“Uma das personalidades mais multifacetadas do mundo do futebol”. Era desta forma que o jornal espanhol Marca descrevia André Villas-Boas, recuperando aquela que foi a sua primeira época inteira como treinador do FC Porto onde ganhou tudo o que havia para ganhar entre Campeonato, Taça de Portugal, Liga Europa e Supertaça e apontando agora aquilo que é o novo papel como presidente dos dragões após uma carreira que passou por países como Inglaterra, Rússia, China e França. “Percorreu todo este caminho com um parceiro inseparável: a Fundação Laureus”, acrescentou. E foi nessa posição que entrevistou o líder dos portistas, onde falou da forma como vive os dois papéis recordando também o antigo número 1, José Mourinho.

“O FC Porto e os seus adeptos tiveram a oportunidade de homenagear o José Mourinho quando saiu do Fenerbahçe, antes de assinar pelo Benfica, o nosso grande rival. Penso que isso foi importante. Neste momento é treinador do Benfica e de vez em quando trocamos mensagens, respeitando os nossos clubes, porque lutamos pelo mesmo objetivo, o Campeonato Nacional”, confidenciou o antigo membro da equipa técnica do atual treinador dos encarnados no FC Porto, no Chelsea e no Inter, até passar a principal.

“Sempre quis ter uma carreira curta como treinador e treinei durante 13 anos. Nos últimos anos estive a preparar-me para as eleições no FC Porto: a fechar o programa, a organizar a minha equipa… Foi realmente emocionante. O clube ganhou muitos títulos com Pinto da Costa, o presidente com mais êxito na Europa, mas era hora de mudar, por isso decidir apresentar-me. Correu bem porque os sócios do FC Porto queriam essa mudança. Procuravam estabilidade, sobretudo financeira”, recordou a propósito de todo o processo antes do sufrágio de 2024, depois de orientar Académica, FC Porto, Chelsea, Tottenham, Zenit, Shanghai SIPG e Marselha, clube francês que foi o último da carreira entre os anos de 2019 e 2021.

O papel de presidente é mais stressante. Como treinador tens mais coisas debaixo de controlo: a equipa, a preparação, as táticas… O papel de presidente é colocar as pessoas no seu lugar correto em diferentes áreas, começando por todas as modalidades e seguindo com tudo o que tem a ver com o grupo FC Porto entre finanças, marketing ou logística. Foi um grande desafio”, frisou.

“Tivemos um primeiro ano difícil, um primeiro ano de transformação, onde a maior parte do nosso foco estava nos aspetos financeiros. Conseguimos equilibrar a longo prazo e agora colocamos o foco na estabilidade do plano desportivo. Contratámos Francesco Farioli, que foi uma aposta certa. Estamos na liderança da Primeira Liga, nas meias-finais da Taça de Portugal e nos quartos da Liga Europa. Por isso, renovámos contrato com ele. Temos uma grande confiança no seu trabalho e no futuro. Na formação também está tudo um pouco mais estável. Há muitos jovens a evoluir e confio que, a longo prazo, nos tragam estabilidade para que o FC Porto tenha mais êxito a nível nacional e internacional”, recordou sobre esse trajeto que está quase a cumprir dois anos desde a vitória nas eleições com quase 80% dos votos.

Em paralelo, André Villas-Boas falou também dos espanhóis que fazem parte do atual plantel dos azuis e brancos, descritos como “diferentes oportunidades de mercado”. “O Samu foi um acordo importante, que tivemos de fechar em 24 horas. Foi uma contratação excecional, não apenas como jogador pela velocidade, poder e presença física mas também como ser humano. O Gabri [Veiga] era um jogador que sentimos que tinha de vir para o FC Porto, não só por estar perto de Vigo mas pela sua dimensão e talento. Está a um nível excelente, creio que é a sua melhor temporada a nível de golos e assistências. O Borja [Sainz] teve uma grande explosão no Norwich, captou a atenção dos nossos olheiros e decidimos ir por ele. É alguém de quem gostamos, representa o espírito FC Porto e acreditamos que pode ter êxito aqui”, explicou.

“A contratação do Thiago Silva era uma extraordinária oportunidade. Foi oferecido pelos seus agentes e tudo se desenrolou de forma rápida. Fechámos logo porque não acreditávamos na oportunidade que nos tinham apresentado. É fantástico ter o jogador e o líder que regressou 20 anos depois. Apesar de muita gente não saber isso, a sua carreira na Europa começou no FC Porto. Sofreu muito quando foi diagnosticado com tuberculose e é uma grande forma de encerrar uma história realmente mágica”, completou.

Na mesma entrevista publicada esta quarta-feira na Marca, André Villas-Boas falou também das “diferentes experiências e emoções” que foi tendo na ligação com a Fundação Laureus. “Conquistou o meu coração por todo o apoio que prestam através do desporto. A Laureus tem sido fundamental para a criação de diferentes projetos pelo mundo. Também tive o privilégio e a honra de levar e promover o nome da Laureus nas minhas aventuras pelo Dakar. O trabalho que realizam é insuperável, também ajudaram a minha associação, a Race for Good. A viagem à Índia foi muito impactante. Visitar os subúrbios mais pobres de Deli foi interessante e desafiante ao mesmo tempo. Tivemos algumas sessões de treinos com crianças num contexto mais baixo de desenvolvimento social e a emoção e felicidade que mostraram enquanto estavam a praticar desporto connosco foi fantásticos”, concluiu o agora presidente do FC Porto.