Era um encontro entre dois campeões europeus que dificilmente poderiam estar em sítios tão opostos das suas respetivas histórias. De um lado, um PSG à procura de conquistar a Liga dos Campeões pela segunda época consecutiva enquanto está cada vez mais perto de fazer xeque-mate na Ligue 1; do outro, um Liverpool à procura de uma tábua de salvação europeia que permita esquecer o quinto lugar na Premier League.

E a verdade é que o momento distinto que franceses e reds atravessavam ficava espelhado até nos resultados. Se o PSG vinha de quatro vitórias consecutivas, o Liverpool vinha de apenas um triunfo em cinco jogos. Se o PSG tinha dilacerado o Chelsea nos oitavos de final, o Liverpool teve de perder na Turquia com o Galatasaray para dar a volta em Anfield. E se o PSG sofreu um golo nos últimos três encontros, o Liverpool sofreu seis. Nada que retirasse cautelas a Luis Enrique e confiança a Arne Slot, ainda assim.

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“Não importa quem são os favoritos, porque neste tipo de jogos é impossível ter um favorito. Esperamos ter mais bola do que o Liverpool, mas sabemos o quão difícil isso é, porque eles são uma equipa muito boa e têm um treinador muito bom. A função do treinador é encontrar uma maneira de obter um bom desempenho, cada ano é diferente do anterior e não podemos trabalhar da mesma forma que no ano passado. O que mais desejo é manter a identidade da equipa para praticarmos um bom futebol e desfrutarmos da competição. Eles são uma equipa de alto nível e acreditar que somos os principais favoritos é o caminho mais rápido para cair na armadilha e estragar tudo”, disse o treinador espanhol.

Já Arne Slot, que na temporada passada viu os reds serem eliminados precisamente pelos franceses nos oitavos de final, também esvaziava as conversas sobre favoritismo. “Não posso contrariar que temos sido inconsistentes, mas o segredo está na nossa história. O Liverpool consegue fazer grandes coisas nos momentos mais complicados e vamos conseguir fazê-lo em Paris. A minha equipa tem imensa qualidade, o PSG também e já mostrámos que podemos competir com qualquer equipa na Europa. O bom é que durante este ano tornámo-nos bastante experientes no que toca ao negativismo, por todos os contratempos que tivemos”, atirou o técnico neerlandês.

Neste contexto e no Parque dos Príncipes, Luis Enrique não contava com os lesionados Fabián Ruiz e Bradley Barcola e lançava Nuno Mendes, João Neves e Vitinha no onze inicial, com Gonçalo Ramos a ser suplente e Dembélé como referência ofensiva, apoiado por Doué e Kvaratskhelia. Já Arne Slot, que não deve mesmo voltar a ter o guarda-redes Alisson até ao fim da temporada, tinha Mamardashvili na baliza e apostava em Hugo Ekitike no ataque, deixando Salah, Gakpo e Isak no banco e colocando Florian Wirtz, Szoboszlai e Frimpong nas costas do avançado francês.

Numa primeira parte totalmente desequilibrada, o PSG foi muito superior ao Liverpool em toda a linha e só precisou de pouco mais do que dez minutos para abrir o marcador: Doué recebeu na esquerda, rodou sobre si mesmo para confundir os adversários e atirou em jeito para a baliza, beneficiando ainda de um desvio em Gravenberch para bater Mamardashvili (11′).

Os parisienses dominaram por completo ao longo de toda a primeira parte, com os ingleses a serem forçados a responder a uma pressão a que não estão habituados, mas a verdade é que a equipa de Luis Enrique só voltou a aproximar-se do golo já perto do intervalo. Kvaratskhelia rematou para Mamardashvili defender (32′), Doué fez o mesmo (37′), o mesmo Kvaratskhelia falhou o alvo pouco depois (38′) e Dembélé ainda obrigou o guarda-redes georgiano a uma nova intervenção (42′) antes de João Neves também atirar ao lado (54′). Ao intervalo, com Gravenberch a ser o único inconsequente inconformado dos reds, o PSG estava a vencer o Liverpool no Parque dos Príncipes.

Nenhum dos treinadores mexeu no início da segunda parte e a lógica mantinha-se: o PSG tinha mais bola, tanto Achraf Hakimi (53′) como Dembélé (53′) tiveram boas ocasiões para aumentar a vantagem e o Liverpool não tinha grande capacidade para responder à superioridade adversária. Os parisienses tinham muito fluxo ofensivo, mas pecavam demasiadas vezes no último passe ou na finalização e iam permitindo que os ingleses se mantivessem dentro da decisão, ainda que o conjunto de Arne Slot raramente chegasse com perigo perto de Safonov.

Já depois da hora de jogo, porém, Kvaratskhelia achou que já estava a passar demasiado tempo sem que o marcador voltasse a mexer. Na conclusão de uma longa jogada de posse, o georgiano recebeu na esquerda de João Neves, entrou na área, passou pelo guarda-redes em drible e atirou para a baliza praticamente deserta para aumentar a vantagem (65′). Ambos os treinadores mexeram nesta fase, sendo que Luis Enrique só lançou Kang-in Lee e Arne Slot pôs Isak, Curtis Jones, Robertson e Gakpo de uma vez.

Dembélé ainda acertou no poste até ao fim, com um remate forte e cruzado na área depois de uma transição rápida (87′), mas já nada mudou. O PSG venceu o Liverpool em Paris, colocou-se em vantagem nos quartos de final da Liga dos Campeões antes da segunda mão da próxima semana em Anfield e está cada vez mais perto das meias-finais — num jogo em que até podia ter goleado, não fosse tanto desperdício.