Foi um daqueles momentos em que o timing do destino pareceu estar completamente desalinhado. Horas antes de conquistar novamente a La Liga, horas antes de enfrentar novamente o Real Madrid e disputar um dos jogos mais especiais da carreira, Hansi Flick perdeu o pai. Dizer que o treinador alemão teve de balançar sentimentos contraditórios durante este domingo, portanto, é um eufemismo.

Hansi Flick soube que o pai tinha morrido durante a madrugada de sábado para domingo e comunicou isso mesmo à estrutura do Barcelona logo nas primeiras horas do dia 10 de maio, garantindo também que iria estar no banco contra o Real Madrid e cumprir todos os preparativos para o decisivo El Clásico como se nada tivesse acontecido. O pai do treinador alemão foi homenageado com um minuto de silêncio antes do apito inicial em Camp Nou e, já depois da vitória e da consequente conquista do Campeonato, Hansi Flick não escondeu a emoção junto da comunicação social.

Há noites que marcam gerações e em que se engrandece um legado: Barcelona sagra-se bicampeão no El Clásico frente ao Real Madrid

“Foi um jogo difícil e nunca vou esquecer este dia. Quero agradecer ao plantel, ao presidente e a todas as pessoas que nos apoiaram. O mais importante é que estou muito orgulhoso por ter uma equipa tão boa. Obrigado por tudo. Obrigado por esta vontade de lutar em cada jogo, é algo que aprecio muito. Acho que agora temos de celebrar”, começou por dizer o treinador, que foi lançado ao ar por todos os jogadores e ainda ouviu as bancadas do Camp Nou dedicarem-lhe uma enorme ovação.

“Quando a minha mãe me ligou a dizer que o meu pai tinha morrido pensei sobre se era melhor dizer à equipa ou não. Mas a verdade é que somos uma família e quis contar. Nunca vou esquecer-me de como reagiram. Estou muito contente por poder trabalhar com esta equipa magnífica. É algo que me deixa muito orgulhoso e creio que é possível ver a conexão que temos. Toda a gente sente que faz parte do projeto, toda a gente está ligada. É muito complicado falar de tudo isto hoje, mas estou muito contente. Nunca tinha sentido tanto afeto, é incrível”, acrescentou o alemão de 61 anos, que anteriormente já tinha contado que nasceu quando os pais eram ainda adolescentes.

Hansi Flick guiou assim o Barcelona ao bicampeonato e sagrou-se também bicampeão espanhol, conquistando o quinto troféu dos oito possíveis nas últimas duas temporadas — ou seja, só falhou mesmo as duas Ligas dos Campeões e a Taça do Rei desta época, somando dois Campeonatos, uma Taça do Rei e duas Supertaças de Espanha. Além disso e nos dois anos na Catalunha, o treinador alemão leva agora cinco vitórias em seis clássicos contra o Real Madrid, sendo que a deste domingo garantiu mesmo o título.

E se é certo que o Barcelona beneficiou da capitulação do Real Madrid na reta final da temporada, também é claro que Hansi Flick teve uma importância preponderante no sucesso dos catalães. Logo na terceira jornada da La Liga, ainda no final de agosto e depois de um empate com o Rayo Vallecano em Vallecas, o treinador alemão soltou uma frase que acabaria por nortear toda a temporada: “Os egos matam o êxito”, atirou, deixando bem claro que o truque para o resto da época seria dar prioridade ao coletivo e abandonar as individualidades.

E assim foi — por decisão estratégica, sim, mas também por necessidade. Ao todo, o Barcelona teve 18 jogadores lesionados ao longo de toda a temporada, incluindo Lamine Yamal, Ronald Araújo, Frenkie de Jong, Pedri ou Raphinha, num lote muito alargado que foi tendo sempre vários titulares indisponíveis. Além disso, as fragilidades financeiras dos catalães nunca permitiram grandes investimentos no verão ou no inverno, dificultando ainda mais a tarefa de Hansi Flick. Dos problemas, porém, o alemão construiu soluções.

Joan García chegou no verão vindo do rival Espanyol e depressa se tornou uma das garantias de estabilidade da equipa, fazendo esquecer Ter Stegen e demonstrando-se sempre muito seguro na baliza. Marcus Rashford foi emprestado pelo Manchester United, lançando-se para uma espécie de exílio na Catalunha, e este domingo marcou o 14.º golo pelos catalães, somando também 12 assistências. Já em janeiro, João Cancelo fez as malas na Arábia Saudita, deixou o Al Hilal e regressou a Camp Nou, acabando por ser um dos elementos mais importantes da segunda metade da temporada. Pelo meio, as apostas em Pau Cubarsí, Gerard Martín e Fermín López mostraram-se produtivas e consistentes, com o ADN de La Masia a ser sempre um dado adquirido.

E aí, naturalmente, Lamine Yamal é o nome maior. Apesar de se ter lesionado na reta final da temporada, falhando os últimos jogos do Campeonato para recuperar a tempo de representar Espanha no Campeonato do Mundo, o jovem avançado foi constantemente o melhor jogador da equipa. Depois de um início de época complicado, entre uma festa polémica, uma relação amorosa muito pública e uma lesão que ia travando a regularidade, o internacional espanhol de apenas 18 anos despertou entre outubro e novembro e registou 24 golos e 17 assistências, números que tornam esta temporada a melhor das três completas que já leva pelos catalães.

Por fim, Hansi Flick beneficiou do regresso a casa. Depois de quase dois anos e meio afastados de Camp Nou devido às monumentais obras de renovação do estádio dos anos 50, o Barcelona voltou a casa em novembro e ainda conseguiu realizar toda a segunda metade de temporada no mítico recinto. Foi por lá que prolongou um registo impressionante: venceu todos os jogos disputados em casa para a La Liga, entre Johan Cruyff Stadium, Estádio Olímpico Lluís Companys e Camp Nou, e se alcançar o 19.º triunfo contra o Betis na penúltima jornada do Campeonato chega mesmo a um pleno histórico e inédito.