A chinesa Leapmotor, cujos veículos pagam uns adicionais 38,1% de taxas à entrada dos mercados europeus, destinados a atenuar os subsídios atribuídos pelo Estado chinês aos construtores locais que são considerados ilegais pela Organização Mundial do Comércio — a que urge adicionar os habituais 10% de imposto às importações para a UE —, conseguiu encontrar uma forma de evitar esta penalização. Tudo porque o grupo Stellantis lhe cedeu espaço na fábrica que possui em Saragoça, em Espanha, e onde já fabrica o Opel Corsa (a combustão e eléctrico), o Peugeot 208, o Citroën C3 Aircross e o Lancia Ypsilon, para aí produzir o B05 e o B10, furtando-se assim aos 38,1% por passar a construir estes modelos na Europa.
A Stellantis, que já sofreu alguns desaires com os investimentos no mercado chinês — viu-se obrigada a desfazer-se das instalações fabris que possuía na China em 2022 por não as considerar viáveis —, trocou a produção local pela compra de uma participação de 20% na Leapmotor, uma das mais jovens e desconhecidas marcas chinesas, que construiu o primeiro carro apenas em 2019 e que, em 2023, se financiou ao vender 20% da empresa à Stellantis. Passados três anos, o grupo franco-italo-americano não só decidiu que a estratégia correcta era comercializar e assistir os Leapmotor nos seus concessionários, como agora se prepara para dar mais um passo em frente e fabricá-los em instalações europeias, isentando-os dos impostos adicionais à importação de carros chineses.
A Leapmotor está longe de ser a mais sofisticada e prometedora das marcas chinesas mas, à velocidade a que estas costumam evoluir e ao ritmo a que investem e que usufruem dos investimentos do Estado chinês em novas tecnologias, também ela se pode tornar num caso sério em poucos anos. Numa altura em que a economia chinesa está a arrefecer e há um claro excedente na produção de veículos e a única possibilidade é escoá-los para mercados como o europeu, a Stellantis está a dar a mão a um potencial novo concorrente, que promete “roubar-lhe” vendas.
Ainda antes de os Leapmotor começarem a sair de Saragoça, já começaram a sair notícias — boas para os chineses, mas não muito para as marcas da Stellantis, uma vez que o B05 é uma berlina de cinco portas comparável ao 308 e até ligeiramente mais generosa em dimensões. Porém, oferece duas capacidades de bateria, com 56,2 e 67,1 kWh, que lhe garantem 400 e 482 km de autonomia, respectivamente, recarregáveis a 170 kW. Por seu lado, o E-308 disponibiliza uma bateria com 55,4 kWh (recarregável a 100 kW) e anuncia 450 km de autonomia. O problema é que nos países em que já está a ser proposto, como Itália, o B05 está a ser comercializado por menos 14 mil euros do que o Peugeot E-308.
Em Portugal a situação não é muito diferente, com o B05 a ser proposto por 24.500€ no site oficial do construtor, com uma campanha promocional, uma vez que sem ela o preço deverá rondar 26.900€. Ainda assim, um dos valores mais acessíveis do mercado para uma berlina do segmento C, mesmo entre rivais chineses. Só como termo de comparação, no site da Peugeot, o E-308 (igualmente eléctrico) é transaccionado por 35.195€, ou seja, por mais cerca de 11 mil euros. E como o B05 e o E-308 vão estar à venda no mesmo espaço comercial, só um deles será adquirido por cada cliente que entre pela porta, o que pode ser um problema para a Peugeot, mas também para a Opel e Citroën.