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O Urso de Ouro fica em casa: “Yellow Letters”, de Ilker Çatak, vence a Berlinale

Este artigo tem mais de 6 meses

A 76ª. edição do festival de cinema premiou a nova longa-metragem do germano-turco Ilker Çatak. Sandra Hüller, Anna Calder-Marshall e Tom Courtenay distinguidos nas categorias de interpretação.

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▲O filme de Ilker Çatak (na foto) foi distinguido pelo júri presidido por Wim Wenders

dpa/picture alliance via Getty I

▲O filme de Ilker Çatak (na foto) foi distinguido pelo júri presidido por Wim Wenders

dpa/picture alliance via Getty I

Ilker Çatak, cineasta de Berlim (n. 1984), filho de imigrantes turcos na Alemanha, arrecadou neste princípio de noite de sábado o Urso de Ouro do Festival de Berlim, com a vitória de Yellow Letters. Çatak é conhecido entre nós pelo controverso A Sala de Professores, estreado em Portugal em Março de 2024. Com Yellow Letters, o cineasta conquista agora o prémio de maior prestígio do seu percurso. Estreará em Portugal pela Alambique, em data a anunciar.

O filme foi rodado por inteiro na Alemanha com actores turcos (Berlim e Hamburgo recriam Ancara e Istambul), acompanhando um casal de artistas de meia-idade que é cancelado de um dia para outro, ele professor e dramaturgo, ela actriz de teatro de reputação nacional. Mas do que são ao certo acusados Aziz (Tansu Biçer) e Derya (Özgü Namal) naquele país autoritário em que a censura opera clandestinamente, às ordens de um regime que é uma democracia de fachada?

Esta 76.ª edição da Berlinale foi marcada por divergências políticas trazidas a estas páginas em várias crónicas e que visaram, em particular, o presidente do júri, Wim Wenders, mal interpretado na primeira conferência do festival e posteriormente atacado nas redes sociais. O autor de Paris, Texas e As Asas do Desejo permaneceu em silêncio todos estes dias. Hoje, defendeu-se em sede própria, no palco da Potsdamer Platz, antes do anúncio dos prémios principais. “A linguagem que este júri de sete países teve em comum é a mesma que tem sido predominante na história da Berlinale por mais de sete décadas: a linguagem do cinema. Uma linguagem que sempre foi acompanhada por críticos, jornalistas e também por políticos, já que Berlim sempre foi, e ainda é, um local enormemente politizado.” Wenders recordou depois que há hoje uma nova linguagem “digital e instantânea”, a da Internet e das redes sociais, que cria “discrepâncias artificiais”. (…) “E essa linguagem tem mesmo que entrar em competição com a nossa?”

O discurso eloquente e pausado de Wenders foi mais do que suficiente para pôr um ponto final na polémica absurda que alimentou a Berlinale dos últimos 12 dias. E o palmarés, mesmo longe da perfeição, respondeu à letra com a mesma “linguagem do cinema” que o cineasta alemão trouxe ao palco. Yellow Letters é, obviamente, um filme político, com vontade de colocar perguntas. Ilker Çatak jamais o conseguiria ter feito na Turquia — assim o disse em entrevista.

Na história da Berlinale, Yellow Letters também “matou um borrego”: há 22 anos que a Alemanha não vencia. A última vez que o Urso de Ouro ficou em casa foi em 2004, quando Head-On ganhou a estatueta mais cobiçada pelo trabalho de um cineasta alemão, nascido em Hamburgo, e também ele — curiosamente — filho de turcos: Fatih Akin.

A Alemanha, apesar de tudo, tinha outra grande chance de chegar ao ouro por Rose, de Markus Schleinzer (uma co-produção com a Áustria realizada pelo vienense Markus Schleinzer), com um tremendo papel de Sandra Hüller que não escapou à actriz alemã. Hüller começou tudo no palco de hoje, há 20 anos, quando conquistou o mesmo prémio desta noite por Requiem, de Hans-Christian Schmid. Recorde-se que Berlim é o único dos três grandes festivais que, de há uns anos para cá, só atribui dois prémios de interpretação — principal e secundária — independentemente do género.

Considerados “intérpretes secundários” (mas não para o autor destas linhas) foram os britânicos Anna Calder-Marshall e Tom Courtenay, que dividiram o prémio respectivo por Queen At Sea, filme que o norte-americano Lance Hammer foi rodar a Londres. Queen at Sea foi também chamado ao Palmarés para receber o Prémio do Júri, ao passo que o Grande Prémio (o equivalente à medalha de prata em comparação olímpica) foi também para a Turquia, premiando com surpresa Salvation, outra co-produção europeia a colocar o dedo na ferida em assunto muito sensível para o país.

O novo filme de Emin Alper acompanha uma disputa de clãs numa remota aldeia do Curdistão sem que a região que deseja ser Estado próprio seja directamente sublinhada. Salvation é um filme demasiado carregado pela simbologia e pelo aspecto metafórico da sua mensagem principal, claro nos propósitos mas exagerado nas situações. Está a meio caminho numa cinematografia muito valiosa e que tem em Nuri Bilge Ceylan o seu artista de maior crédito.

Com o Urso de Prata na mão, Emin Alper não se fez rogado em palco e foi seu o discurso politicamente mais contundente da noite: pôs a boca do trombone com as notas todas “contra os perpetradores de crimes horríveis.” É óbvio que não esqueceu a Palestina. Mas também referiu o povo iraniano que “sofre com a tirania”, os mesmos curdos visados no filme “que se batem pelos seus direitos”, e por fim, os presos políticos turcos (e citou vários, incluindo o ex-Presidente da Câmara de Istambul, adversário de Erdogan), colocando em xeque o actual Governo do país. Alper teve ainda o discernimento e o humor de dedicar a estatueta à filha que em breve fará três anos, já que ela “adora ursos.” Prenda de anos antecipada. Mais desacertado foi o prémio de realização atribuído a Grant Gee por Everybody Digs Bill Evans. O júri viu talento na afectação.

Berlim deixou fora do palmarés alguns filmes que mereciam chamada, sobretudo My Wife Cries, de Angela Schanelec e The Loneliest Man in Town, da dupla Tizza Covi/Rainer Frimmel. No penúltimo dia, o chadiano Mahamat-Saleh Haroun levou à capital alemã uma das mais sólidas produções africanas de anos recentes, Soumsoum, la nuit des astres (premiado pela Fipresci). Dao, de Alain Gomis, mostrou valor apesar dos seus desequilíbrios. E muita gente em Berlim aguardava, na recta final, algum reconhecimento para Josephine, de Beth de Araújo (que Sundance já premiara).

Ainda assim, o palmarés foi satisfatório e justo, com muito mais méritos que defeitos. E ainda bem porque esta 76.ª edição merecia sair por cima. À falta de nomes do star-system anglo-saxónico juntou uma série de autores do cinema internacional ainda sem nome para estas andanças. Foi uma edição que partiu condenada (como Wenders nas redes sociais), deixando a norte-americana Tricia Tuttle debaixo de fogo no seu segundo ano à frente do festival. Feitas as contas, a directora artística ganhou a parada. Berlim 2026 foi uma bela aventura e não ficou, de todo, atrás dos seus principais concorrentes do ano anterior.

▲ Özgü Namal e Tansu Biçer interpretam um casal de artístas cancelados na Turquia que Ilker Çatak recriou na Alemanha em “Yellow Letters”, novo Urso de Ouro em Berlim

O júri foi presidido por Wim Wenders, ladeado pela actriz sul-coreana Bae Donna, pela produtora polaca Ewa Puszczyńska, pela realizadora e argumentista nipónica Hikari, assim como pelo nepalês Min Bahadur Bham, pelo indiano Shivendra Singh Dungarpur e pelo norte-americano Reinaldo Marcus Green (realizadores).

Aqui fica a lista dos premiados:

URSO DE OURO
“Yellow Letters”, de Ilker Çatak
(Alemanha/França/Turquia)

GRANDE PRÉMIO DO JÚRI
“Salvation”, de Emin Alper
(Turquia/França/Países Baixos/Grécia/Suécia/Arábia Saudita)

PRÉMIO DO JÚRI
“Queen at Sea”, de Lance Hammer
(EUA/Reino Unido)

MELHOR REALIZAÇÃO
Grant Gee por “Everybody Digs Bill Evans”
(Irlanda/Reino Unido)

MELHOR INTERPRETAÇÃO
Sandra Hüller por “Rose”, de Markus Schleinzer
(Áustria/Alemanha)

MELHOR INTERPRETAÇÃO SECUNDÁRIA
Anna Calder-Marshall e Tom Courtenay por “Queen At Sea”, de Lance Hammer
(EUA/Reino Unido)

MELHOR ARGUMENTO
Geneviève Dulude-De Celles por “Nina Roza”, de Geneviève Dulude-De Celles
(Canadá/Bulgária/Itália/Bélgica)

MELHOR CONTRIBUIÇÃO ARTÍSTICA
Anna Fitch e Banker White pelo documentário “Yo (Love is a Rebellious Bird)”
(EUA)

PERSPECTIVES (MELHOR PRIMEIRA OBRA)
“Chronicles From the Siege”, de Abdallah Alkhatib
(Argélia/França/Palestina)

PERSPECTIVES (MENÇÃO ESPECIAL)
“Fôret ivre”, de Manon Coubia
(Bélgica/França)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
“If Pigeons Turned to Gold”, de Pepa Lubojacki
(Chéquia/Eslováquia)

MELHOR DOCUMENTÁRIO (MENÇÕES ESPECIAIS)
“Tutu”, de Sam Pollard
(Reino Unido)

“Sometimes, I Imagine Them All at a Party”, de Daniela Magnani Hüller
(Alemanha)

URSO DE OURO — MELHOR CURTA-METRAGEM
“Someday a Child”, de Marie-Rose Osta
(França/Roménia/Líbano)

PRÉMIO FIPRESCI (COMPETIÇÃO INTERNACIONAL)
“Soumsoum, la nuit des astres”, de Mahamat-Saleh Haroun
(Chade/França)

PRÉMIO FIPRESCI (PANORAMA)
“Narciso”, de Marcelo Martinessi
(Paraguai/Alemanha/Uruguai/Brasil/Portugal/Espanha/França)

PRÉMIO FIPRESCI (FORUM)
“AnyMart”, de Iwasaki Yusuke
(Japão)

PRÉMIO FIPRESCI (PERSPECTIVES)
“Animol”, de Ashley Walters
(Reino Unido)

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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