Mário Machado está desde o início de junho do ano passado na prisão de Alcoentre, a cumprir pena por discriminação, incitamento ao ódio e à violência e instigação pública. Apesar de estar a trabalhar na cadeia, a reinserção do homem que se assume como neonazi está longe de ser eficaz: esta terça-feira a Polícia Judiciária levou a cabo uma operação para desmantelar o grupo liderado pelo extremista condenado que fez 37 detidos e outros 15 arguidos — entre os quais está um agente da PSP, um militar e cinco mulheres.

Cerca de 300 elementos de várias unidades da PJ desdobraram-se para realizar 65 buscas domiciliárias e não domiciliárias em vários pontos do país: Lisboa, Porto, Algarve, Margem Sul do Tejo, Guimarães, Gaia e Maia, revelou o Jornal de Notícias. A operação ‘Irmandade’ arrancou na manhã desta terça-feira e, logo às 7h00, três inspetores da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da Polícia Judiciária acordaram o líder do grupo 1143.

“Continua a existir comunicação e continua a existir a passagem de instruções de dentro para fora” da prisão, revelou, em conferência da imprensa, Patrícia Silveira, que está desde julho à frente da Unidade Nacional Contraterrorismo da PJ. Ao seu lado nas declarações prestadas aos jornalistas, o Diretor Nacional da PJ, Luís Neves, recuou até 1989, quando José Carvalho se tornou na primeira vítima do ódio dos skinheads em Portugal.

Sobre o grupo agora desmantelado, assume que “não havia nenhum ataque preparado para ser feito”, mas os investigadores conhecem perfeitamente o potencial perigoso deste grupo: “Tínhamos a noção que se necessário fosse, esse ataque poderia acontecer”. Como aconteceu, com “esta mesma estrutura que se mantém”, quando Alcindo Monteiro foi brutalmente assassinado na madrugada de 11 de junho de 1995.

O grupo costuma aproveitar “manifestações” e ajuntamentos para atacar. Aconteceu nesse 10 de junho e aconteceu, pelo menos, a 5 de outubro — quando atacaram um imigrante indiano numa estação de serviço — e a 25 de Abril do ano passado — quando causaram distúrbios durante uma manifestação no Dia da Liberdade. Para evitar mais episódios, a PJ desmantelou esta rede que, mais uma vez, evidenciou a contaminação do extremismo violento nas forças de segurança e militares.

“Nesta investigação [foi identificada] a prática de atos de violência e ofensas à integridade física e a existência de pelo menos a intenção de, caso fosse necessário, haver passagem das palavras à ação. Sem um plano concreto, mas com a determinação e a intenção de preparação para o efeito, caso necessário”, admitiu Patrícia Silveira.

A vítima perfeita

Grupo tinha extensão em todo o País e era financiado com a venda de ‘merchandising’

Em fevereiro de 2024 as vozes da extrema-direita contra a alegada “islamização da Europa” saíram às ruas de Lisboa e entoaram cânticos a pedir a deportação de emigrantes de Portugal. Cerca de 100 pessoas do grupo 1143 desfilaram, com muitas saudações nazis pelo meio, entre o Largo Camões e a Praça do Município.

Enquanto gritavam por “Salazar”, não eram apenas os civis portugueses que estavam atentos aos seus movimentos. Foi no mesmo mês que a PJ recebeu uma denúncia e iniciou a investigação a este grupo que, nessa altura, já contava com um longo historial.

Os inspetores redobraram a atenção aos movimentos destes extremistas. Mais do que as ações físicas, o trabalho passava por analisar toda a atuação no mundo digital, onde o grupo angariava pessoas, partilhava as mensagens de ódio e comunicava — através de uma estrutura organizada “de maneira estruturada com vários escalões, com várias responsabilidades” e unidos por um “sentimento de pertença” direcionado para a prática de crimes.

A expressão da violência do 1143 não se cingia a Lisboa (onde nasceu o líder e o próprio grupo) ou às grandes cidades onde ocorreram as maiores manifestações. Os “elementos estavam espalhados por todo o território” e a sua extensão não afetava a organização hierárquica: “Está estruturada em núcleos”, com “chefias” responsáveis por cada núcleo.

Os núcleos juntavam-se ocasionalmente em manifestações ou aniversários do grupo (a 5 de outubro) e foi na sequência de um desses encontros de aniversário que vários membros atacaram um imigrante de 29 anos. Quando seguia no sentido Sul/Norte da A1, o núcleo vindo do Norte parou na estação de serviço de Aveiras e atacou Rachhpal.

“Vai-te embora para o teu país”, disseram-lhe. “Voltar porquê? Estou a trabalhar, estou legal”, respondeu em bom português o homem que reside há mais de seis anos em Portugal. Depois, como viria a recordar ao Público, um dos homens agarrou a tshirt e mostrou o símbolo do 1143. “Beija aqui, beija aqui”. De seguida, foi espancado e ficou sem o telemóvel. “Agrediram-me porque sou imigrante”.

O ataque terá sido um de vários protagonizados pelo movimento neonazi que ostentava o seu símbolo em vários objetos, desde camisolas a bandeiras ou autocolantes. Era esta produção de “merchandising” que, segundo clarificou a PJ esta terça-feira, permitia financiar o grupo. “Financiava-se com a venda de merchandising e elementos que eles próprios fabricavam e que os simpatizantes do grupo e elementos do grupo [compravam]”.

José Carvalho foi esfaqueado há 30 anos. Foi a primeira vez que skinheads mataram em Portugal

PJ identificou “predisposição” do grupo para levar a cabo mais ataques e decidiu agir

Este financiamento permitia ao grupo desenvolver ações um pouco por todo o território, com pessoas encarregues de “tratar da logística”. Patrícia Silveira detalha que o grupo tinha uma extensão além-fronteiras, com “ligações internacionais a outros grupos da mesma matriz” — sem especificar quais os países dessas organizações estrangeiras.

“Nos últimos tempos, têm ocorrido vários ataques desta matriz em vários territórios europeus, inclusivamente com mortes. Por isso, reafirmo: quisemos atuar preventivamente para não voltarmos a ter crimes de natureza mais grave”, assegurou o Diretor Nacional da PJ. Sendo um fenómeno global, e transfronteiriço, a colaboração entre autoridades de diferentes países é, acrescentou Luís Neves, essencial.

Por terem noção real do perigo iminente deste grupo, a PJ decidiu partir para a operação ‘Irmandade’. “Não havia nenhum ataque preparado para ser feito, mas tínhamos a noção de que se necessário fosse, ou se alguma ocasião ocorresse, esse ataque poderia ocorrer”. Luís Neves destacou ainda que a maioria dos crimes do 1143 “ocorreram no seio de encontros, manifestações e ajuntamentos promovidos”, com especial destaque para os que aconteceram a 5 de outubro e a 25 de abril do ano passado. Nestes “ajuntamentos pode ocorrer” maior “predisposição para crimes desta natureza”.

Entre os 37 suspeitos detidos há muitos com “vastos antecedentes criminais e com ligações a grupos de ódio internacionais”. “Os detidos, com idades compreendidas entre os 30 e os 54 anos, adotavam e difundiam a ideologia nazi, inerente à cultura nacional-socialista e extrema direita radical e violenta, agindo por motivos racistas e xenófobos, com o objetivo de intimidar, perseguir e coagir minorias étnicas, designadamente imigrantes”.

Estes detidos são suspeitos de terem fundado o grupo 1143 com o “exclusivo propósito de desenvolver atividades que incitavam à descriminação, ao ódio e à violência racial”. Enquanto a líder da Unidade Nacional de Contraterrorismo e o Diretor Nacional descreviam a operação aos jornalistas, eram exibidos nos ecrãs os vastos objetos apreendidos.

A lista é longa e, além de armas, contém muito do “merchandising” que ajudava a financiar o grupo e material com símbolos nazis, mas também um megafone personalizado, camisolas, soqueiras, bonés, bandeiras, autocolantes — com o símbolo do 1143 ou desenhos de Hitler —, cuecas personalizadas, uma bandeira com a cara de Mário Machado e uma tarja com a seguinte descrição: “Maomé Pedófilo”.

Também na cela do líder neonazi foram encontrados “elementos relevantes para a investigação” que serão analisados pela PJ. O órgão de investigação criminal não exclui, por enquanto, uma mudança de Estabelecimento Prisional de Mário Machado. “Se sentirmos que há necessidade, faremos articulação da mudança”, detalhou Luís Neves, que chegou a liderar a UNCT durante vários anos.

Os diretores da PJ acrescentam que estão em contacto com o Ministério Público para articular a melhor forma de apresentar todos os detidos ao Tribunal Central de Instrução Criminal de Lisboa para primeiro interrogatório judicial, com vista à aplicação das medidas de coação, ainda esta quarta-feira. O inquérito é titulado pelo DIAP de Lisboa e os detidos, apurou o Observador, já chegaram de vários pontos do país à capital.

Das FP-25 aos neonazis, extremismo mudou nos últimos anos. Nos últimos seis anos crimes de ódio tiveram aumento exponencial

Atenta desde que foi criada ao fenómeno do extremismo, a UNCT viu, primeiro, uma mudança na motivação dos crimes e, agora, um aumento exponencial das ameaças. “A unidade foi criada para tratar crimes de ódio, terrorismo e violência. Foi assim nos anos 80 com as FP25, (…) trabalho em que tivemos camaradas que morreram”, recordou Luís Neves.

Agora, “resolvido o fenómeno da extrema esquerda radical de crimes politicamente motivados”, que deixou atrás de si um rasto de homicídios, sequestros, raptos de funcionários do Estado e  dirigentes políticos e atentados em bancos, a ameaça é outra. Desde a morte de José Carvalho, a extrema-direita começou a preocupar as autoridades.

“Até aos dias de hoje, a PJ tem assumido um compromisso sério contra estes crimes de matriz divisionista”. A tendência tem-se avolumado nos últimos anos, com um aumento de sete vezes dos crimes de ódio cometidos. Passaram de 9 em 2019 para 64 em 2025, mas não representam toda a dimensão do problema.

“Ainda há muitas vítimas com medo, apavoradas. Para trabalhar precisamos de ter factos para ir à procura de prova. O número está em crescendo. Temos a noção que ainda há muitas esferas da sociedade que não apresentam queixa”, resumiu Luís Neves, que deixa o aviso: “Não é possível colocarem fotografias de pessoas [na Internet, como] alvos a abater. É crime e cá estamos”.

A expansão destes grupos contamina várias esferas da sociedade, com especial destaque, pela gravidade e repetição, para as forças de segurança e/ou militares. Neste caso, como aconteceu com a operação que desmantelou o Movimento Armilar Lusitano, há elementos da autoridade presentes no movimento extremista. A PJ admitiu que apesar de serem independentes, estes grupos neonazis têm muitos pontos de contacto, por comungarem “do mesmo espírito”.

Se no grupo que foi desmantelado em junho estavam pelo menos uma dezena de polícias e militares — sendo liderada por um chefe da PSP que tinha como função cativar colegas com experiência —, na operação ‘Irmandade’ foi detido um polícia e um militar. Na conferência de imprensa, Luís Neves confirmou apenas a detenção de duas pessoas “não civis”, mas pouco depois a origem destes detidos seria revelada. A PSP assumiu que um dos seus agentes, do Comando Distrital de Setúbal, estava entre os detidos.

“A PSP aguarda conhecimento concreto do sucedido, pelo que, assim que tivermos notícia sobre o(s) crime(s) de que o referido polícia é indiciado, (informação que neste momento ainda não possuímos), serão desenvolvidos os procedimentos disciplinares adequados e preventivos”, explicaram no comunicado. A polícia lembrou respeitar o “princípio da presunção da inocência”, mas, como “uma das instituições mais escrutinadas”, repudiou “qualquer conduta (…) que constitua uma violação flagrante” da legalidade.

“Mesmo sendo difícil a prevenção de todas as situações desviantes, internamente tudo faremos para as impedir e para garantir o respeito pelos direitos fundamentais, com compromisso, confiança e proximidade com todos os cidadãos”. O militar, revelou a CNN, pertence à Força Aérea. Em conferência de imprensa, o Diretor Nacional da PJ também recusou detalhar o nível de envolvimento do PSP e do militar detidos.

Além da infiltração dos ideais radicais entre as autoridades, a PJ está atenta às claques dos clubes de futebol, mas revela que, neste caso, encontrou apenas “pequenos indícios de ligação a uma” claque, mas que, “por ora, não tem a relevância que já teve noutros tempos”. O grupo 1143 foi criado em 2001 numa fação da claque sportinguista Juventude Leonina, antes de se afastar do futebol e destacar como organização neonazi, até ser desmantelada, 25 anos depois, pela PJ.