Uma cidadã portuguesa foi agredida no decurso de um ataque perpetrado por colonos israelitas a um acampamento palestiniano na Cisjordânia. O incidente, noticiado pelo jornal israelita Haaretz, foi entretanto confirmado pelo Observador junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que adianta que a vítima já saiu da região e se encontra em segurança.

Segundo confirmaram as testemunhas entrevistadas pelo Haaretz, cerca de 30 colonos israelitas encapuzados invadiram Humsa, uma pequena vila beduína na zona norte do vale do Jordão onde vive uma família de 12 palestinianos, tendo o ataque sido cometido por volta das 1h20 da manhã (hora local) de 13 de março.

Os agressores, continua o jornal, dividiram-se entre vários grupos que cometeram ataques em simultâneo. Um deles visou uma tenda onde se encontravam um homem palestiniano e duas ativistas, uma portuguesa e outra norte-americana, sendo que esse mesmo ataque foi denunciado pelo Movimento de Solidariedade Internacional (MSI). Ao todo, seis pessoas tiveram de receber assistência médica por parte do Crescente Vermelho na cidade de Tubas devido a ferimentos ligeiros.

Ao Observador, o Ministério dos Negócios Estrangeiros confirma que a cidadã portuguesa é uma “mulher de 25 anos” que “relatou que a empurraram e que lhe puxaram o cabelo”. “Foi também assaltada, tendo ficado sem documentos e cartões”, adianta o MNE, sublinhando todavia que já se encontra “bem e em segurança”.

“O Ministério dos Negócios Estrangeiros tem acompanhado de perto a situação da cidadã portuguesa”, continua a nota, adiantando que a vítima “saiu hoje da Cisjordânia, acompanhada por um representante da Embaixada de Portugal em Ramallah”.

O MNE refere ainda que, através dessa representação diplomática, “foram prestados todos os apoios consulares adequados, incluindo a emissão de documentação temporária necessária à sua deslocação”.

“O Ministério continuará a acompanhar o caso até à normalização total da situação e mantém contacto permanente com as autoridades locais e com a própria cidadã”, termina o comunicado enviado ao Observador.

“Queremos matar-vos”

De acordo com os relatos partilhados com o Haaretz, os colonos entraram em Humsa ameaçando matar as crianças e violar as mulheres da comunidade, sendo que algumas menores de idade chegaram a ser agredidas.

“Acordei com os gritos dos colonos. Deram-me estaladas e arrastaram-nos para fora, amarraram-nos, arrancaram-me o véu da cabeça e rasgaram algumas das minhas roupas. Puxaram as meninas para fora e espancaram-nas, até as mais pequenas. Gozaram connosco e regozijaram-se com a nossa humilhação”, testemunhou uma mulher da comunidade atacada.

No decurso do ataque, que terá demorado cerca de uma hora, os colonos agrediram os palestinianos da comunidade de formas distintas, desde golpes nos braços com armas brancas até ataques com bastões e apedrejamentos — inclusive a um homem de 74 anos. Além disso, destruíram câmaras de segurança e routers, roubaram bens pessoais e soltaram cerca de 350 ovelhas do seu curral.

Entretanto, segundo o MSI, outro grupo atacou uma tenda onde se encontravam um homem palestiniano e as ativistas portuguesa e norte-americana. “Os colonos pontapearam e espancaram o homem e as ativistas com paus e, quando uma das ativistas lhes perguntou o que queriam, responderam: ‘Queremos matar-vos’”, denuncia a organização.

“Os colonos amarraram então as mãos e os tornozelos do palestiniano e das ativistas, e confiscaram os seus telemóveis e uma das suas mochilas”, continua, denunciando que também levaram passaportes e dinheiro.

Ao Haaretz, a vítima norte-americana diz ter acordado com os gritos da colega portuguesa perante a entrada de “seis colonos israelitas encapuzados, armados com pesados bastões de madeira”, que usaram de imediato para espancar todos os ocupantes da tenda. A mesma revela ter testemunhado uma “agressão sexual grave” ao homem palestiniano que estava com elas, sendo que este pediu que os detalhes desse ataque não fossem divulgados.

“Baixaram-lhe as calças, deitaram-lhe água em cima e espancaram-no brutalmente. Tudo o que ele podia fazer era encolher-se em posição fetal”, revelou, acrescentando ter sido “uma das piores coisas” que já tinha visto.

Entretanto, a ativista norte-americana diz que ela e a colega portuguesa foram manietadas com abraçadeiras enquanto os colonos pilhavam a tenda. “Um deles pediu-me o telemóvel e, sempre que eu dizia que não sabia onde estava – porque a tenda estava toda desarrumada e eu não conseguia mexer-me –, ele batia-me na cara”, queixa-se.

Ambas foram então arrastadas com violência para o centro do acampamento e vendadas enquanto, divulga o MSI, os colonos afirmavam coisas como “somos judeus, esta é a nossa terra”. O mesmo comunicado afirma que foram empurradas para o chão e os agressores “davam-lhes pontapés sempre que passavam por elas”. “Eles não paravam de nos bater e dar pontapés a todos, mas eram os palestinianos que recebiam os golpes mais brutais”, contou a ativista ao Haaretz.

Entretanto, os atacantes aperceberam-se que as ativistas tinham joalharia consigo, como anéis, forçando-as a cedê-los sob ameaça de terem os dedos cortados. Após terem também levado com água em cima, a norte-americana diz que temeu a hipótese de ser também alvo de agressões sexuais porque a sua roupa começou a ser desfeita. “Alguém rasgou-me o casaco com uma faca, cortando-o agressivamente desde a axila esquerda até à anca. Um colono começou a mexer-me no cinto e eu gritei porque pensei que me iam violar“, denuncia.

Após o ataque, os homens com ferimentos menos graves partiram à procura do gado roubado, mas foram impedidos pelo exército israelita, que os deteve. “Isso deu tempo aos colonos para fugirem com o rebanho. Cerca de uma hora e meia depois, chegou uma ambulância. O exército deteve-nos para que os homens saudáveis não pudessem perseguir os colonos”, afirmou um dos palestinianos atacados. Nas proximidades, as marcas de pneus conduziam ao colonato de Beka’ot, criado em 1972 mas considerado ilegal pela ONU por violar o artigo 49 da Convenção de Genebra.

Segundo o MSI, a ação do exército israelita também teve como consequência a demora da assistência médica, sendo que a primeira ambulância do Crescente Vermelho no local demorou três horas a chegar.

Como aponta o Haaretz, Humsa é uma de várias comunidades de pastores beduínos palestinianos localizadas no norte do Vale do Jordão que tem sido alvo de repetidos ataques — situação agravada pelo recrudescer da violência por parte dos colonos israelitas. O mesmo jornal recorda que os membros da comunidade de Humsa viviam numa área próxima de que foram expulsos em julho de 2021 porque Israel declarou aquela área uma zona de tiro militar décadas antes. Após várias expulsões, as forças de segurança destruíram as casas da comunidade, onde viviam 11 famílias.