Para José Manuel Castro, advogado de Mário Machado, a hipótese de o seu cliente ser transferido para outra prisão é “uma violência despropositada” e “sem qualquer fundamento”. A posição, assumida ao Observador, contraria a possibilidade admitida por Luís Neves, diretor nacional da Polícia Judiciária (PJ). A defesa do neonazi entende que não foi encontrado nada relevante na cela do neonazi no Estabelecimento Prisional de Alcoentre, apesar de a investigação sustentar que o grupo 1143 continuava a ser liderado a partir da prisão.

“Há muita vontade política de deixar o homem eternamente num buraco, mas é lamentável. Estamos a falar de perseguição pura e dura, vamos ver como é que os tribunais se portam perante este desafio”, disse o advogado, que não espera ver Mário Machado novamente condenado.

Se na conferência de imprensa dada na sede da PJ, em Lisboa, Luís Neves disse que, “se sentirmos que há necessidade, faremos articulação da mudança” de prisão, José Manuel Castro critica essa posição e atira que é uma “invenção” a alegação que o recluso lideraria o grupo extremista a partir da cadeia.

“Não encontraram nada, só duas camisolas do 1143 — o que é normalíssimo, é um facto público que ele pertence ao grupo — e um jornal do Expresso. A PJ falou muita coisa, mas francamente isto é perseguição política que não tem respaldo nos tribunais”. Apesar disso, admite que a transferência “não é uma impossibilidade”, mas será decidida pela Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP).

PSP e militar entre os 37 detidos da operação da PJ que desmantelou o grupo neonazi 1143 liderado por Mário Machado a partir da prisão

A desvalorização do conteúdo apreendido na cela de Mário Machado não é acompanhada pela PJ. Na terça-feira, Patrícia Silveira, diretora da Unidade Nacional Contraterrorismo, admitiu que foram encontrados “elementos relevantes para a investigação” que serão analisados. Esta sexta-feira, o Jornal de Notícias indicou que foi encontrado um telemóvel a partir do qual o recluso fazia chamadas de grupo com a cúpula do grupo 1143. Sem revelar mais detalhes, o advogado diz apenas que o cliente “não tinha telemóvel nenhum”. “Isso teria dado muito jeito à acusação, mas não tinha, infelizmente ele não lhes fez a vontade”.

Por isso, defendeu que qualquer contacto com o exterior era feito pelos telefones disponíveis aos prisioneiros ou durante as “muitas visitas” que Mário Machado recebia.

Police arrest Mario Machado, a right-wing extremist, at an unauthorised rally hold by the organizations "Rise" and "Habeas Corpus" and supported by "1143 Group" in Lisbon downtown, place with a great concentration of immigrants, during the celebrations of the 25th April 1974 Carnation Revolution that ended the authoritarian regime of Estado Novo (New State) that ruled the country between 1926 to 1974, Lisbon, 25th April 2025. ANTONIO COTRIM/ LUSA ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Envolvimento da mãe na operação “foi o que mais afetou” neonazi, garante advogado. PJ também constitui ex-mulher arguida

Um destes contactos regulares de Mário Machado seria com Aurelina Hortense Machado, sua mãe. Também ela, tal como Raquel Faísca, ex-mulher do líder neonazi, foi constituída arguida. As duas também são representadas por José Manuel Castro, que não entende esta decisão.

“Não é risível porque é dramático, mas mostra até que ponto já chegou a perseguição”. O advogado não percebe o que levou a Polícia Judiciária a constituir Hortense, “uma senhora com 78 anos que já atravessou não sei quantos processos do Mário Machado”, como arguida. “Até podiam tê-la constituído arguida em casa, mas não. Fizeram questão de levá-la para a PJ e só depois a libertaram, é desnecessário”.

“Não estou a crer que esta senhora com 78 anos ande a fazer milícias armadas ou manifestações no meio da rua”. Depois de ter falado com o cliente, na sequência desta operação da PJ para desmantelar o grupo 1143, o advogado percebeu que o envolvimento da mãe foi “o que afetou mais” Mário Machado. “Nunca esperou que chegasse a este ponto, levar a senhora para a PJ, tirarem-lhe o telemóvel…”

Mas o MP não constitui a mãe do movimento por envolvimento em protestos ou confrontos. Segundo o despacho a que o Observador teve acesso, o MP entende que a conta de Hortense (como a de outras três pessoas) era usada para acolher os donativos em numerário do grupo 1143.

Além disso, a mulher terá sido apanhada a passar mensagens entre o filho e Gil Costa (neonazi que terá assumido a liderança do grupo depois da reclusão de Mário Machado. Antes da marcha de 10 de junho de 2025, Hortense ligou a Gil Costa para transmitir-lhe que o filho não queria que fossem utilizados petardos nessa marcha — o líder substituto terá anuído e assumido essa responsabilidade.

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Confrontado com a utilização da conta bancária de Hortense para proveito do 1143, José Manuel Castro considera-o “pouco provável”. “Se fizeram transações com a conta dela, ela é completamente alheia. E mesmo que tenham feito, o 1143 era um grupo legal. Era e ainda é”.

“Ela não recebeu donativos de certeza absoluta, pode ter sucedido alguma conta bancária dela ter sido usada para transferir dinheiro para o 1143, mas volto a dizer: o 1143 não é nenhum grupo clandestino. De certeza absoluta que ela não tem qualquer influência nem na origem desse dinheiro, nem no destino”. Reforçou ainda que mãe e filho mantinham uma ótima relação, mas que a mulher nunca pertenceu ao movimento do filho.

Quanto à ex-mulher de Mário Machado, o advogado diz que “nem ela própria sabe” porque foi constituída arguida. “É um enigma que ainda estamos para descobrir, até porque ela já não vivia com ele há quatro anos, nem ia aos eventos do 1143”.

De acordo com o despacho consultado pelo Observador, Raquel Faísca terá desempenhado um papel semelhante ao de Hortense. A ex-mulher do neonazi terá depositado cerca de 500 euros na conta bancária de um militante que era utilizada como financiamento para várias ações do 1143, desde manifestações a treinos paramilitares.

Police arrest Mario Machado, a right-wing extremist, at an unauthorised rally hold by the organizations "Rise" and "Habeas Corpus" and supported by "1143 Group" in Lisbon downtown, place with a great concentration of immigrants, during the celebrations of the 25th April 1974 Carnation Revolution that ended the authoritarian regime of Estado Novo (New State) that ruled the country between 1926 to 1974, Lisbon, 25th April 2025. ANTONIO COTRIM/ LUSA ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Nova operação da PJ “vai refletir-se inevitavelmente” na vida prisional de Mário Machado

Tal como tinha manifestado esta sexta-feira à saída do Campus da Justiça, quando o tribunal decidiu aplicar ao seu cliente um cúmulo jurídico de quatro anos de prisão, José Manuel Castro voltou a dar a entender que o juiz pode ter sido influenciado pelas notícias recentes sobre a Operação Irmandade.

O advogado não tem dúvidas que esta ação da PJ vai “refletir-se inevitavelmente” na vida prisional de Mário Machado. “O cúmulo pode já ter sido influenciado por estes factos aumentando a pena”. Além disso, esta nova investigação também vai “atrasar as liberdades condicionais”.

Esta tarde, à RTP, o advogado tinha dito que o aumento do cúmulo jurídico se devia “aos últimos acontecimentos, que nem sequer têm nada a ver com este processo do cúmulo [jurídico], mas que são acontecimentos sociais e mediáticos”. Admitiu que as detenções da PJ, “quer se queira, quer não”, “têm sempre influência no espírito de quem julga”. “O timing desta operação é manifestamente inoportuno para o Mário Machado. Eu considero esta operação manifestamente infundada, os pressupostos em que assenta, em termos de direito penal não existem”.

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Este cúmulo jurídico diz respeito à pena de prisão que Mário Machado cumpre pela condenação a dois anos e 10 meses de prisão por discriminação e incitamento ao ódio e violência, e à pena suspensa de três anos por incitamento ao ódio e à violência.

O advogado esclarece que, agora, o cliente será ouvido “oportunamente” pelo MP sobre a Operação Irmandade, ou no tribunal ou no EP de Alcoentre, onde ainda se encontra a cumprir pena. “Ele tem que prestar declarações neste processo, se não forem decretadas outras medidas de coação, será perante o MP. Em geral, é no EP que se faz isso, raramente saem do tribunal, mas pode acontecer”.

Além de afastar a hipótese de ser aplicada “outra medida de coação”, José Manuel Castro duvida da condenação do líder neonazi neste novo processo. “Não há factos. Dizem que é fascista e que queria matar. Concretamente, não imputaram nenhum facto concreto, só intenções, é inédito. [O 1143] Era uma associação completamente legal, que nunca foi clandestina, nem hoje é”.

A Operação Irmandade, levada a cabo pela UNCT da PJ resultou em 37 detenções e na constituição de outros 15 arguidos, cujas medidas de coação serão conhecidas nos próximos dias. Cerca de 300 elementos de várias unidades da PJ desdobraram-se para realizar 65 buscas domiciliárias e não domiciliárias em vários pontos do país: Lisboa, Porto, Algarve, Margem Sul do Tejo, Guimarães, Gaia e Maia.

“Nesta investigação [foi identificada] a prática de atos de violência e ofensas à integridade física e a existência de pelo menos a intenção de, caso fosse necessário, haver passagem das palavras à ação. Sem um plano concreto, mas com a determinação e a intenção de preparação para o efeito, caso necessário”, admitiu Patrícia Silveira.