O festival Meo Marés (antigo Meo Marés Vivas), um dos principais festivais de música do Norte do país, está a ser alvo de críticas por apresentar um cartaz do Palco Comédia composto exclusivamente por homens. Ao longo dos três dias do festival, que decorre entre 17 e 19 de julho de 2026, em Leça da Palmeira, Matosinhos, sobem ao palco 12 humoristas — nenhum deles mulher.
“Três dias com quatro comediantes cada dia e não houve um único espacinho para uma comediante feminina. UAU?”, pode ler-se num dos comentários à publicação do cartaz nas redes sociais do festival. A humorista Mónica Vale de Gato também reagiu: “As mulheres estão de férias?”. “Total de 12 slots para comediantes e nem uma mulher?”, questiona outra pessoa. “Mas o MEO Marés agora é um festival só de homens?” e “Não conseguiram arranjar nenhuma mulher para atuar no palco comédia?” foram outras das críticas deixadas online.
A publicação nas redes sociais do festival Meo Marés com o cartaz do Palco Sapo Comédia
Nos últimos anos, os principais festivais de música portugueses têm apostado cada vez mais em palcos dedicados à comédia — uma tendência sobre a qual o Observador escreveu em 2023. No NOS Alive, por exemplo, atuam este ano Beatriz Gosta, Joana Gama, Isabel Viana, Catarina Moreira, Madalena Malveiro, Inês Baptista, Joana Caldeira, Catarina Rocha e Joana Oliveira. Já o Rock in Rio inclui nomes como Joana Miranda, Mónica Vale de Gato e Isabel Viana.
“Acho mal que nos dias que correm e com tantas mulheres na comédia nacional ainda se admita um cartaz sem uma única mulher. Há uns bons anos talvez ainda se pudesse usar a desculpa do ‘não havia nenhuma disponível’, mas hoje em dia isso, felizmente, já não é uma realidade”, afirma Liliana Marques, humorista, ao Observador. “Há várias mulheres humoristas, até mesmo da zona Norte do país, cada vez mais profissionalizadas e certamente disponíveis para fazer parte deste cartaz. É lamentável que a indústria não nos leve a sério ou não nos dê certas oportunidades.”
É o caso de Bruna Cunha, comediante de Ermesinde, que criticou publicamente o alinhamento através de um vídeo no Instagram e de uma publicação no LinkedIn: “Verifiquei se era uma piada. Não era. Há alguma justificação para este cartaz?”.
Ao Observador, a comediante afirma ainda que tentaram denunciar a publicação que fez sobre o tema na rede social profissional. “Vá lá que o LinkedIn reconheceu que isso não fazia sentido”, continua. Bruna Cunha assegura que nunca foi contactada pela organização do festival.
“É um meio liderado por homens e é muito difícil quebrar um ciclo machista”
“Acho vergonhoso”, reage ao Observador Mónica Vale de Gato, que até atuou no Meo Marés Vivas em 2022. A humorista, que em 2023 era a única mulher a atuar a solo no Palco Comédia do NOS Alive, foi das primeiras vozes a criticar o cartaz do festival em Matosinhos, usando as redes sociais para divulgar perfis de várias humoristas, sobretudo do Norte do país.
Segundo Vale de Gato, estas organizações “subcontratam agências de comédia para gerir os palcos de humor, o que dificulta mudar um meio altamente machista”. Não é a primeira vez que Mónica Vale de Gato expõe situações idênticas. Em abril, criticou também o festival Humor à Lafões por apresentar um alinhamento exclusivamente masculino. Questionada sobre contactos por parte das organizações destes certames, responde: “Não. Mas fui contactada por outra agência de comediantes a perguntar se ia continuar a dar expose. Aborrecidos.”
“É um meio liderado por homens. Todas as agências de humoristas são lideradas por homens e é muito difícil quebrar um ciclo machista”, denuncia. “Normalmente somos uma por dia em festivais ou só uma de todas para preencher a quota feminina”.
Para Liliana Marques, “as críticas nas redes sociais são mais do que legítimas, são importantes”. “Há cada vez mais mulheres a fazer comédia e são também as mulheres as maiores consumidoras de cultura — estavam à espera do quê? De que aplaudíssemos de pé um cartaz sem diversidade nenhuma? Não é sobre exigir cotas, é sobre não aceitar esta exclusão porque não há um único argumento que a sustente. E se não conhecem mulheres humoristas, por favor nunca assumam a responsabilidade de um cartaz de comédia.”
O Observador enviou várias questões à PEV Entertainment, organizadora do Meo Marés, mas não obteve resposta até à publicação deste artigo.