O Presidente da República criticou esta quinta-feira, de forma velada, o primeiro-ministro por ter ido já ao terreno ver os efeitos da tempestade Kristin, quando ainda decorrem operações de reparação das infraestruturas e de apoio às populações. Marcelo Rebelo de Sousa, que foi muitas vezes criticado por ter um impulso de ir para o teatro das operações, sugeriu, numa nota publicada no site da Presidência, que este não é o momento de ir ao terreno, dando a sua posição como exemplo: “Passada a fase em curso de intervenção da Proteção Civil, o Presidente da República visitará as áreas mais afetadas”.

Pouco depois, numa entrevista à Rádio Renascença, insistiu que este não é o momento de os políticos irem ao local. O Presidente revelou que tenciona ir “às áreas mais afetadas”, mas entendeu que isso “faz-se por fases”. E recorda as recomendações feitas após Pedrógão Grande: “Como se lembra, a propósito dos incêndios, foi definida uma orientação que era: enquanto dura a fase crucial de resposta da Proteção Civil a uma calamidade, foi entendido que não deviam aparecer os responsáveis políticos no terreno.” Ora, para Marcelo essa fase não está ultrapassada. “Felizmente, a parte mais extrema passou, mas o processo está em curso.”

Depois de criticar a presença de políticos, na mesma entrevista, Marcelo faz uma pequena inflexão no discurso e desenvolveu uma tese de que tanto o primeiro-ministro como os candidatos presidenciais têm “primazia” na visita aos locais afetados e que, por isso, o Presidente em funções só vai uns dias depois. “Tenciono ir daqui a uns dias. O Presidente deve estar presente um pouco depois, compreendendo que aqueles que estão neste momento em atividade eleitoral devam ter também primazia, uma vez que se vive um período de campanha eleitoral e, portanto, é natural que os candidatos, tal como o primeiro-ministro, tenham primazia“, afirma. Numa terceira ocasião, em declarações aos jornalistas na Academia militar, acabaria por dizer que “foi combinado” na conversa entre ambos que o primeiro-ministro ia ao terreno.

Porém, nessas mesmas declarações, voltaria a insistir que o que “a Comissão Técnica Independente definiu após os incêndios” de 2017 foi que “em caso de calamidade a pior coisa que pode haver é os responsáveis políticos aparecerem cedo de mais, tirando os autarcas locais.”

Após as críticas da oposição à demora a decretar o estado de calamidade, o Presidente da República pareceu, num primeiro momento, estar a validar a ideia de lentidão do Governo quando revelou que só esta quinta-feira o chefe de Governo lhe falou no assunto: ” Quando o senhor primeiro-ministro, com o qual tenho estado a acompanhar, a par e passo, a evolução da situação, me falou hoje, no meio do Conselho Ministros, da ideia da declaração do Estado de calamidade, que é uma competência do Governo, eu concordei imediatamente“. Porém, mais tarde, nas declarações na Academia Militar, acabaria por defender a opção do primeiro-ministro ao dizer que “ninguém ontem [quarta-feira] pediu a declaração de calamidade” e que era necessário perceber antes quais os concelhos afetados para mapear adequadamente a área em que era decretado o estado de calamidade.

O Presidente da República admitiu também na entrevista à Rádio Renascença, que os militares sejam envolvidos nas operações ao dizer — quando questionado sobre o envolvimento das Forças Armadas — que “a Proteção Civil está a reagir adequadamente e, em momento, que for considerado adequado, todos os meios que forem necessários serão mobilizados“.

Marcelo avisa, porém, que ainda podem vir mais problemas: “A perspetiva que há é o desagravamento progressivo da situação, sabendo nós que ainda há consequências do que se viveu quer cá dentro, quer em Espanha. Os rios significativos vêm todos de Espanha. Os caudais, vindo de Espanha, vão chegar a Portugal. A previsão é de desagravamento relativo, mas ninguém tem certezas.”

Sobre uma resposta mais estrutural a catástrofes, Marcelo diz que a o Estado tem vindo a “melhorar a resposta em termos de proteção civil”, numa comparação com “calamidades de há sete oito anos”, numa alusão aos incêndios do verão de 2017. “A resposta e a prevenção está muito melhor”, concluiu.

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