1246,1kWh poupados 1246,1 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Brasil 2026
2.ª Volta

Resultados 1.ª volta: Lula 45,16% - Flávio Bolsonaro 47,03%

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE)

No dicionário dos Paus, ter cara de "Enterro" é sinónimo de sorriso no rosto

Este artigo tem mais de 6 meses

Não é todos os dias que somos convidados para um velório pelos próprios defuntos. Os Paus decidiram acabar e fizeram disso celebração na Casa Capitão, até porque, dizem, não há vinho para carpideiras.

Como cantavam em Muito Mais Gente, de 2011, e oportunamente decidiram recuperar para Enterro, “o fim é um princípio qualquer”
i

▲Como cantavam em Muito Mais Gente, de 2011, e oportunamente decidiram recuperar para Enterro, “o fim é um princípio qualquer”

Filipe Gonçalves

▲Como cantavam em Muito Mais Gente, de 2011, e oportunamente decidiram recuperar para Enterro, “o fim é um princípio qualquer”

Filipe Gonçalves

“Decidimos morrer e queremos fazê-lo nas nossas próprias condições, seremos nós a empurrar o nosso caixão”. Só quem não conhece os Paus nem o seu percurso pode estranhar ver Quim Albergaria fazer uma declaração destas com o seu sorriso característico estampado no rosto. Ao longo de 18 anos, o quarteto traçou um percurso seguindo as suas próprias regras e que termina com Enterro, o derradeiro gesto artístico onde assinalam o próprio fim. Este sábado, na Casa Capitão, assistimos a um de vários velórios planeados para este ano, antes do derradeiro funeral. No entanto, desafiando a tradição do requiem, o que houve foi festa, e da boa.

A ideia de uma banda parar no seu auge por escolha própria não é nova. A história está repleta de exemplos agridoces, de The Police aos OutKast, de The White Stripes aos Daft Punk; em Portugal — não obstante as subsequentes reuniões — podemos citar os Ornatos Violeta, os Da Weasel ou os Silence 4. Mas nem pôr isso deixa de custar cada vez que acontece, de gerar “e ses”, de puxar pelo nosso lado mais egoísta de ter uma banda a fazer o que queremos e não o que eles bem entendem. Só que como cantam em YESS — tema de 2019 e um dos recuperados nesta noite —, Fábio Jevelim, Hélio Morais, Makoto Yagyu e Quim Albergaria são o que lhes apetece — e neste momento apetece-lhes parar.

Como admitiram em entrevista ao Público, os Paus decidiram acabar quase por desafio, quando a ideia de terminar surgiu primeiro como farsa e depois como tragédia: sugerida como piada face aos exemplos de bandas demissionárias que se arrastam anos a fio em tours de despedida, começou a ser levada a sério quando se aperceberam que a vida familiar, a atividade profissional e os outros projetos musicais de cada um estavam a cada vez mais a tornar impeditiva a continuidade da banda.

▲ Ao atingir a maioridade, os Paus decidem ficar por aqui, desfrutando de juventude eterna, e passando agora "a bola aos putos"

Filipe Gonçalves

Em retrospetiva, já tinham começado a surgir sinais de que a banda poderia estar a aproximar-se do seu término. Desde a sua génese que o quarteto teve como filosofia rejeitar fazer música “só porque sim”, com cada lançamento a resultar de um processo de intenções próprias. Por isso mesmo, o anterior disco, Paus e o Caos, lançado em 2023, foi resultante de uma desconstrução do seu som com recurso a vários colaboradores externos, porque o conjunto não queria apenas lançar “mais um álbum” de Paus. “Chegámos a uma altura em que nós os quatro já tínhamos feito tanta coisa que acreditámos que se trouxéssemos mais pessoal, ia ser algo que dar-nos-ia mais pica de interagir musicalmente com a base de Paus”, afirmou Fábio numa entrevista da banda ao Observador.

Paus e o Caos em todo o lado ao mesmo tempo

Talvez motivados pelo exercício de escrever a sua própria eulogia, para Enterro não precisaram de ninguém senão deles próprios para assinar um trabalho tão bom quanto todos os anteriores, carregando tanta frescura quanto solenidade. Se com o arranque de Ficamos Por Aqui trouxe-nos os polirritmos saborosos e gingões a que nos habituaram — ainda que tingidos a cores agridoces por letras como “É pra parar / A gente fica por aqui” —, noutros momentos, como Dia Feliz, chegamos a presenciar passagens com a fúria do pós-hardcore e até o peso do doom metal, ou o mantra repetido na melancolia psicadélica de Dá a Bola aos Putos.

Os sete temas deste curto disco foram todos tocados de seguida sem paragens, produzindo o efeito de uma suite orquestral que substituiu as cordas e os sopros pelo baixo carregado como betume de Makoto e os não menos carregados guitarra e teclado de Fábio, rodopiando melodias e descargas perante a força gravitacional da bateria siamesa de Quim e Hélio. “Um gajo achou que era uma boa ideia gravar uma música de 30 minutos, outros foram atrás. Esse gajo também achou que era boa ideia tocá-la ao vivo, os outros concordaram”, desabafou Hélio Morais em tom jocoso. Nem mesmo quando um funcionário da sala foi forçado a colocar um escadote em frente ao palco para desligar uma luz deficitária os demoveu de continuar a tocar, quais músicos do Titanic a manter a compostura perante o fim.

▲ Desde a sua génese que o quarteto teve como filosofia rejeitar fazer música "só porque sim", com cada lançamento a resultar de um processo de intenções próprias

Filipe Gonçalves

Esse momento central mais sério contrastou com tanto o início quanto o fim do concerto, quando a banda se apresentou descontraída, sem quaisquer pretensões, quando estava a tocar temas antigos, partilhando piadas com o público. “Se é preciso um gajo morrer para ver gente a dançar num concerto nosso, devíamos ter morrido mais cedo”, brincou Quim, que protagonizou também o momento insólito de ter-se esquecido de como se tocava Luzia Veneno e de ter tentado lembrar-se do ritmo entre canções, sem sucesso. No entanto, nos outros temas que apresentaram, os Paus mostraram a outra faceta tristonha do seu fim, ainda que involuntariamente: a de que seremos privados de ouvi-los daqui para a frente.

Com os seus gritos inspiradores vindos do longínquo primeiro EP da banda, Mudo e Surdo puxou logo pelo público para logo a seguir Madeira demonstrar cabalmente a mestria de juntar a profusão melódica do prog com a matriz hardcore que os marcou na forma como continuam a gritar o refrão. Esse mesmo talento foi demonstrado na sublime L123, tocada com a gravitas que se requer ao cantar sobre transportes públicos intermunicipais, ou Pelo Pulso, que fechou o concerto com a sua toada épica que nos mostrou desde logo ao que os Paus vinham em 2010. O público reagiu em conformidade, com dança, cabeças abanar e até um tímido mosh, mas acima de tudo com a energia partilhada de estar ali a presenciar aquele momento. “Não chores porque acabou, sorri porque aconteceu” é daqueles chavões que poder-se-ia aplicar, não tivesse sido sugado de todo o significado.

▲ O público reagiu em conformidade, com dança, cabeças abanar e até um tímido mosh, mas acima de tudo com a energia partilhada de estar ali a presenciar aquele momento

“Uma banda que não tinha nada para existir e que existe há 18 anos”, afirmou Quim Albergaria enquanto agradecia e apanhava uma rosa que lhe atiraram. Ao atingir a maioridade, os Paus decidem ficar por aqui, desfrutando de juventude eterna, e passando agora “a bola aos putos”. Como cantavam em Muito Mais Gente, de 2011, e oportunamente decidiram recuperar para Enterro, “o fim é um princípio qualquer”. No dia 21 de novembro estão de volta a Lisboa, no Capitólio — feito o velório, venha então esse derradeiro funeral.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.