lojas, segundo a CNN. Em vez disso, o “negócio foi uma receita para o desastre”, e fez com que a empresa acabasse por falhar o pagamento de juros de mais de 100 milhões de euros aos detentores de obrigações em dezembro.
Segundo a Reuters, a Saks Global deve mais de 2.9 mil milhões de euros, sendo que os créditos dos 30 maiores credores não garantidos totalizam cerca de 658 milhões de euros, de acordo com os documentos do processo de insolvência que foram apresentados ao Tribunal de Falências dos EUA, em Houston, no Texas.
Os maiores credores da Saks, que incluem marcas de luxo como a Chanel e o grupo proprietário da Gucci
O retalhista de luxo norte-americano estimou que o número de credores varia entre 10 e 25 mil. Entre os credores não garantidos estão várias marcas de luxo, com destaque para a Chanel, a quem a Saks deve cerca de 125 milhões de euros em crédito, e a Kering, proprietária da Gucci, com mais de 51 milhões em crédito, avançou a Reuters. Também o maior conglomerado de luxo do mundo, o LVMH, detentor de marcas como a Dior e a Louis Vuitton, aparece na lista, no montante de 24,2 milhões de euros.
A Mayhoola, dona da Valentino, a Kering, proprietária de marcas como a Yves Saint Laurant e a Balenciaga, a Richemont, a Zegna, a Sisley, a Burberry e a Dolce & Gabbana também estão entre os 30 maiores credores, a par da tecnológica Google, pertencente ao grupo Alphabet.
Vários credores reagiram à notícia da falência da Saks, embora a maior parte tenha recusado comentar. A Brunello Cucinelli, a quem são devidos cerca de 21 milhões de euros, saudou a nomeação do novo diretor executivo e disse à Reuters ter “grande confiança no futuro da Saks Global”. Já a Zegna classificou a empresa como um “parceiro estratégico fundamental” para o sector do luxo. “Esperamos que, após estes momentos difíceis e sob a visão e liderança da nova equipa de gestão, a SAKS Global saia reforçada e continue a ser um parceiro central para o sector”, afirmou em comunicado.
▲ Gucci da Avenida da Liberdade, em Lisboa
Thomas Meyer / Global Imagens
A falência da Saks coloca em risco três das lojas de departamento mais antigas e luxuosas dos Estados Unidos. A primeira grande loja na 5ª Avenida, em frente ao Rockefeller Center, abriu portas em 1924, como planearam os retalhistas Horace Saks e Bernard Gimbel. Ficou famosa por enviar uma cartola de seda ao então presidente Calvin Coolidge e popularizou o corte de cabelo “bob” em Nova Iorque. Em tempos, chegou mesmo a albergar uma pista de esqui para os seus clientes.