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Os apupos à PSP e à "cobardia" de Seguro e Montenegro. Acampada de Lisboa desmobiliza para "refletir"

Sábado terminou com feridos pela PSP e muita revolta. Depois disso, centenas voltaram ao Rossio. A organização decidiu em plenário não tentar nova acampada e convocou novos protestos para esta semana.

"Não me sinto representado por si", garantiu um manifestante perante o silencio do Presidente da República, António José Seguro
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▲"Não me sinto representado por si", garantiu um manifestante perante o silencio do Presidente da República, António José Seguro

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

▲"Não me sinto representado por si", garantiu um manifestante perante o silencio do Presidente da República, António José Seguro

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Tempo para “refletir”, tempo para organizar “forças” e tempo para recuperar da “violência física e mental” que a ação policial na madrugada de domingo deixou aos manifestantes da Acampada de Lisboa. Foi esta a justificação dada por vários porta-vozes do protesto pelo direito à habitação para a decisão de desmobilizar da Praça Dom Pedro IV, no Rossio, sem nova tentativa de acampada ou “aconchada”.

“Peço-vos que tiremos um tempo para refletirmos e para nos organizarmos”, afirmou através de um megafone um dos porta-vozes do movimento, já passava da meia-noite e meia, hora que tem sido apontada pela PSP para que o barulho em excesso termine na praça da capital lisboeta. A mensagem era clara para as centenas de manifestantes que ainda não tinham arredado pé do protesto: “A luta não se faz numa semana, não se faz em duas, a luta é permanente.”

A decisão de não tentar pernoitar no Rossio só ficou fechada depois de um “plenário de delegados”, com a organização da acampada a pedir aos manifestantes que se reunissem em grupos de “afinidade”, elegendo depois um representante que participaria na reunião que iria determinar o desfecho da madrugada desta segunda-feira. A única tenda à vista na praça acabou por ser a que foi colocada num tejadilho de um carro de manifestantes, que passou diversas vezes pela praça ao longo da noite.

Divulgar os protestos marcados para a próxima semana foi a prioridade da organização da Acampada durante as duas horas de Assembleia Popular e no encerramento da manifestação. Desde logo duas vigílias populares marcadas para segunda e terça-feira, em solidariedade com as dezenas de pessoas detidas nas madrugadas de dia 20 e 25 de outubro, junto ao Campus de Justiça. “Chamamos todas as pessoas e coletivos solidários a virem apoiar quem foi atacado pela polícia”, apela a organização.

Os apelos para que a Assembleia da República se torne o próximo palco de uma grande manifestação também não pararam até ao final da noite neste domingo. Um protesto marcado para as 18h30 desta terça-feira tem em vista o debate de discussão e votação do Orçamento do Estado para 2027. Durante a Assembleia Popular, vários manifestantes destacaram que o documento que será votado na generalidade na quarta-feira “não tem qualquer proposta para a habitação”.

Assembleia Popular marcada pelos apupos à polícia e a Seguro

A concentração deste domingo estava marcada para as 17h00 da tarde e pelas 18h00, na Praça D. Pedro IV, já eram milhares os manifestantes reunidos para protestar contra a noite de violência. A Assembleia Popular arrancou uma hora depois com foco nos feridos e na polícia. “É um trabalho bater em pessoas?”, questionou um dos manifestantes que subiu ao palco improvisado no Rossio, acusando os agentes da PSP que avançaram na madrugada de domingo contra os manifestantes de terem “perturbações psiquiátricas”.

Aos gritos de protesto contra Luís Neves, ministro da Administração Interna, que este domingo correu em defesa da ação da polícia, e os já habituais apelos à demissão do primeiro-ministro Luís Montenegro juntou-se uma onda de críticas e apupos a António José Seguro. “Não me sinto representado por si”, chegou a ouvir-se. As declarações sobre o Presidente da República geraram vaias e apupos muito intensos entre os manifestantes na praça lisboeta.

▲ António José Seguro foi acusado de "cobardia" e de estar "escondido"

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Elisabete, de 57 anos, é uma das manifestantes a insurgir-se contra António José Seguro, e faz questão de dizer ao Observador, também contra Luís Montenegro. Classifica o silêncio de duas das principais figuras do Estado enquanto uma “cobardia autêntica”. Este domingo à noite foi a estreia da secretária de uma empresa pública nos protestos pela habitação. “Vim pela primeira vez, tenho seguido pela televisão, mas tinha de vir”, afirma.

A lisboeta diz ter uma vida “estável”, mas confessa as dificuldades em pagar a prestação da casa. “Resta pouco depois de pagar as despesas”, lamenta. E diz que o filho de 27 anos é obrigado a “viver num quarto com a namorada”. “Ainda vivi o 25 de Abril e lembro-me bem como era a vida antes dele, com quatro e cinco pessoas a dormir no mesmo quarto. Não quero voltar ali”, garante ainda ao Observador.

O cântico “cheira a ditadura” foi repetido até à exaustão durante a Assembleia Popular, com várias referências à PIDE e à repressão policial de outros tempos. À PSP foi ainda feita uma acusação concreta. A descrever os eventos da madrugada de domingo, uma das porta-vozes da Acampada de Lisboa garantiu que a organização foi pressionada a desmobilizar perante a ameaça a manifestantes no Norte. “Disseram que se não acatássemos as ordens aqui, atacariam os nossos colegas no Porto”, afirmou. E logo garantiu: “A solidariedade com o Porto não é negociável.”

Sobre o auxílio do INEM aos feridos, uma representante da equipa de cuidados de saúde da acampada de Lisboa subiu ao palco para denunciar que os serviços de emergência comunicaram que os manifestantes tinham de “pedir ajuda à polícia porque não tinham segurança para vir à praça”.

A porta-voz falou do caso concreto de uma pessoa que tinha sofrido um “traumatismo cranioencefálico” e notou a revolta dos manifestantes perante a sugestão de pedir auxílio aos agentes da PSP que tinham acabado de agredir aquela pessoa.

O momento de tensão com a polícia e os festejos à vitória de Lula

Pela 1h00 da manhã, Lula da Silva era declarado oficialmente vencedor das eleições no Brasil e no Rossio os protestos transformaram-se em festejos. Gritos de “Lula olé” e o símbolo do “L” invadiram a praça lisboeta. Um grupo de portugueses e brasileiros abraçou-se, com muitas pessoas emocionadas com a “virada” na segunda volta no Brasil.

▲ À manifestação deste domingo à noite juntaram-se os festejos da eleição de Lula da Silva no Brasil

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Depois dos festejos e várias horas depois de a organização da acampada ter anunciado a desmobilização da manifestação, houve ainda um momento de tensão entre a polícia e os manifestantes. Cinco agentes da PSP atravessaram a praça em passo acelerado, o que deu origem a uma mobilização de centenas de manifestantes para junto deles. Depois de alguns minutos de tensão, não foi possível apurar exatamente o que levou a polícia a mobilizar-se.

Nas laterais da praça, durante o resto da noite, estiveram estacionados vários carros e carrinhas da PSP, com agentes do corpo de intervenção alinhados de frente para a Praça Dom Pedro IV.

Entre os manifestantes o apelo era para que ninguém regressasse a casa sozinho. “A desmobilização faz-se de forma segura”, apelou um dos membros da organização da Acampada já depois da meia-noite e meia, hora que a PSP indica como limite para o fim do barulho associado às manifestações.

Pelas 2h00 da madrugada já se contavam às poucas dezenas os manifestantes que ainda marcavam presença na Praça Dom Pedro IV. O dispositivo policial mantinha-se ainda no local.

▲ Milhares de pessoas regressaram este domingo ao Rossio

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

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