É uma daquelas histórias que ficou praticamente reservada entre quatro paredes. Por ali foi alvitrada, por ali acabou por ficar. Ao contrário do que é normal quando chega o último encontro da época em termos oficiais (sem contar com os playoffs de manutenção ou subida, claro), a hora podia ou não ser à tarde, 17h15 como já faz parte da tradição. Podia ficar para mais tarde, ficou como é costume. Isso e tudo o que faz parte do pacote Taça de Portugal: os churrascos, o porco no espeto, as geleiras carregadas de cerveja (não foi por acaso que em Torres Vedras aquilo que mais se vendeu nos mercados esta manhã foi… gelo), mais recentemente as inovações das piscinas insufláveis e das cadeiras de praia para encostar um bocado nas boxes antes de entrar no jogo a sério. O modelo da prova rainha do calendário nacional pode estar em vias de mudar, com essa possibilidade de haver uma Final Four com jogos únicos em campo neutro, mas Jamor vai continuar a ser Jamor. E essa foi a grande lição de um dia diferente onde o estranho era haver algum foco de tensão.

Um lance humilhante que carimbou toda uma humilhação – e que fez história (a crónica do Sporting-Torreense da final da Taça de Portugal)

Tudo funcionou como é habitual à exceção de um único pormenor: a zona da bancada no topo onde estavam concentrados os adeptos do Torreense, que teve uma enorme clareira até 15 minutos do início do encontro para que as autoridades conseguissem perceber entre todos aqueles bilhetes quantos é que eram mesmo de apoiantes de Torres Vedras e quantos é que tinham “caído” para o lado do Sporting. Aliás, bastava recordar que houve um boom no número de associados do clube da Segunda Liga nas últimas semanas, muitos a fazerem essa inscrição como sócios… para comprarem bilhetes para a final da Taça sendo do Sporting. Do lado dos leões, e mais uma vez, as reclamações eram as mesmas: vários adeptos com Lugar de Leão há mais de 20 anos que, pela primeira ocasião, não tiveram essa prioridade na aquisição de entradas.

Antes do apito inicial, ainda assim, tudo era esquecido. As cabras vestidas à Sporting que andaram pela mata do Jamor ficaram de fora como centenas de adeptos verde e brancos que assistiram ao encontro nos mesmos espaços que tinham ocupado durante todo o dia nos estacionamentos, as provocações ao presidente do FC Porto, André Villas-Boas, como tinha acontecido com Frederico Varandas no Dragão, também ficaram de fora, era tempo de rolar a bola. Ainda com muita gente a entrar no estádio com o jogo a decorrer, muita gente que quando se sentou já viu o Torreense em vantagem no marcador pelo golo madrugador de Zohi e muita gente que, na zona da bancada central, não passou ao lado de uma figura “fora do contexto”.

Entre muitas caras conhecidas do futebol nacional, incluindo antigos jogadores como Nelson Pereira (que levou o troféu para o centro do relvado, por ser a figura que maior ligação tinha a ambos os clubes), Adrien Silva ou Beto, entre outros, Luís Filipe Vieira marcou presença no Jamor ao lado de José António dos Santos, conhecido como Rei dos Frangos, que vendeu a participação de 16,38% que tinha no capital social da SAD do Benfica ao fundo norte-americano Entrepreneur Equity Partner. Ambos foram ao jogo a convite de um dos principais patrocinadores do Torreense, a Rações Valouro. Durante o encontro, a presença do antigo presidente dos encarnados passou ao lado. Ao intervalo, nem por isso: alguns adeptos do Sporting nessa zona foram gritando vários insultos contra Vieira, que se foi mantendo no seu lugar tentando passar ao lado. Mais tarde, antes do final da partida, a saída também foi tudo menos pacífica. “600 milhões que roubaste ao BES, vergonha! Tinhas isto tudo controlado, és uma vergonha!”. Vieira não respondeu.

Mais tarde, os alvos da ira foram outros. Com o Torreense em festa pela histórica conquista da Taça e com os adeptos da formação de Torres Vedras a verem o sonho concretizado com uma festa que prometia estar apenas a começar (e quase sempre com sons africanos à mistura, que faziam dançar todos os presentes), o ambiente do lado dos sportinguistas, que ocupariam uma maioria de cerca de 70% entre os 36.000 presentes no Jamor, estava bem mais pesado. A maioria optou apenas por sair cabisbaixo e de forma silenciosa do Jamor, algo que começou a partir do momento em que Stopira fez o 2-1 de grande penalidade e que se adensou após o apito final de António Nobre. No entanto, os ânimos estavam tudo menos pacíficos.

Depois de mais algumas assobiadelas no momento em que os jogadores do Sporting começaram a subir a escadaria do Jamor para receberem as medalhas de finalistas vencidos, num prolongamento de algo que já se tinha sentido na parte final do tempo regulamentar e em algumas decisões erradas durante o prolongamento, os elementos verde e brancos foram sendo alvo de vários insultos por alguns dos adeptos que marcavam presença no local. “São uma vergonha, são uma vergonha”, foram ouvindo, com Rui Borges a fazer questão de liderar a comitiva à frente de Pedro Gonçalves, que também não tinha gostado de ouvir os assobios no momento em que foi substituído. A tensão era evidente, o desconforto ainda mais. Estava só a começar.

Quando os jogadores do Sporting regressaram ao relvado fazendo o mesmo trajeto mas a descer, houve vários focos de tensão. Num deles, Francisco Trincão fez questão de tirar a família daquela zona da bancada e levá-la para o relvado já depois de um aumento de tensão que começou num bate boca com Zeno Debast, que ficou de fora da ficha de jogo por lesão. A partir daí, foram vários os jogadores que quiseram ir àquela zona, mostrando a sua indignação pelo que estava a acontecer ao mesmo tempo que pediam aos responsáveis da Federação para coordenarem com os seguranças a passagem de familiares e pessoas próximas para o interior do relvado como aconteceu com Luis Suárez. Também Gonçalo Inácio e Ricardo Mangas mostraram nesse momento de maior tensão a discordância com o que se estava a passar. Só mesmo quando alguns elementos da estrutura do Sporting retiraram todos os familiares os ânimos acalmaram.

Os adeptos que ficaram nas bancadas, neste caso no topo que estava destinado ao Sporting, não deixaram depois passar a saída dos elementos para o túnel de acesso aos balneários, com assobiadelas que pouparam poucos ou nenhuns e que chegaram também a Rui Borges, que estava visivelmente incomodado com toda a situação. “Não me apercebi mas o descontentamento é natural desde que haja o mínimo de respeito… Não estão mais tristes do que nós com toda a certeza”, relativizou depois na conferência de imprensa.

Cá fora, já depois de todos esses momentos, aquele que seria um jogo sem focos de tensão teve problemas também no exterior do recinto. Um grupo com dezenas de pessoas ligadas ao Sporting mas vestidas de preto tentou chegar-se à zona por onde iriam sair os autocarros, houve depois arremesso de garrafas e vários potes de fumo verdes abertos e a polícia teve mesmo de intervir de forma mais musculada, não só para terminar com esse arremesso de garrafas mas também para afastar todos os adeptos dessa zona de saída. Terão existido algumas detenções no meio da confusão, que ficou serenada com o reforço policial no local.