Fjord, de Cristian Mungiu, um dos filmes mais contundentes da 79.ª edição do Festival de Cannes, saiu vencedor da Croisette este sábado, como uma história que, contada, não se acredita. Mas aconteceu, tal e qual, numa das democracias mais desenvolvidas do mundo, a norueguesa. E o que se vê diz muito do tempo em que vivemos. Mungiu nada inventou na dramatização cinematográfica que propôs à 79.ª edição do Festival de Cannes.
Passa-se Fjord em torno de uma família conservadora de católicos praticantes, há pouco instalada naquele país escandinavo, pai romeno e mãe norueguesa, não tarda envolvidos numa via sacra de procedimentos burocráticos quando os serviços sociais do país lhes batem à porta. E levam-lhes os cinco filhos, sem mais nem aquela, enquanto o Diabo esfrega um olho, até um bebé de berço! É que, na escola dos mais velhos, lançou-se o boato de que as crianças são punidas pelos pais (Renate Reinsve e Sebastian Stan) com umas palmadas no rabo. Nada provado, nada que alguma vez se veja no ecrã. Chega o caso à barra dos tribunais, com contornos de escândalo. Mungiu fica do lado certo da história.
A proposta do filme, que tem distribuição portuguesa assegurada pela NOS, foi suficientemente forte para valer, esta noite, uma segunda Palma de Ouro ao cineasta romeno de 58 anos. Presidiu ao júri o cineasta sul-coreano Park Chan-wook, acompanhado pelas actrizes Demi Moore (Estados Unidos) e Ruth Negga (Etiópia/Irlanda), pelas realizadoras e argumentistas Laura Wandel (Bélgica) e Chloé Zhao (China), pelo realizador Diego Cépedes (Chile), pelos actores Isaach de Bankolé (Costa do Marfim/Estados Unidos) e Stellan Skarsgaard (Suécia), e pelo argumentista Paul Laverty (Reino Unido).
O grupo de realizadores que venceu a Palma de Ouro duas vezes era formado por Francis Ford Coppola, Bille August, Emir Kusturica, Shohei Imamura, Jean-Pierre e Luc Dardenne, Michael Haneke, Ken Loach e Ruben Ostlund. Cristian Mungiu juntou-se ao lote, elevando para 10 o número de selectos (os manos Dardenne valem por dois). Nunca a Palma de Ouro foi atribuída ao mesmo cineasta por três vezes. Está para vir o dia.
Andrei Zvyagintsev, cineasta russo, hoje exilado em Paris, e que mostrou em Cannes um filme sólido, porém menos relevante no seu corpo de trabalho, Minotaur, teve a coragem de dirigir-se directamente ao líder da Federação Russa, pedindo a Putin que “acabe com a chacina” na Ucrânia. O seu filme centra-se no drama conjugal de um casal russo, subjugado ao clima geral de impunidade que o rodeia.
Cineastas do nível de Pedro Almodóvar e James Gray não foram sequer chamados ao palmarés, que “compensou” Notre Salut, de Emmanuel Marre, com o Melhor Argumento e resolveu distinguir o novo trabalho de Hamaguchi, Soudain, pela prestação das suas actrizes.
Já Pawel Pawlikowski, autor do seriíssimo Fatherland, não escondeu a ironia de partilhar um merecido prémio de realização com os simpáticos Javier Calvo e Javier Ambrossi, autores de La Bola Negra, jovens imberbes nestas andanças. Esta produção espanhola alterna três tempos cronológicos num espectáculo efusivo de elegia queer, sob o pretexto de uma peça teatral de García Lorca nunca terminada, e que alimenta uma narrativa a contextualizar a vida de personagens em três tempos distintos: 1932, 1937 (durante a Guerra Civil Espanhola) e 2017.
O prémio dividido à Melhor Realização é estrambólico, mas lembremos que Cannes é o festival que, em 2014, convidou um naipe de jurados que se atreveram a atribuir esta bizarria: um Prémio do Júri ex-aequo a Jean-Luc Godard e Xavier Dolan! Dito isto: Cannes é capaz de tudo.
Imensamente felizes ficámos pelo reconhecimento do trabalho da alemã Valeska Grisebach (belo Prémio do Júri a um dos melhores filmes deste festival, The Dreamed Adventure). Já as categorias de interpretação, ambas premiadas ex-aequo, revelaram uma escolha abrangente, indefinida, com pouco critério e personalidade, levando ao palmarés duas obras de nível desigual: Soudain, de Ryûsuke Hamaguchi e Coward, de Lukas Dhont.
CANNES 2026 – PALMARÉS
PALMA DE OURO
“Fjord”, de Cristian Mungiu
(Roménia/França/Noruega/Dinamarca/Finlândia/Suécia)
GRANDE PRÉMIO
“Minotaur”, de Andrei Zvyagintsev
(França/Letónia/Alemanha)
MELHOR REALIZAÇÃO (EX-AEQUO)
Javier Calvo e Javier Ambrossi por “La Bola Negra” (Espanha/França)
Pawel Pawlikowski por “Fatherland” (Polónia/Alemanha/Itália/França)
MELHOR ARGUMENTO
Emmanuel Marre por “Notre salut”, de Emmanuel Marre (França/Bélgica)
MELHOR ATOR (EX-AEQUO)
Emmanuel Macchia e Valentin Campagne por “Coward”, de Lukas Dhont
(Bélgica/França/Países Baixos)
MELHOR ATRIZ (EX-AEQUO)
Virginie Efira e Tao Okamoto por “Soudain”, de Ryûsuke Hamaguchi
(França/Japão/Alemanha/Bélgica)
PRÉMIO DO JÚRI
“The Dreamed Adventure”, de Valeska Grisebach
(Alemanha/França/Bulgária/Áustria)
CAMÉRA D’OR (MELHOR PRIMEIRA OBRA)
“Benimana”, de Marie Clémentine Dusabejambo
(Gabão/Noruega/Ruanda/França/Costa do Marfim)
UN CERTAIN REGARD – MELHOR FILME
“Everytime”, de Sadra Wollner (Alemanha/Áustria)
PALMA DE OURO – CURTA METRAGEM
“Para los contrincantes”, de Federico Luis (Chile/México/França)
PRÉMIO FIPRESCI (CRÍTICA INTERNACIONAL)
“Fjord”, de Cristian Mungiu
(Roménia/França/Noruega/Dinamarca/Finlândia/Suécia)