Uma equipa do Senegal habituada a estar nas decisões sobretudo na última década, com o triunfo na CAN de 2021 diante do Egito depois da final de 2019 perdida com a Argélia, uma formação de Marrocos a dar passos seguros para voltar aos velhos tempos de glória com a conquista da CAN em 1976 ainda jogada em grupo na fase decisiva, dois conjuntos que são os principais símbolos africanos da atualidade depois das históricas presenças no último Mundial, com os Leões do Atlas a chegarem a um inédito quarto lugar após eliminarem seleções como Espanha ou Portugal e com os Leões de Teranga a voltarem a uma fase a eliminar depois da sétima posição de 2002. Agora, só um podia ganhar. E o último duelo começou muito antes do jogo.

A Spider Web Strategic chegou para os penáltis mas não deu para o título: Egito de Queiroz perde final da CAN com Senegal

Na antecâmara da final em Rabat, a Federação Senegalesa de Futebol emitiu um comunicado onde deixava duras críticas à organização do torneio e à Confederação Africana de Futebol. O que falhou? O dispositivo de segurança quando os senegaleses chegaram à capital via estação ferroviária, com os jogadores a terem de “furar” no meio da confusão, a questão dos hotéis que fez com que existisse a mudança para uma segunda unidade hoteleira, a recusa na utilização de um centro de treinos e a falta de bilhetes para os adeptos do seu país (com apenas duas entradas VIP para Federação). O selecionador Pape Thiaw nunca se expressou em todo o processo mas, na habitual conferência de antevisão, acabou por ser o “alvo” da imprensa local.

“Treinador, você criticou a organização. Sabe muito bem que é a CAF que organiza a CAN e não a Federação Marroquina de Futebol. Também falou sobre a presença de muitos jornalistas: hoje em dia é o jornalista e o jornalismo em geral que vai à procura das notícias. E é por isso que houve tanta procura. E também, em relação à organização, é a CAF. Portanto, se há críticas a fazer, pessoalmente acho que é à CAF e não à Federação Marroquina”, atirou um jornalista marroquino numa declaração que não teve pergunta mas que deixou ainda mais incendiados os ânimos para esta final, num duelo entre Senegal e Marrocos que não acontecia desde 2001 com vitória do Senegal entre um histórico que caía mais para o lado de Marrocos.

Ainda assim, não era fácil colocar a decisão mais para um lado do que para o outro. Ambas as equipas tinham cinco vitórias (uma nas grandes penalidades para os marroquinos) e um empate, Marrocos tinha mais um golo marcado, Senegal tinha menos um golo sofrido e ambas representavam a afirmação dos técnicos locais, numa final também especial para os selecionadores Walid Regragui e Pape Thiaw. No entanto, numa decisão que teve um pouco de tudo depois de mais uma polémica nos exercícios de aquecimento com mais uma baixa nos senegaleses devido a uma intoxicação alimentar, o Senegal chegou mesmo a abandonar o campo mas voltou, evitou a derrota aos 90+24′ num penálti travado por Mendy e ganhou no prolongamento.

Com um enorme apoio vindo das bancadas, entre os constantes assobios a todas as posses de bola da equipa senegalesa, Marrocos foi tentando jogar com aquilo que o encontro dava mas apanhou um susto logo a abrir, com Bono a defender um desvio de cabeça de Pape Gueye ao segundo poste após livre lateral à esquerda (5′). Apesar de haver esse fator casa, eram os Leões de Teranga que conviviam melhor com a importância do jogo, tendo mais posse e construção a partir de trás apesar das dificuldades para chegar em condições ao último terço. Seria também do Senegal a oportunidade mais flagrante da primeira parte, com Iliman Ndiaye a surgir isolado na área descaído sobre a direita para o remate desviado com o pé por Bono para canto (37′).

Marrocos tinha de mostrar mais, Marrocos entrou melhor no segundo tempo. Galvanizada pelos adeptos que se mostraram sempre incansáveis nas bancadas, a equipa anfitriã teve outra capacidade de sair em transições rápidas e criou a sua primeira grande oportunidade por Bilal El Khannouss, que assistiu Ayoub El Kaabi para o desvio na área isolado que saiu ao lado (58′). Os minutos passavam sem golos, o momento da final ainda estava para vir: depois de dois lances em cima do minuto 90 em que Bono tirou o golo a Ibrahim Mbaye e Abde Ezzalzouli atirou depois por cima na área contrária (90′), instalou-se a polémica com um golo (mal) anulado a Ismaïla Sarr no seguimento de um canto em que o árbitro assinalou falta sobre Hakimi e uma grande penalidade assinalada após recurso ao VAR por falta de El Hadji Malick Diouf sobre Brahim Díaz.

Os jogadores do Senegal não queriam acreditar na decisão, ainda para mais depois de terem visto um golo anulado sem justificação, o árbitro foi disparando amarelos, houve muita confusão nas bancadas também entre adeptos das duas seleções e o insólito aconteceu mesmo, com a equipa a abandonar o terreno de jogo perante aquilo que considerava ser uma tentativa de entregar o título a Marrocos. Houve muitos contactos com responsáveis senegaleses para que essa posição fosse revista, Sadio Mané também foi falando com vários elementos ligados à Federação (e não só) e, depois de uma longa espera, todos regressaram ao campo para esse penálti que podia decidir a final. Brahim Díaz, aos 90+24′, tentou fazer um Panenka mas a bola acabou nas mãos de Mendy. Numa reviravolta inacreditável, tudo continuava na mesma com prolongamento… e o primeiro golo: Pape Gueye, logo no arranque da primeira parte, disparou um míssil sem hipóteses para Bono (94′) e, apesar das tentativas com uma bola na trave, Marrocos já não conseguiu evitar a derrota.