Ventos recorde de quase 209 km/h. O que os causou? O IPMA publicou uma nota técnica sobre o vento extremo na tempestade Kristin em que explica como, de repente, esta depressão se formou quando ainda estávamos sobre o efeito da Joseph e como, de repente, se tornou tão destrutiva. A culpa foi das correntes de ar estratosférico muito seco que entraram na circulação da depressão e determinaram as suas características, transformando-a numa “tempestade de vento”.
O IPMA explica que a Kristin nasceu após “um núcleo depressionário” se ter formado e desenvolvido “no bordo sul da tempestade Joseph”. Na prática, a Kristin é filha da Joseph. Mas cresceu muito, muito depressa. Porque “sofreu um processo de ciclogénese explosiva a oeste da costa ocidental portuguesa”, o que quer dizer que houve um cavamento muito rápido do seu núcleo, ou seja, uma rápida e “significativa diminuição de pressão atmosférica no seu centro”. Esse processo teve lugar entre as 21hoo de terça-feira e as 3h00 da madrugada de quarta.
Depois a Kristin sofreu a tal “intrusão de ar estratosférico, bastante seco”, o alimento mágico que lhe deu a força que teve. Esse ar, ao entrar “na sua circulação condicionou e determinou as suas caraterísticas”, tornando-a uma tempestade de vento. Como diz o próprio nome, trata-se de uma tempestade cujo principal impacto vem da força do vento. Como explica o IPMA, “as correntes de ar seco vão evaporando e sublimando hidrometeoros (água e gelo), presentes na massa nebulosa, o que contribui para que se tornem progressivamente mais frias, densas e, consequentemente, acelerem à medida que vão descendo”. Para quem ainda se lembre das aulas de Física e Química, o ar quente sobe, o frio desce, e é isso o que se passa nas tempestades: o ar seco subiu, e à medida que ia subindo ia ficando mais frio, até gelar. O gelo ganhou destaque, ficou puro, e depois, numa velocidade impressionante, desceu.
O padrão acastanhado nas vizinhanças da tempestade Kristin mostra a presença de ar seco
Se isto já é genérico neste tipo de tempestade, na Kristin agravou-se. Porque em algumas tempestades, como aconteceu agora, estas correntes de ar gelado podem chegar à “superfície junto à extremidade sul da massa nebulosa”, criando episódios de vento muito forte”. Geralmente, estes episódios duram “poucas dezenas de minutos”, mas, frequentemente, “são bastante destrutivos”.
O formato que o IPMA conseguiu identificar, quer nas observações com satélite, quer via radar meteorológico, permitiu concluir que estavam, de facto e “historicamente”, perante “estas correntes de ar na zona sul da Kristin”, o que levou a comunidade científica a confirmar tratar-se do fenómeno conhecido como “corrente de jato do tipo sting”, sting jet (do inglês, ferrão). Regra geral, a área onde o vento mais forte e mais destrutivo acontece à superfície, corresponde a um corredor relativamente estreito, de poucas dezenas de quilómetros, mas o da Kristin parece ter sido mais devastador.
Visível o padrão da extremidade sul da tempestade Kristin relativo ao jet sting na primeira imagem. Na segunda, a estação Leiria/aeródromo: o máximo da velocidade Doppler observada coincide com a extremidade da tempestade no momento em que a estação registava a rajada máxima
Dez estações meteorológicas do IPMA no continente registaram na madrugada de quarta-feira rajadas de vento superiores a 120 quilómetros por hora, tendo a mais intensa atingido os 208,8 km/hora em Degracias, no concelho de Soure, às 5h40. Apesar de estar registada no site do Instituto de Meteorologia, os dados ainda carecem de validação oficial, já que se trata de uma estação da Comunidade Intermunicipal de Coimbra, integrada na rede do IPMA, mas não oficial.
Nestes casos, e como nem sempre as estações operam exatamente com os mesmos parâmetros, para efeitos de comparação é necessário garantir que as condições são equivalentes antes de oficializar os dados. O facto de a estação se encontrar a 524 metros de altitude é também um fator que impacta “muito em termos de vento”. Porque a esta altitude uma estação pode registar rajadas nesta ordem, enquanto outra localizada a uma cota inferior, próxima de uma zona habitada, pode registar valores mais baixos, mas ter um impacto muito maior na vida das pessoas.
A rajada registada em Soure é a mais forte até ao momento, mas poderão existir outras, eventualmente até mais intensas, já que ainda não foram recolhidos todos os dados. Na estação meteorológica da base aérea de Monte Real, também não oficial, foi observado um valor máximo 175,9 km/h às 5h00. Até ao momento, a rajada mais forte validada pelo IPMA foi de 149 km/hora no Cabo Carvoeiro, Peniche, às 4h00 de quarta-feira.
Valores de rajada registados pelas estações meteorológicas do IPMA:
– Cabo Carvoeiro 149 km/h, às 4h00
– Ansião, 146 km/h, às 05h30
– Leiria/aeródromo, 142 km/h, às 5h00
– Castelo Branco, 137 km/h, às 6h20
– Fóia (37,6 m/s), 135 km/h, às 6h40
– Tomar/Vale Donas, 133 km/h, às 05h30
– Cabo da Roca, 131 km/h, às 3h00
Rajada máxima da Kristin registada em Soure: 208,8 km/h
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