É só mais uma! Ou: mais uma?! As duas expressões são válidas para a Marta, a próxima tempestade a chegar a Portugal, já este sábado de manhã. É só mais uma porque faz parte de um longo comboio de tempestades que está a atingir a Península Ibérica desde o início do ano devido a padrão atmosférico raro, mas que teima em não se desfazer. É mais uma porque também a Marta pode fazer grande estragos num país já alagado e provocar novas cheias e inundações, e agravar a recuperação da zona centro, que tenta recuperar a custo da passagem da Kristin que destruiu quase todas as casas. E há ainda mais: a nova depressão, que só ganhou nome precisamente porque é de grande impacto, tem as características para gerar uma ciclogénese explosiva, o que a tornará ainda mais perigosa, arrasta uma massa de ar frio, e é alimentada por um novo rio atmosférico.

A dia e meio da sua chegada, que será sábado ao início da manhã, pode dizer-se com algum rigor que a depressão vai afetar sobretudo, e outra vez, a zona da Grande Lisboa, a Península de Setúbal e a região sul. Nestas áreas, as chuvas vão ser novamente abundantes, podendo chegar aos 100/150 l/m2. Ou, traduzindo de outra forma, chover em Évora num só dia o que costuma chover num mês, de inverno, e se ele for mesmo muito chuvoso. Assim, com as barragens e os rios já completamente nas cotas máximas e a causar cheias e inundações, casos do Tejo, do Sorraia, do Sado ou do Guadiana, todos os pontos de risco devem ficar de novo em alerta máximo.

A Marta, além de chuva muito intensa e persistente, traz de novo muito vento, com rajadas que podem variar entre os 100 km/h e os 120 km/h nas serras. Chuva que será de neve acima dos 900 metros de altitude sábado de manhã, subindo a cota para 1200/1400 metros até ao final da tarde, com acumulados superiores a 25 cm na Serra da Estrela. E mantém-se a agitação marítima forte durante este período, prevendo-se ondas até 7 metros de altura na costa ocidental, em especial a sul do Cabo Carvoeiro, que podem chegar aos 13 metros de altura máxima, ficando pelos 5 metros na costa sul do Algarve.

O IPMA já colocou todo o país em alerta para chuva, vento, neve e agitação marítima. Neste momento, a zona sul está toda em alerta laranja para sábado de manhã, devido às previsões de chuva intensa. Faro, Beja, Évora, Setúbal, Portalegre e Santarém entram no segundo alerta mais grave às 6h00 e saem às 12h00, altura que passam a amarelo até às 15h00. Lisboa e Leiria têm para já apenas avisos amarelos para precipitação das 6h00 às 15h00. Para Castelo Branco o alerta é válido das 9h00 às 15h00.

Para vento, o alerta laranja para Faro, Beja e Setúbal, das 6h00 às 15h00, passando depois a amarelo até às 8h00 da manhã de domingo. Santarém, Lisboa, Leiria, Portalegre e Évora também têm alertas, amarelos, ao longo do dia de sábado.

Alertas laranja também para neve em Castelo Branco e na Guarda, até às 5h da manhã de domingo. E até às 6h00 da manhã de sábado para Viana do Castelo, Braga e Vila Real. Para as mesma horas de sábado, os nevões deixam a amarelo o Porto, Viseu, Aveiro e Bragança.

E a costa manter-se-á toda a laranja.

Esta sexta, um dia de transição em que haverá sobretudo aguaceiros, mas que podem ser de trovoada e granizo, o vento deixa a amarelo Setubal, Beja e Faro das 9h00 às 18h00.

A partir da tarde de sábado a Marta vai andando em direção a Espanha, mas fará com que o vento e a chuva se intensifique no litoral centro — sim, de novo a faixa entre Leiria e Coimbra —, com rajadas que poderão atingir os 90 km/h e precipitação por vezes forte.

O IPMA prevê contudo que os maiores valores acumulados de precipitação ocorram a sul do Tejo, incluindo a região da grande Lisboa, sendo mais prováveis no Alentejo e nas serras algarvias. Acumulados da ordem de 60 mm (litros/m2) em 24 horas, o que contribuirá para uma nova subida dos caudais dos rios e ribeiras destas áreas.

A Marta é mais uma tempestade que nasce dentro da vasta região depressionária que se criou no Atlântico Norte devido a um padrão atmosférico raro. Não só o anticiclone dos Açores, o nosso moderador do tempo, está este ano numa zona muito a sul, como está bastante enfraquecido, como o jato polar circula numa latitude também muito baixa. A tudo isto tem-se somando o chamado bloqueio anticiclónico escandinavo. Se fosse possível visualizar, é como se estivesse um muro/mola a soprar ventos fortes, outra estrutura muito rápida e igualmente com ventos muito fortes a passar abaixo de nós, de forma a que se criava uma espécie de autoestrada em que as tempestades que se formam no Atlântico norte, junto à Terra Nova, se encaminhavam todas para a Península Ibérica.

É exatamente o que está a acontecer.

Esta situação permite ainda que os rios atmosféricos, estruturas de vapor de água em suspensão, que se formam junto ao golfo do México, se encaminhem também para a Península. Tratam-se de grandes massas de água cálida, que ao entrar nas regiões mais frias despejam enormes quantidades de chuva muitas vezes numa mesma área e criam também ventos muito fortes. Além disso, alimentam estas tempestades quando se cruzam com elas.

É o que vai acontecer com a Marta este sábado, o que a tornará mais forte. Marta que ganhará ainda um outro impulso já que será também empurrada por uma tempestade que se encontra abaixo das ilhas britânicas.

E é o que acontecerá novamente a partir de domingo à noite e na segunda-feira, quando Portugal for de novo ponto de passagem de mais um desses rios.

Isto significa que a segunda semana de fevereiro continua com o mesmo padrão, e mais chuva. Mas, no final da semana, parece haver sinais de mudança. Pelos modelos, o anticiclone açoriano ganha força, reposiciona-se e isso significará uns raios de sol. Mas ainda estamos a muitos dias de fazer previsões positivas.

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