Era um número que valia o que valia, foi um número que não demorou a fazer títulos na noite de sábado. No final da partida com o Estoril, com o triunfo do Benfica a ser insuficiente para fugir ao terceiro lugar perante a vitória do Sporting frente ao Gil Vicente, todos os olhos estavam centrados em José Mourinho e naquilo que já poderia ou não adiantar em relação ao futuro. A certa altura da conferência, soltou a frase: “Hipóteses de futuro? Acho que neste momento é de 99% de ficar no Benfica”. Cortando por aqui, sem olhar para o que houve antes e depois, ninguém poderia imaginar que o técnico iria sair. Questão: qualquer que fosse esse valor percentual, de 99% a 1%, todas as partes sabiam que no final sobraria um 0%. Mais: o único cenário em que Mourinho podia ficar na Luz era se o Real, e Florentino Pérez, dessem uma volta de 180º.
“Tenho contrato com o Benfica e, para além de ter contrato, tenho uma proposta de renovação que ainda não vi mas que o meu agente disse que era uma excelente proposta. Do lado do Real ainda não tenho nada mas nenhum de nós é parvo e o que existe são conversas entre o Jorge, o presidente e a estrutura”, explicou então o treinador. “Real? Depende da proposta e daquilo que queiram de mim. Não estamos a falar de um euro a mais ou a menos. O que querem de mim, se estou em condições de poder dar, o perfil de trabalho que me possam pedir. Por direito próprio, quero ter o meu tempo para conversar, analisar e decidir o melhor para mim. No fundo, o Benfica é o Benfica. O que eu sinto pelo Benfica já não dá para disfarçar. Andei a carreira toda a disfarçar, agora já não dá para disfarçar. Mas a minha carreira é a minha carreira”, completou. Era uma despedida que ficava nas entrelinhas mas que todos tinham há muito percebido em termos internos.
Do lado de Rui Costa, não havia nada a fazer – e pouco havia a dizer. “José Mourinho é treinador do Benfica até prova em contrário. Cabe a Mourinho decidir [sobre a proposta de renovação]. Quanto a tudo o resto, irei falar esta semana aos benfiquistas para fazer o balanço do que foi esta época. Se pensei em Marco Silva ou em mais alguém caso Mourinho saia? Obviamente que não, Mourinho é o treinador do Benfica até prova em contrário”, respondeu à RTP Notícias após a final da Taça de Portugal feminina frente ao FC Porto.
“Ficamos sempre descontentes quando não se ganha. De qualquer maneira, uma palavra de apreço a todos os benfiquistas que compuseram uma moldura humana neste estádio, depois de uma temporada completamente negativa na qual não se atingiram os objetivos. Parabéns à equipa feminina que tantas e tantas alegrias nos tem dado e conquistaram mais uma dobradinha, bem como aos adeptos que fizeram parecer que se tratava de uma final masculina. Depois disso falarei sobre o balanço”, acrescentou. Problema? Só seria possível avançar com esse balanço a partir do momento em que José Mourinho, na primeira pessoa ou pelo seu agente, desse esse sinal de que iria mesmo deixar a Luz para rumar ao Santiago Bernabéu. Pior: tinha dez dias desde o último encontro frente ao Estoril para fazê-lo, conforme ficou escrito em contrato.
Como o Observador contou nessa noite da partida na Amoreira, houve uma mudança de posições que se foi formando ao longo do tempo. Numa primeira instância, ainda em março, Mourinho queria renovar com o Benfica – e admitiu-o em termos públicos. Aí, Rui Costa considerou que não havia essa necessidade, tendo em conta que o técnico estava ligado aos encarnados até junho de 2026. Depois, começaram a surgir de forma mais insistente notícias que colocavam o técnico como número 1 das opções de Florentino Pérez para um novo ciclo em Madrid. Também aí, não houve nenhum contacto por parte do clube para fazer uma extensão do vínculo, que tinha essa cláusula que permitia às duas partes denunciar a ligação para 2026/27 mediante o pagamento de um valor (que se pensava ser de três milhões mas que pode chegar aos sete milhões). Só mesmo na última semana o Benfica apresentou uma oferta de renovação. Sem efeito.
Mourinho assumiu pela segunda vez que tinha recebido esse proposta após o jogo com o Estoril, falando mesmo numa oferta que apresentava “excelentes condições”, de acordo com o que Jorge Mendes, o agente, lhe tinha transmitido. O que estava então incluído? Um prolongamento da ligação até junho de 2028 com a possibilidade de renovação automática caso fossem atingidos determinantes objetivos desportivos, valores salariais superiores ainda aos que recebeu desde setembro de 2025 (ou seja, superando aquilo que tinha sido o registo máximo com Roger Schmidt) e mais bónus por conquistas de troféus. Houve ainda uma derradeira tentativa dos encarnados para que Mourinho pudesse renovar contrato mas a mesma acabou por não ter efeito perante a possibilidade de regressar a Madrid. E assim vai ficar, mesmo sem nenhum anúncio.
O Real tem ainda mais um jogo oficial para realizar, na 38.ª e última jornada da Liga espanhola, e atravessa um período ainda conturbado em termos institucionais depois da demissão de Florentino para se voltar a recandidatar à presidência. O líder dos merengues, com mais de duas décadas no cargo, terá de esperar pelos dez dias para a formalização de uma eventual lista concorrente (que pode mesmo aparecer, com a hipótese de Enrique Riquelme avançar ainda em cima da mesa) mas, em termos estatutários, à luz do artigo 39, os atuais órgãos sociais podem tomar todas as decisões que entendam até à tomada de posse do novo líder. Ou seja, mesmo que Florentino Pérez fosse derrotado nas urnas – cenário que dificilmente se deverá colocar pelo histórico das eleições recentes –, a próxima temporada podia ser na mesma preparada… com Mourinho.
Desde essa partida com o Estoril, e no período de reflexão que reclamou para si próprio, o técnico português tomou conhecimento daquelas que são as ideias do Real Madrid para o futuro e assumiu a ideia de regressar ao Santiago Bernabéu num contexto diferente daquele com que chegou e saiu entre 2010 e 2013. Aliás, esse era o ponto fundamental para aceitar um regresso aos merengues: o projeto desportivo, bem mais do que as questões salariais ou a extensão do vínculo, que deverá ter dois anos de duração. A partir de agora, é quase como um dominó: Mourinho ou Jorge Mendes têm de denunciar o último ano de contrato com o Benfica pagando o que está previsto, o Real Madrid pode depois apresentar oficialmente o técnico no final da temporada, os encarnados poderão de forma aberta fazer balanços e partir para a escolha do novo treinador.
Para já, tudo continua em stand by. José Mourinho passou na manhã desta segunda-feira pelo Seixal, saindo do local cerca de duas horas depois sem que existisse qualquer tipo de comunicação do Benfica em relação ao futuro do treinador. Sem isso, também não haverá “sucessão” – mas também isso está a ser estudado.
???? BREAKING: José Mourinho back to Real Madrid, HERE WE GO! ????????
All terms have been verbally agreed between José Mourinho and Real Madrid, waiting to sign all documents.
Plan for initial two year deal, JM to travel to Madrid after Real-Bilbao game.
The Special One is back. pic.twitter.com/K267WgiqjC
— Fabrizio Romano (@FabrizioRomano) May 18, 2026
Como o Observador escreveu na noite de sábado, Marco Silva, treinador do Fulham, foi recolhendo maior favoritismo a partir do momento em que a hipótese Ruben Amorim deixou de existir. Tal como acontecera na sequência da saída de Roger Schmidt no final de agosto de 2024, Rui Costa, Mário Branco e a SAD do Benfica têm recebido vários contactos de agentes a oferecer técnicos com maior ou menor experiência mas a opção deverá mesmo recair de novo num português. Amorim era a opção número 1 (ou 2, tendo em conta que José Mourinho recebeu uma proposta para renovar contrato…) mas, numa primeira investida, o antigo treinador do Manchester United fez ver que a sua carreira deverá prosseguir no estrangeiro após a primeira experiência mal sucedida fora de Portugal. Apesar dessa recusa, o Benfica quer esgotar todas as hipóteses para trazer de novo o técnico para a Liga portuguesa. Caso não seja mesmo possível, avançarão outros nomes.
Nesse contexto, Marco Silva passaria a reunir mais atenções. “Futuro? Ainda não decidi. Nem eu nem o clube podemos comunicar algo quando a decisão ainda não foi tomada. Não vou comunicar nada se não houver uma decisão. É tão simples quanto isso. Eu compreendo que os adeptos queiram conhecer o futuro do clube. Vamos ter reuniões, vou analisar. Acredito que há muitas coisas para analisar e é preciso ter calma neste momento para abordar muitas, muitas coisas. O próximo verão vai ser um dos mais importantes para o futuro do clube”, comentou o técnico que está a fazer a quinta temporada consecutiva no comando do Fulham, atual 13.º classificado da Premier League, mas que pode estar de saída do clube londrino.