Do lado direito João Neves e Nuno Mendes, do lado esquerdo Vitinha e Gonçalo Ramos, a meio Luís Campos com o capitão Marquinhos por trás. A primeira visita do PSG a Anfield depois do trágico desaparecimento de Diogo Jota foi assinalada com cinco ramos de flores deixados pelos portugueses num dos vários pontos que ainda recebem homenagens de alguém que se tornou eterno pela forma de ser e de estar dentro e fora de campo para companheiros, adversários, fãs ou rivais. Ali estavam alguns dos que mais sentiram a perda do avançado, agora encontravam do outro lado do campo outros dos que mais sentiram a perda do avançado. De forma inevitável, era ele, que ascendeu a Ele, que estaria de forma omnipresente no encontro que iria sempre marcar um fim de ciclo – fosse deste Liverpool, fosse desta versão d0 campeão europeu.

A primeira mão não deixaram grandes dúvidas em relação à superioridade de uma das equipas. Aliás, o 2-0 acabou por ser lisonjeiro para o Liverpool perante tudo aquilo que o PSG produziu sobretudo com bola, que esteve muito além dos golos de Doué e Kvaratskhelia. No entanto, e numa época que marcou a vários níveis um eclipse da luz que Arne Slot trouxera a Anfield na era pós-Jürgen Klopp, os reds recusavam desistir. Pela defesa de honra, pela redenção de uma temporada marcada de forma trágica pelo desaparecimento de Diogo Jota, pelo último capítulo da era Salah no clube (e outros consagrados, como Alisson, se seguirão). “Estou pronto para morrer em campo e creio que falo por todos os companheiros. Desvantagem de dois golos? Em Anfield, tudo é possível num jogo”, destacara Szoboszlai, que tem sido uma das figuras dos ingleses.

Não há favoritos, mas eles só precisam de estar em campo para ficarem mais perto da vitória: PSG vence Liverpool em Paris

“As pessoas provavelmente acharão muito difícil de acreditar no que vou dizer mas a abordagem não é tão diferente da que tivemos em Paris, porque quem me conhece sabe que nunca monto uma equipa para lhes dizer que se metam num bloco baixo durante 90 minutos. Se virmos o jogo com atenção, pressionámos alto em vários momentos mas sete ou oito resultaram em situações de 1×1 com o nosso guarda-redes. A abordagem será novamente a de correr risco. Nos 49 jogos que fizemos em casa, em 36 conseguimos marcar dois ou mais golos. Existe a crença de que podemos fazer algo especial mas precisamos de ser muito, muito, muito especiais para o conseguir. É difícil mas não é impossível”, apontara Arne Slot, numa espécie de mote que queria contagiar os adeptos do Liverpool para mais uma noite mágica num dos estádios mais míticos.

Problema? Quem estava do outro lado. Se existe uma equipa que gosta de sentir estes ambientes mesmo que sejam contra a sua equipa é o PSG, aquele conjunto de craques que conseguiu chegar a grande coletivo e que tem um sentido puro de jogar futebol pelo jogo como é complicado encontrar nos dias que correm. Ainda assim, como tem acontecido em muitos destes momentos, Luis Enrique puxava a marcha-atrás em qualquer tipo de triunfo antecipado. “Para mim, é um jogo armadilha. Toda a gente diz que fomos superiores na primeira mão e é verdade, mas os jogos mudam depressa. É preciso estar preparado. Podemos sofrer um golo na primeira parte e o jogo fica em aberto. Temos de preparar o jogo da mesma forma de sempre porque é a nossa mentalidade. Não procurar defender mas sim marcar para ganhar. Para mim, essa é a chave”, apontara o técnico espanhol, que recordou o dia em que esteve Anfield como um mero adepto, nos tempos de Luis Garcia como jogador: “Foi especial, muito diferente do que vivi como jogador. Gostei muito”.

O peso do jogo era grande, a efeméride que se assinalava ainda adensava esse cenário, com um arrepiante minuto de silêncio em memória das 96 vítimas do desastre de Hillsborough na meia-final da Taça entre o Liverpool e o Nottingham Forest que fará esta quarta-feira 37 anos. No entanto, e se a missão já era muito complicada para o conjunto da casa, a exibição de Safonov na baliza dos parisienses acabou por ser o fator determinante para travar os momentos em que os ingleses conseguiram encostar o PSG às cordas. Uma vez, duas vezes, três vezes, as vezes suficientes para estender a passadeira à passagem com mais uma vitória, neste caso com Dembélé a mostrar o porquê de ter conquistado a Bola de Ouro com novo golo de antologia onde recebeu com o pé direito e atirou de pé esquerdo sem hipóteses para Mamardashvili antes do bis nos descontos. O Liverpool caiu de pé mas nem isso impediu que esta noite fosse fechado um ciclo em Anfield com essa notícia ainda pior da lesão grave de Ekitiké, avançado que deve mesmo falhar o próximo Mundial.

O espírito Anfield ainda se fez sentir nos minutos iniciais, com os adeptos da casa a empurrarem o Liverpool para o último terço ainda que sem remates num novo desenho tático ofensivo que colocava Wirtz no apoio à dupla de avançados Ekitiké-Isak e os laterais a terem via verde para subirem com coberturas dos três médios, mas cedo o PSG conseguiu colocar o jogo mais ao seu jeito, dando a batuta a Vitinha e criando uma primeira situação de golo numa saída de Mamardashvili para tirar a profundidade antes da tentativa de chapéu de Nuno Mendes travada pelo guarda-redes georgiano (10′). Esse maior risco dos ingleses era mais uma vez aproveitado pelo PSG para explorar os espaços e criar oportunidades, neste caso com João Neves a fazer tudo bem na área na sequência de um lançamento lateral para o remate isolado de Dembélé por cima (17′).

Chegava o minuto 20, chegava o momento Jota, chegava aquela altura em que não interessa se o jogo está a correr melhor ou pior ao Liverpool porque é tempo de recordar alguém que também traz sentido ao mítico You’ll never walk alone. Coincidência ou não, esse foi também o momento em que o encontro começou a mudar de feição apesar da lesão aparentemente grave contraída por Hugo Ekitiké que promoveu a entrada de Salah na partida, com egípcio a receber um passe longo de Mamardashvili para fazer o cruzamento que deu a melhor oportunidade da primeira parte: Kerkez desviou na área para uma grande defesa de Safonov, depois Marquinhos conseguiu evitar a recarga de carrinho para canto (31′). O PSG apanhava um primeiro susto num final de primeira parte que trouxe outra má notícia perante a lesão muscular de Nuno Mendes.

O intervalo deu a Arne Slot a oportunidade de mexer de novo no figurino tático da equipa, neste caso com as entradas de Joe Goméz e Gapko para assumir um ataque mais móvel sem ter uma referência mais central no ataque mas que dava outra margem para os movimentos vindos de trás de Szoboszlai a par de Wirtz. Seria mesmo o neerlandês a ter o primeiro remate com perigo para defesa de Safonov (48′) antes de outra baixa na formação de Luis Enrique, desta vez com Doué a bater com violência num microfone no relvado e a ter de dar lugar ao regressado Barcola. O Liverpool apertava, com Kerkez a ter mais um remate com perigo que passou ao lado (57′) e Gravenberch a atirar para defesa segura de Safonov (63′), Anfield entrava em delírio com a capacidade que os reds tinham em tirar bola ao PSG para empurrarem os campeões europeus para o seu meio-campo e mais em euforia ficou com a entrada de Rio Ngumoha, que viu o guarda-redes russo tirar-lhe também o golo (72′) antes de Dembélé, agora de pé esquerdo, testar a meia distância e fazer o 1-0 (73′). A história da eliminatória estava contada, a história do jogo ainda não e Dembélé ainda iria bisar aos 90+1′.