No trailer da série Neighbors alguém diz: “Quando compras a casa, compras os vizinhos”. O facto é que nem sempre é uma escolha consciente. Já agora: sabiam que vizinho tem origem no latim vicinus, que significa “residente próximo”. Isto é, o habitante que “é da mesma rua ou da mesma aldeia”? Pensei que pudesse ser algo que tivesse uma segunda leitura, que vos pusesse um sorriso nos lábios e fizesse soltar um “Ele há coisas!”… Mas não. Vizinho é e sempre foi a pessoa que calha habitar nas cercanias. Queria trazer-vos filosofia, calhou código postal.
Curiosamente, é também uma questão prática que explica, em parte, a quantidade de sitcoms em que as relações entre as personagens são de vizinhança. O cenário central é a casa do protagonista, ele fica ali na sua salinha sentado no sofá e a contra-cena vai até ele. À distância de uma campainha ou de um knock knock. Às vezes nem isso, considerando as entradas triunfais de Kramer e a sua popa. Em Friends, por exemplo, o olho mágico com a moldura dourada é um elemento icónico e o facto de Joey e Monica morarem porta com porta é combustível para o plot do episódios em incontáveis situações. Quer dizer, na verdade, devem estar contabilizadas, considerando a quantidade de gente obcecada com a série (não sou, mas não julgo). Em Portugal, Nicolau Breyner percebeu o jeitinho que isto dava e cá vai alho: Nico d’Obra, Os Compadres, Aqui não há quem viva são alguns exemplos. E se estão muitos chocados, por ter colocado o Jerry Seinfeld e o Nico no mesmo parágrafo, desçam lá do vosso pedestal, se faz favor.
É claro que nem tudo é dinheiro e, debato, tricas de vizinho é um tópico extremamente relacionável. Da mesma maneira que não escolhemos a nossa família, não escolhemos as criaturas que vão estar do outro lado da parede do nosso quarto. E se calha os construtores terem poupado nos materiais, até passamos a saber mais do que gostaríamos sobre eles. Ou não, dependendo do vosso nível de antropólogo da vida alheia. Neighbors, a série documental que se estreou na HBO Max há poucas semanas, mostra-nos a vista para o quintal do vizinho indesejável, sem termos de levar com o cheiro do caixote por despejar há 15 dias. São 6 episódios, dos quais já saíram 3 e são um mimo, só vos digo. Uma série que mostra conflitos de vizinhos nos Estados Desunidos da América, onde as pessoas passam demasiado tempo online, têm demasiadas armas em casa e pouquíssima noção de como utilizar o seu tempo de forma produtiva. Num rápido à parte, prova disso é o filme A Vizinha Perfeita nomeado para o Óscar de Melhor Documentário, que me deixou num estado de agonia e tristeza profunda durante um bom tempo. Mas voltemos ao bem-dispor.
Se ver Neighbors é um exercício um tanto ou quanto sobranceiro, com um olhar moral e intelectualmente superior, que nos põe em bicos de pés a pensar “somos tão melhores que estes chalupas”? É, mas estou a divertir-me muito com isto e, meus amigos, neste momento da História, isso não é pouca coisa. Em cada episódio, a série acompanha dois conflitos entre vizinhos e ouve os dois lados da barricada. E que lados! No primeiro caso do primeiro episódio, conhecemos Josh Alpaw e Seth Collins, dois indivíduos separados por um portão da discórdia. Josh parece um ewok humano, só que com aqueles óculos de sol de 5 euros da Decathlon. Faz vídeos para o TikTok a forjar machados, usa o cognome “The Bearded Bard” (O Bardo Barburdo) e pôs um portão numa estrada pública. E se vocês não estão já agarrados a isto, eu julgo-vos por isso e bem.
▲ Estas não são mais do que histórias de vizinhos que nos deitariam o queixo ao cão por si só. Mas embrulhado assim tem muito mais graça
Já Seth Collins, que tem ar de roadie dos Xutos, parece ter razão. O portão impede os seus cavalos de chegarem às pastagens, o que não é simpático para os bichos — e além disso, volto a sublinhar, é um portão numa estrada pública. Conforme vamos ouvindo o discurso aparentemente sensato amigo dos equídeos, as bandeirinhas escarlates começam a pulular. Parece maluco, cheira a maluco e vai-se a ver… Seth faz o bingo das teorias conspiracionistas: Nova Ordem Mundial, adrenocromo, está a dinamitar uma pedra para construir um bunker… Não chegou a dizer que era terraplanista, mas eu apostava o meu cone de papel de alumínio em como também alinha nisso. As respetivas mulheres também se metem ao barulho. Há um momento ótimo da mulher do bardo, Brittany, a afugentar os cavalos montada numa mota de todo-o-terreno. Por outro lado, também há uma cena comovente em que Seth, a mulher Starla e o filho disparam caçadeiras para acertar em coisas. Se não é um ternurento programa familiar?
A segunda contenda também é territorial. De um lado, temos Eric Wilhelm, uma espécie de Jabba The Hutt, só que fuma charuto e tem um Rolex no pulso. O proprietário de um casarão na linha do mar, que trata a praia como o seu quintal, porque segundo ele as pessoas “roubam-lhe as cadeiras e cagam-lhe debaixo do alpendre”. Do outro lado temos Sara Day, “uma mãe que só quer ir à praia com os filhos”. Como sidekicks da batalha, do lado de Sara temos o “Shoreline Defender” um ativista balnear que usa uma máscara de borracha, como os assaltantes de bancos, o que torna muito difícil levar a sério qualquer coisa que ele defenda, mas posso ser eu que sou imatura.
▲ A série documental que se estreou na HBO Max há poucas semanas, mostra-nos a vista para o quintal do vizinho indesejável, sem termos de levar com o cheiro do caixote por despejar há 15 dias
Do lado do capital, temos Brent Fuller, que tem ar de beto que perdeu o dinheiro da família em casinos e whiskey sours. O trabalho dele é enxotar pessoas que estão a fazer praia em frente à propriedade do Eric e para isso espeta-lhes o telemóvel nas trombas, crianças incluídas. Graças a esse gracioso modus operandi e a parecer uma tangerina com pernas, recebeu o epíteto de “Sunburn Scarecrow” (Espantalho do Escaldão). Nas palavras de Brent: “Adoro o que faço, adoro proteger propriedade privada, fazia-o de graça”. Um homem que descobriu o propósito, mas ainda não descobriu o protetor solar. A esta festa há-de-se juntar uma personagem ainda mais frita da cabeça que inventou um título que apresenta como sendo a sua profissão “Auditor da Primeira Emenda”. Noutras palavras, um idiota daqueles.
Neighbors partilha alguns nomes na ficha técnica com Marty Supreme. Nomeadamente Josh Safdie, produtor executivo da série, que é o realizador do filme que me mostrou que Chalamet continua a não desiludir e que ver um ser humano miserável a fazer de ser humano miserável não é divertido. “It’s a no for me”, Kevin O’ Leary. Mas falemos dos bons. Harrison Fishman e Dylan Redford (fun fact, sobrinho de Robert Redford) realizam esta série de forma tão desbragada quanto impecável, o que é coroado com uma montagem intencional a cada frame (assinada também pelos realizadores Nicholas Nazmi e Dustin Waldman), com uma intenção cómica ou de caça à personagem que dá o laço final àquilo que não são mais do que histórias de vizinhos que nos deitariam o queixo ao cão por si só. Mas embrulhado assim tem muito mais graça.