“Backrooms — O Labirinto”

Levando o selo da A24, e com a produção de pesos-pesados do cinema de terror como James Wan, Osgood Perkins e Shawn Levy, chega às telas o filme que o jovem Kane Parsons tirou do seu conjunto de longas-metragens (que vão já em quase três horas de duração) de falsa  found footage no YouTube, baseadas no creepypasta da Internet, em que é “revelada” uma dimensão paralela à nossa, composta por um conjunto de salas labirínticas e aparentemente infindáveis, umas vazias, outras não (o chamado “espaço liminar”) e percorridas por uma presença esquiva e arrepiante. Em Backrooms — O Labirinto, Clark (Chewitel Ojiofor), um arquiteto falhado e recém-separado, descobre, na cave da loja de mobiliário falida que dirige e onde vive provisoriamente, uma porta para aquela dimensão, que começa a explorar, seguido pelos seus dois funcionários, e por Mary (Renate Reinsve), a sua psicanalista. A dimensão visual e a inquietação por ela causada das curtas da Net são bem transpostas por Parsons para a tela, embora o realizador, a certa altura, se vire para a presença que a assombra e lhe dê forma e explicação, ao invés de continuar a usar os espaços que Clark vai percorrendo como fonte de permanente e crescente incómodo, e de um terror nunca claramente especificado. Depois de Obsession — A Felicidade é Relativa, de Curry Baker, Backrooms — O Labirinto é mais um filme que mostra como o novíssimo cinema de terror sobrenatural está a nascer na Net e só depois a passar para o grande ecrã.

“Leibnitz — Crónica de uma Pintura Perdida”

Hanover, início do século XVIII. Pupila de Leibnitz, pelo qual nutre uma imensa estima e admiração, Sofia Carlota, Rainha da Prússia, encomenda a uma jovem e talentosa pintora holandesa, Aaltje Van de Meer, um retrato do seu queridíssimo amigo e mestre, para assim o poder ter sempre perto de si. O pensador, polimata e inventor alemão, e Conselheiro da Corte de Hanover, presta-se assim a posar diariamente para o retrato. Leibnitz e a artista começam então uma série de conversas sobre filosofia, arte e a relação entre ambas, metafísica, Deus, o conhecimento ou o sentido da existência. Que Edgar Reitz, autor da notável saga Heimat e decano do cinema alemão (tem 94 anos), e realizador, com a colaboração de Anatol Schuster, deste Leibnitz — Crónica de uma Pintura Perdida, aproveita para destacar a genialidade de Leibnitz (ver a sequência em que o seu secretário descreve ou mostra a Aaltje algumas das invenções do autor de Monadologia, caso de uma enorme máquina de calcular), a sua humanidade e o seu idealismo, e mostrar como estava muito adiantado para o seu tempo. Embora a fita esteja quase sempre confinada ao mesmo cenário e seja dominada pela palavra, tem vários e subtis momentos de puro cinema, e o diretor de fotografia Matthias Grunsky evoca a atmosfera dos quadros de Vermeer, Rembrandt ou Caravaggio, todos eles admirados pela pintora. Um pequeno grande filme, com esplêndidas interpretações de Edgar Selge (Leibnitz) e Aenne Schwarz (Aaltje).

“Pai Nosso — Os Últimos Dias de Salazar”

Após a queda da cadeira no Forte de Santo António em 1968, e o AVC sofrido no Hospital da Cruz Vermelha, António de Oliveira Salazar, cujo precário estado de saúde o impedia por completo de regressar à normalidade anterior, voltou para São Bento, não sabendo que já não era chefe do governo e havia sido substituído por Marcello Caetano como presidente do Conselho. Ninguém lhe contou a verdade e ele continuou a ser tratado como se ainda estivesse em funções por todos os que o rodeavam e visitavam. Assim foi entre 5 de fevereiro de 1969, quando deixou aquele hospital pelo palacete de São Bento, e 27 de julho de 1970, data da sua morte. Em Pai Nosso — Os Últimos Dias de Salazar, José Filipe Costa recria os tempos  dessa grande encenação, combinando realismo e situações factuais e momentos onírico-surreais. Jorge Mota personifica Salazar, Catarina Avelar é D. Maria de Jesus e António Lagarto interpreta Américo Thomaz. Também com Cleia Almeida, Vera Barreto, Carolina Amaral, Marques D’Arede, Guilherme Filipe e Adriano Carvalho. Pai Nosso — Os Últimos Dias de Salazar foi escolhido como filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.