Não era uma missão qualquer. Primeiro, pela desvantagem de dois golos. Depois, pela qualidade coletiva do adversário. A par disso, pelo registo caseiro na presente temporada com apenas uma derrota desde agosto. Por fim, pela maturidade competitiva que a participação de sucesso na Liga Europa foi conferindo. A perder por 2-0 a dez minutos do final, o Bayern parecia condenado a somar a segunda derrota na Bundesliga. Mais uma vez, o Bayern foi Bayern. Bischof bisou e fez o empate no segundo minuto de compensação, o prodígio Lennart Karl que foi muito criticado por ter confessado o sonho de um dia jogar no Real Madrid fez o 3-2 no nono minuto de descontos. Com mais ou menos baixas na equipa, com maiores ou menores dificuldades nos jogos, os bávaros voltaram a consolidar a imagem de um conjunto praticamente imbatível numa versão 2.0 da era Vincent Kompany no clube. Agora, surgia mais um teste. “O” teste. Aquele teste contra uma equipa que pode ir claudicando no caminho em termos internos mas que tem sete vidas a jogar na Europa.

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A deslocação a Maiorca foi mais um exemplo paradigmático do carrossel de altos e baixos que se manteve desde que Álvaro Arbeloa assumiu o comando da equipa na vaga de Xabi Alonso. Uma exibição fraca, um desempenho medíocre no plano ofensivo, uma imagem de total apatia com o 2-1 sofrido no descontos após o empate de Éder Militão aos 88′, uma desvantagem de sete pontos para o líder Barcelona que pode sentenciar quase em definitivo o rumo da La Liga, uma conferência no final do jogo com muita resignação mas poucas ou nenhumas explicações para os eclipses frequentes quando não havia margem para isso. Trocado por miúdos, aquilo que o Real não consegue contrariar em termos internos é exatamente aquilo para o qual o Bayern encontra sempre uma resposta. E era nesse contexto que chegava um dos duelos com mais história nas competições europeias, com ligeira vantagem dos espanhóis num total de 28 confrontos (13-11).

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O El País falava mesmo na figura de um Dia da Marmota onde o Real ficou encalhado há 595 dias, quando, também após um deslize em Maiorca para a Liga (1-1), Carlo Ancelotti deixou um alerta: “Esta partida é um exemplo bastante claro de como podemos ter problemas. Falta de equilíbrio, de compromisso coletivo e de concentração dá nisto”. Agora, Arbeloa referiu de forma mais lacónica que “é mais complicado quando os jogadores não compreendem que sem dar 200% não era possível ganhar” mas a ideia estava lá na mesma: os técnicos vão passando mas o interruptor do desliga-liga-desliga-liga-desliga não desaparece. E era por isso que o El Mundo descrevia esta eliminatória da Liga dos Campeões como uma última hipótese de virar a página a ganhar ou uma possibilidade para reconstruir tudo desde a base no final da temporada.

O que sobrava? Aquilo que Oliver Kahn, antigo guarda-redes do Bayern e da Alemanha, descrevia numa entrevista ao Süddeutsche Zeitung como uma cultura sem paralelo na Europa. “Sabes o que está nas paredes dos balneários? A troféu da Liga dos Campeões. Vás onde fores, naquela academia é a taça que nos persegue em todas as partes. No Real, todos os jovens entendem desde o início daquilo que é o clube: é exatamente aquele troféu”, contou. E era nisso que um grupo com alguns dos melhores jogadores do mundo que de quando em vez sabem ser uma equipa (sobretudo em contexto europeu) se agarrava antes da primeira mão dos quartos com uma das melhores equipas do mundo que sabe ter dos melhores jogadores.

“Em termos de resultados, é possível que o Bayern seja a equipa mais consistente na Europa esta temporada. Sabemos o desafio que temos pela frente e o histórico que existe contra o Bayern, num jogo que é sempre especial para nós. O Bernabéu vai viver mais uma grande noite de Champions, tal como aquela que vivemos com o Manchester City. Acredito que podemos repeti-lo”, destacara Arbeloa. “Nestes momentos precisas de ter a mentalidade adequada. A este nível, todos os adversários são perigosos. Não queremos sofrer golos e pretendemos marcar, no mínimo, um golo. Não há um plano específico contra uma equipa como o Real. Queremos demonstrar que somos capazes e queremos ganhar. Que não tenhamos medo, apesar de ser o estádio mais difícil para jogar fora de casa na Liga dos Campeões”, apontara também Vincent Kompany. Mas seria um estádio suficientemente grande e “pesado” para contrariar a “lógica”? Esse era o principal desafio.

Não demorou a perceber-se que não era uma utopia: com um futebol que em posse tem parecenças com o melhor que se via da versão tiki taka do Barcelona ganhando depois outras valências pela capacidade de dar largura à equipa de Olise e Luis Díaz, o Bayern entrou com grande personalidade e viu Álvaro Carreras tirar o primeiro golo a Upamecano num desvio após assistência de Tah que foi cortado em cima da linha (10′). A par disso, os bávaros voltaram também a contar com um guarda-redes chamado Manuel Neuer que está melhor com o passar dos anos, tendo duas defesas soberbas a remates de Vinícius Jr. (17′) e Mbappé (29′). Contudo, e em termos coletivos, os alemães tinham algo mais do que o Real para mostrar, sendo premiados perto do intervalo com o 1-0 em mais uma grande jogada dos elementos da frente: Olise conseguiu a interceção, Gnabry fez a assistência e Luis Díaz, sozinho na área, rematou rasteiro sem hipóteses para Lunin (41′).

Esperava-se mais do Real. Muito mais. O Bayer quis mais. Muito mais. E bastaram apenas 21 segundos para surgir o 2-0, com Olise a assistir Harry Kane para o remate de fora da área que deixou atónitos jogadores e adeptos dos merengues, a olhar para todos os lados à procura de justificações quando a culpa era somente própria (e da qualidade dos bávaros, entenda-se). Mais: nos minutos que se seguiram, o Real arriscou, e muito, sofrer um terceiro golo que poderia levar a equipa a um autêntico descalabro. A equipa que mais vezes foi campeã europeia esteve no limite para cair de vez e só perante essa ameaça voltou a recuperar a melhor versão: Mbappé reduziu a desvantagem com um desvio na pequena área (74′), Vinícius Jr. e Arda Güler tiveram oportunidades flagrantes e, apesar da derrota, o conjunto espanhol teve o mérito de deixar ainda algo por decidir na segunda mão na Baviera frente a um Bayern mais consistente… e perdulário.

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