Quinta-feira chegou com a penúltima chegada ao sprint desta Volta a Itália. Ainda assim, houve quem quisesse animar a corrida e tentar tirar dividendos do Muro di Ca’ del Poggio, colocado à entrada para os últimos dez quilómetros. O sujeito em causa dá pelo nome de Afonso Eulálio (Bahrain-Victorious) que, depois de ter caído a 50 quilómetros da meta quando procurava abastecer-se, recolocou-se no pelotão e foi o único a atacar o bloco da Visma-Lease a Bike, que anulou a sua movimentação através de Jonas Vingegaard. Depois, na aproximação à meta, o português voltou a tentar com a companhia de Johannes Kulset (Uno-X Mobility), mas foi travado pelas equipas dos sprinters e, com o pelotão compacto, Paul Magnier (Soudal Quick-Step) voltou a mostrar que é o mais rápido.

Afonso bem tentou, mas a casa da colina estava reservada a Paul: hat-trick de Magnier no Giro, depois de Eulálio ter caído e atacado

“Uma queda nunca é uma coisa boa. Certamente vou sentir mais dores amanhã [sexta-feira]. A equipa fez um trabalho perfeito, conseguimos voltar ao pelotão rapidamente. No final senti que as minhas pernas estavam boas e vi uma oportunidade. Sexta-feira? Vai ser um dia extremamente difícil. Tenho apenas que continuar a lutar. Vou dar o meu melhor. Ataquei porque fiquei bastante nervoso depois da queda. É muita tensão, não pensei muito e simplesmente ataquei. Hoje [sexta-feira] quando acordei a sensação não foi das melhores, mas durante o dia vou sentir mais dores nas pernas do que no corpo e vou seguir em frente. Se as minhas pernas estiverem boas, vou andar na frente. Veremos. Será um dia super difícil. Espero ter boas sensações”, explicou o figueirense na quinta e já esta sexta-feira.

“Sprint? Não esperava esse cenário. Não sei exatamente porquê, mas não imaginava que as equipas dos sprinters assumissem o controlo da corrida. Fizeram um trabalho excelente e mereceram a vitória. Foi muito impressionante a maneira como geriram toda a situação e toda a etapa. No fim mereceram vencer. Luta pela montanha? Sim… estava na frente e tenho a camisola da montanha, aproveitei para somar nove pontos. Sexta-feira? É uma etapa muito difícil, com muitos metros de altitude acumulada. Espero ter boas pernas e veremos o que vai acontecer. É uma etapa muito bonita e eu adoraria vencer, mas também precisamos de ter cuidado com a equipa e com toda a situação. Vamos conversar e fazer um plano”, perspetivou o canibal dinamarquês.

Ao antepenúltimo dia chegou a etapa-rainha da Volta a Itália. Com início em Feltre e chegada em Alleghe, a 19.ª tirada contou 151 quilómetros e uns impressionantes 5 mil metros de desnível acumulado, distribuídos por seis contagens de montanha. Depois de um início tranquilo, o Passo del Duran (12 km a 8,2%) abriu as hostilidades antes dos 50 quilómetros, seguindo-se o Coi (5,8 km a 9,7%), com pendentes de 19%. A descida tinha apenas dois quilómetros e levava os ciclistas ao Passo Staulanza (6,3 km a 6,7%). Na segunda metade do dia aparecia o mítico Passo Giau (9,9 km a 9,3%), com rampas de 14%, antes de os ciclistas passarem no ponto mais alto (a Cima Coppi) deste Giro d’Italia, aos 2.233 metros de altitude. Por fim, o Passo Falzarego (10,1 km a 5,6%), que tinha o quilómetro Red Bull, prometia explodir com a corrida antes da decisão no Piani di Pezzè (5 km a 9,6%).

À partida não alinharam Michael Valgren e James Shaw, por decisão da EF Education-EasyPost e, na fase inicial, Jhonatan Narváez (UAE Team Emirates-XRG) deixou a equipa de António Morgado reduzida a quatro elementos, bem como Magnier encaminhado para conquistar a maglia ciclamino. A fuga formou-se depressa e contou com 26 elementos, com destaque para Derek Gee-West (Lidl-Trek), Michael Storer (Tudor), Damiano Caruso (Bahrain) e Mathys Rondel (Tudor). Na segunda contagem de montanha, Giulio Ciccone (Lidl) e Einer Rubio (Movistar) atacaram na dianteira, com Eulálio a mostrar dificuldades em acompanhar o ritmo do pelotão, numa altura em que estava sem o apoio de qualquer colega, embora tivesse Caruso na dianteira.

Apesar do desgaste, Eulálio continuou a superar-se e a transmitir confiança à sua equipa, chegando à última subida com os melhores desta Volta a Itália. Na frente, Rubio e Gee-West desentendiam-se, dado que, na aproximação ao quilómetro Red Bull, o canadiano aumentou o ritmo e o colombiano não gostou, respondendo no Passo Falzarego, “roubando” dez pontos a Ciccone, que já era o líder virtual da montanha. O italiano repreendeu o colega de fuga e atacou logo a seguir, aproveitando a descida para ganhar mais de um minuto. Já no Piani di Pezzè, Egan Bernal (Netcompany Ineos) e Sepp Kuss (Visma) partiram o grupo, recebendo, depois, a companhia de Derek Gee-West. No grupo dos favoritos, a Decathlon CMA CGM aumentou o ritmo e deixou Afonso Eulálio e Davide Piganzoli (Visma) para trás. Contudo, quando Felix Gall atacou, Jonas Vingegaard foi o único que conseguiu seguir o austríaco.

Ciccone acabou por quebrar na parte final e foi alcançado por Kuss, que atacou de pronto em busca da vitória histórica, já que é a sua primeira na Volta a Itália, permitindo-lhe completar a trilogia de triunfos em etapas das três Grandes Voltas e juntar-se a um lote que conta agora com 116 ciclistas. Gee-West chegou no segundo lugar a 13 segundos, ao passo que Ciccone foi terceiro a 36, ligeiramente à frente de Gall, Vingegaard e Jai Hindley (Red Bull-Bora-hansgrohe). Eulálio entrou na meta no 16.º lugar, a 2.25 minutos, resultado que lhe permitiu segurar a camisola branca, tendo agora 1.03 de avanço face a Piganzoli. Ainda assim, o português caiu para o sexto lugar na geral, tendo sido ultrapassado por Gee-West. Nas primeiras posições, Hindley é agora terceiro, tendo ultrapassado Thymen Arensman (Netcompany).