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Membros do Mecanismo Nacional de Prevenção da Provedoria da Justiça estiveram presentes toda a noite, incluindo no momento da intervenção da PSP
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▲Membros do Mecanismo Nacional de Prevenção da Provedoria da Justiça estiveram presentes toda a noite, incluindo no momento da intervenção da PSP

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

▲Membros do Mecanismo Nacional de Prevenção da Provedoria da Justiça estiveram presentes toda a noite, incluindo no momento da intervenção da PSP

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Negociar com a PSP não evitou segunda noite de carga policial no Rossio. Tendas e manifestantes foram "varridos" da praça lisboeta

Manifestação depois da hora mais tendas montadas voltaram a equivaler a carga policial no Rossio. Apelos vindos de mães, advogados e deputados de três partidos não chegaram para mudar desfecho.

Três avisos em menos de meia hora e a carga policial repetiu-se, uma semana depois, no Rossio. Eram 3h42 quando o intendente da polícia Iúri Rodrigues pegou pela primeira vez no megafone para se dirigir aos manifestantes. “A PSP informa que a reunião que se mantém na Praça D. Pedro IV, em Lisboa, não cumpre o previsto na lei”, começou por dizer o comandante da 1.ª Divisão da PSP, a repetir o guião da semana passada, aos que se mantinham em redor das cerca de 60 tendas montadas no Rossio.

Há várias horas que no local a música não tocava, também já não se ouviam gritos de ordem desde a meia-noite e meia, havia apenas grupos de pessoas sentados junto às tendas, outros espalhavam-se pela praça. Mesmo assim, a polícia invocou a proibição de manifestação após essa hora e a “ocupação do espaço público mediante a instalação de tendas” como motivos para a necessária desmobilização daquelas centenas de pessoas.

Às 4h10, com a PSP a dar “cinco minutos” nos dois avisos anteriores para que os manifestantes cumprissem a sua ordem, chegava a “última advertência” para que se terminasse “imediatamente a reunião de forma pacífica e ordeira”. “Estão a ser usados” e “são marionetas”, gritava-se do lado dos manifestantes para os polícias. Do aviso final até aos agentes da Equipa de Intervenção Rápida (EIR) da PSP estarem alinhados de frente para o cordão humano formado por manifestantes de capacete (a maioria deles de bicicleta) e outros elementos de proteção só passaram alguns minutos. Alguns agentes seguravam cães pela trela.

Nessa altura já as tendas tinham sido movidas por quem as tinha montado, algumas foram tiradas do caminho, e até atiradas à fonte da praça, e outras empilhadas para servir de barreira entre a PSP e os manifestantes. Nesse momento, os manifestantes na linha da frente estavam embrulhados numa lona única, para tentar impedir a intervenção física da polícia e a rutura do cordão humano.

▲ Polícia avançou contra manifestantes que resistiam na Praça Dom Pedro IV. Acampada fala de 19 feridos

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A polícia avançou depois. Mesmo com um grupo de deputados do Livre e o deputado único do Bloco de Esquerda, Fabian Figueiredo, posicionados entre polícia e manifestantes, ter deixado um apelo final ainda captado pela comunicação social para que alguma entidade governamental agisse contra o que estava prestes a acontecer. Isabel Mendes Lopes, do Livre, chegou a referir que certamente o próprio Presidente da República estaria acordado perante o desenvolvimento dos acontecimentos no Rossio.

Depois o caos. À medida que a polícia de intervenção avançava em direção aos manifestantes foram lançados pelo menos cinco petardos. Já em contacto físico com os manifestantes, os agentes da PSP usaram a força do corpo e bastonadas para os forçar a sair da Praça Dom Pedro IV. Ainda nesse local, o Observador assistiu a três detenções.

Marta estava na fila da frente do cordão humano. Levou um “soco no olho através da viseira aberta do capacete”

“A primeira coisa que um polícia fez foi dar-me um soco no olho através da viseira aberta do capacete”, relata ao Observador Marta, lembrando o momento do avanço policial que tinha enfrentado há poucos minutos. Era uma das pessoas na primeira fila do cordão humano e também uma das 19 que ficaram feridas na madrugada deste domingo, segundo dados da organização da Acampada de Lisboa. Segundo a mesma fonte, três feridos foram hospitalizados, não sendo conhecido a esta hora o seu estado.

Enquanto fala ao Observador, Marta segura um saco de gelo que lhe entregou a equipa de “cuidados”, composta por profissionais de saúde voluntários na Acampada. “Já não está frio”, diz enquanto pressiona o gelo medicinal contra um hematoma na cara. É avisada para a possibilidade de ter uma contusão, precisa de estar vigilante nos próximos dias para sintomas como vómitos ou confusão.

“Estávamos pacíficos, ninguém estava a atacar, estávamos só a manter a proteção. Eles deram pontapés, empurraram, deram-me uma bastonada na barriga e bateram-me no capacete”, relata, lamentando que tudo tenha sido uma “raiva completa”, mas agradecendo por ter levado o capacete, antevendo que as agressões sem o equipamento de proteção poderiam ter resultado em ferimentos bem mais graves.

A jovem na casa dos 30 anos fala ao Observador na Mouraria, um ponto mais alto do centro de Lisboa, para onde um grande grupo de manifestantes foi empurrado e onde permaneceu até regressar a casa. Antes disso ainda houve muita tensão na Praça da Figueira — manifestantes pegaram em bancos de madeira dentro de uma tenda já montada para o mercado natalício e começaram a virá-los e atirá-los. Gritava-se que estavam a montar uma “barricada”. “O que é que estão a fazer?”, questionou num tom irritado o porta-voz da Acampada, João Veloso, aos manifestantes, apelando a que parassem.

Um grupo de manifestantes pegou depois nas barreiras metálicas que estavam no local e “fechou a rua” entre manifestantes e polícia de intervenção. Novamente alinhados, vários agentes da PSP avançaram sobre os manifestantes que ainda se encontravam ali, empurrando-os ainda mais, em direção ao Martim Moniz e à Mouraria.

▲ Manifestantes derrubaram caixotes do lixo e moveram barras metálicas na Praça da Figueira

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“A polícia avançou e tivemos de recuar para a Figueira e ainda continuaram a avançar, arrastaram-nos e varreram-nos também de lá e estão a puxar-nos para a Graça agora”, afirmou um grupo de três manifestantes ao Observador já junto à Mouraria. Nessa altura, os agentes da EIR da PSP já começavam a desmobilizar na praça da Figueira, onde permaneceram até depois das 5h00.

Nos lobbies de vários hotéis da zona em que decorria a ação policial, hóspedes em pijama procuravam saber o que se estava a passar naquele momento, acordados pela movimentação na rua, pelos petardos e gritos.

Enquanto tudo isto decorria, vários membros do Mecanismo Nacional de Prevenção da Provedoria de Justiça, que vigiam o risco de cidadãos ficarem privados de liberdades, observavam de perto. Durante a carga policial, a maioria dos membros encontrava-se logo atrás dos agentes de polícia. Iam comunicando com manifestantes, polícias e também com a comunicação social.

Na manhã deste domingo, fonte oficial da Presidência da República informou que solicitou informação à Provedoria de Justiça, tendo em conta o acompanhamento feito pelo Mecanismo de Prevenção nas manifestações de Lisboa e do Porto. António José Seguro quer ter “informações e esclarecimentos, com todo o detalhe” sobre tudo o que se passou nesta madrugada nas duas cidades.

Negociações com advogados e deputados arrastaram-se. Mas não impediram desfecho da carga policial

O build up até ao avanço da polícia sobre os manifestantes fez-se de muitas cabeças a acenar concordantes numa das laterais da Praça Dom Pedro IV. No final, nenhum dos apelos feitos à PSP resultaram em algo diferente do que já tinha acontecido há uma semana. Manifestação depois da meia-noite e meia e tendas montadas no Rossio foram igual a carga policial.

Ainda ao início da noite, o grupo “Mães pela Acampada”, formado por mães dos manifestantes que quiseram dar a cara, apelava à polícia para não atuar contra os seus filhos. “Condenamos qualquer tipo de violência policial contra protestos pacíficos”, diziam do palco montado para a Assembleia Popular, que foi desmontado antes da meia-noite e meia, com os manifestantes a sinalizar constantemente que iam cumprir a ordem de manter o maior silêncio possível a partir dessa hora.

▲ Ricardo Sá Fernandes e Joana Marques Brás a dialogarem com a PSP

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Foi com a equipa de juristas e advogados da Acampada de Lisboa — entre eles Ricardo Sá Fernandes e Joana Marques Brás — que a PSP mais tempo falou, por duas vezes. No final de um dos diálogos, Sá Fernandes dizia brevemente aos jornalistas: “Espero que não haja intervenção policial.” O seu ar agastado já dava pistas de que o mais provável seria que a polícia avançasse mesmo. Foi ele que, já na manhã deste domingo, acompanhou os seis detidos levados pela PSP para a esquadra do Martim Moniz.

Durante toda a noite, pelo Rossio mantiveram-se várias caras com assento parlamentar na Assembleia da República. Pelo Livre, Isabel Mendes Lopes, Jorge Pinto e Paulo Muacho. Também o deputado único do Bloco de Esquerda e os socialistas Pedro Delgado Alves e Eva Cruzeiro.

“Não há razão para reprimir a Praça do Rossio ou a Praça D. João I, no Porto”, disse Fabian Figueiredo aos jornalistas depois de uma longa conversa dos deputados com os principais elementos da PSP no local. Assinalou até que, no local, como seria previsível numa noite de Halloween, havia vários “super mários” e muitos outros disfarçados a fazer uso da praça. Aplicou como exemplo também os turistas que acediam aos hotéis, para provar que o funcionamento normal daquela praça não estava posto em causa.

Os deputados falaram também, várias vezes, com membros da equipa de vigilância da Provedoria de Justiça.

▲ Vários deputados apelaram à não intervenção da PSP

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Pedro Delgado Alves revelou à comunicação social que os deputados comunicaram à polícia que, no seu entender conjunto, não havia “nada na praça do Rossio” que justificasse nesse momento “uma ação como a da semana passada”. Tanto o socialista como Isabel Mendes Lopes invocaram os “grilos” que se podiam ouvir àquela hora junto à estátua de Dom Pedro IV, com a calmaria a reinar entre manifestantes.

Da liga de ex-deputados, destaca-se Mariana Mortágua. A bloquista não esteve presente no momento das “negociações com a PSP” mas esteve de capacete na linha da frente do cordão humano. No momento em que os agentes de intervenção rápida avançaram sobre os manifestantes era ainda possível identificá-la. O Observador tentou contactá-la após a carga policial, mas até ao momento não obteve resposta.

Rossio limpo e sem “símbolos de resistência” às 06h00

Pelas 6h00 da manhã, no Rossio, o único sinal de que os manifestantes tinham passado pela Praça D. Pedro IV era mesmo a presença de funcionários da Câmara Municipal de Lisboa, alguns ainda a mandar jatos de água à calçada portuguesa com mangueiras, outros agachados com espátulas a remover a fita adesiva colada ao chão. Horas antes, as linhas brancas coladas serviam para delimitar as “ruas de tendas”, com setas a indicar o sentido da circulação.

“Temos uma tenda montada, tencionamos pernoitar aqui e face ao que aconteceu no sábado passado estamos preparados para tudo”, diziam, bem antes da carga policial, um grupo de amigos ao Observador. No sábado passado estavam no local e fugiram quando a polícia começou a carregar. Voltaram e desta vez levaram tenda. “Decidimos montar a nossa tenda como símbolo de resistência, também face à violência policial usada no sábado passado”, disseram ao Observador.

Já nessa altura diziam estar dispostos a “deixar a tenda para trás” e a manter-se no local até a polícia avançar contra os manifestantes “pacíficos”. Depois disso, seria oportunidade de deixar o Rossio outra vez, revelaram os estudantes na casa dos 20 anos. A tenda deles foi usada como escudo entre polícia e manifestantes, empilhada entre muitas outras.

Minutos depois do início da carga, e quando a PSP já tinha agido com bastonadas e força física para fazer com que os manifestantes saíssem da praça que tem servido de palco aos protestos pela Habitação, e enquanto ainda ardiam restos de petardos na praça, já esta tenda e muitas outras estavam a ser levadas para uma carrinha de caixa aberta da autarquia. Aquelas que se tornaram o símbolo da resistência das manifestações das últimas semanas acabaram removidas com tanta, ou maior, rapidez que os próprios manifestantes.

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