É a Classicissima, é o primeiro Monumento da temporada e a corrida que dá início a semanas de grandes batalhas e decisões até bem perto do início da primeira Grande Volta, o Giro de Itália. Historicamente, a Milão-Sanremo perfila-se como a clássica de topo mais aborrecida por diversos motivos, nomeadamente por não ter grande história até à aproximação a Sanremo e por ser predominante dominada pelas chegadas ao sprint, algo que tem vindo a mudar nas últimas décadas e que deriva mais do crescimento e da mudança no ciclismo em geral. Afinal, a Milão-Sanremo continua igual e a edição deste sábado não difere daquilo que a caracteriza.
Com partida em Pavia e chegada em Sanremo 298 quilómetros depois, o primeiro Monumento do ano continua a ser a clássica de um dia mais extensa do calendário mundial. Em termos de dureza, esta 117.ª edição conta com pouco mais de 2.500 metros de desnível acumulado, um dado que até acaba por favorecer os sprinters e os punchers. Como habitual, o pelotão atravessa, a meio da prova, a subida mais alta (chega aos 500 metros de altitude), embora a corrida só anime depois do Passo del Turchino (2,4 quilómetros a 5,2% de inclinação). Nos últimos 50 quilómetros aparecem Capo Mele (1,6 km a 4,8%), Capo Cervo (1,4 km a 3,2%) e as míticas Cipressa (5,7 km a 4,1%) e Poggio di Sanremo (3,7 km a 3,8%), que deverão ser praticamente decisivas para o resultado final.
Foi ali que Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) tentou destronar Mathieu van der Poel (Alpecin-Premier Tech) no regresso a um dos dois Monumentos que lhe falta conquistar, a par da Paris-Roubaix. O esloveno preparou-se como nunca para tentar bater o neerlandês nos seus terrenos prediletos, mas bateu na trave em ambos, repetindo na presente temporada as presenças em Itália e França. No que concerne à edição de 2025, Pogacar fez o que quase ninguém arriscou fazer e atacou na Cipressa, reduzindo o grupo a Van der Poel e Filippo Ganna (Ineos Grenadiers). No Poggio, já sem o italiano, o campeão do mundo voltou à carga, mas nunca conseguiu fazer descolar o Alpecin, que até atacou, igualmente sem sucesso, na parte final da derradeira subida. Em Sanremo, Mathieu van der Poel bateu Ganna e Pogacar e igualou, à data, os sete Monumentos do esloveno – entretanto a contagem passou para um 10-8 favorável ao Emirates (Van der Poel ganhou a Paris-Roubaix, Pogacar a Volta à Flandres, a Liège-Bastogne-Liège e a Lombardia).
Para 2026, a receita de Tadej Pogacar e da Emirates não deverá ser diferente, com o esloveno a arriscar uma jogada que é considerada um “suicídio tático”, já que é praticamente impossível vencer a Milão-Sanremo com um ataque na Cipressa, que está a 25 quilómetros da Via Roma de Sanremo. Para o conseguir, Pogacar terá de melhorar considerar o recorde da subida, que lhe pertence desde 2025, quando se tornou no primeiro ciclista a baixar dos nove minutos para superar Gabriele Colombo (1996) em cerca de 20 segundos. Nesse sentido, Tadej focou parte da sua preparação na mítica subida da Toscana e, à luz dos registos nas aplicações de tracking – que naturalmente não são oficiais –, já melhorou o seu registo em oito segundos, colocando-o em 8.51 minutos. Para além disso, a média de Pogacar na Cipressa aproximou-se dos 38 km/h (37,8).
Caso não consiga fazer descolar os adversários na Cipressa, a missão de Tadej Pogacar torna-se ainda mais difícil, já que o Poggio não tem extensão suficiente para um ataque mortífero do Canibal. Se recuarmos ao final do século passado, foi essa a tática que Colombo usou para vencer a Milão-Sanremo em 1996 e que custou um triunfo a Marco Pantani, que tentou repetir o feito em 1999, mas acabou alcançado pelo pelotão entre a Cipressa e o Poggio. No fundo, a Cipressa só se torna difícil se os ciclistas a tornarem difícil, como Pogacar fez em 2025, já que os ciclistas mais rápidos e pesados conseguem ultrapassá-la com maior ou menor dificuldade. Mesmo que alguém ataque sozinho, os nove quilómetros até ao Poggio são suficientes para permitir um agrupar de grupos e para organizar a perseguição, como aconteceu com Pantani. Nesse sentido, o Poggio tem sido o principal palco de ataques da prova, embora a estratégia tenha de ser perfeita: explodir a corrida na subida, arriscar tudo na descida e manter um ritmo alto na zona plana de aproximação à meta.
Dadas as suas características, as probabilidades jogam claramente contra Tadej Pogacar que, apesar de ter descoberto a hipotética estratégia ideal em 2025, pecou em quase todos os outros aspetos. Nesse sentido, o ataque explosivo do agora bicampeão do mundo deverá manter-se, até porque nesta competição só Van der Poel e Tom Pidcock (Pinarello Q36.5) parecem conseguir responder-lhe. Se tivermos em conta o solo de quase 80 quilómetros e duas horas na Strade Bianche, Pogacar alcançou uma notável média de 380 watts, o que representa um aumento de força de cerca de 11% em relação a esforços semelhantes que teve em 2025. Por outro lado, a Emirates está a apostar as fichas todas em conquistar a Milão-Sanremo este sábado e, apesar de não ter os lesionados Jhonatan Narváez e Tim Wellens, conta com o importante apoio de Isaac del Toro ao chefe de equipa. O mexicano está numa forma fenomenal, tendo vencido a Volta aos EAU e o Tirreno-Adriático, terminando ainda a Strade Biache no terceiro lugar.
“Sabendo o que aconteceu na Cipressa no ano passado, com um apoio muito forte da equipa do Tadej, o Del Toro poderá desempenhar um papel importante este ano e tornar a subida ainda mais difícil. No ano passado, ele [Pogacar] já esteve muito perto [da vitória]. Se eu estiver 1% abaixo do meu melhor, o Tadej vai fugir na Cipressa. É apenas uma questão de tempo até ele vencer essa corrida. No passado nem sequer se devia pensar na Cipressa. O Tadej e a Emirates mudaram definitivamente isso”, explicou Van der Poel durante a prova por etapas que liga os dois mares.
“Não é segredo nenhum que a Milão-Sanremo é uma prova que adoraria ganhar. Vejo-a como um grande desafio. Já fiz muitos reconhecimentos no Poggio e é uma subida que conheço muito bem. A equipa esteve excecional na Strade Bianche e, se conseguirmos repetir essa exibição, tudo é possível para nós. O nível será elevado, como sempre, mas estamos habituados e faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para alcançar o resultado. Espero que seja um grande dia de competição e que possamos oferecer um bom espetáculo aos adeptos”, antecipou Pogacar.