Nove dias de rosa, 15 dias de branco, um top 10 para a eternidade. Se estivéssemos a falar das listas de tarefas que se fazem no início do ano passado, Afonso Eulálio já tinha completado a sua missão com toda a distinção. Afinal, fê-lo na primeira Grande Volta que completou e quando menos se esperava. Numa altura em que Portugal partia para a Volta a Itália sem a referência João Almeida (UAE Team Emirates-XRG), que deveria estar na luta pela vitória com Jonas Vingegaard (Visma-Lease a Bike), o ciclista da Bahrain-Victorious assumiu-se como a figura de proa e foi um dos grandes destaques da corsa rosa, tendo até passado mais dias na liderança do que o dinamarquês, que fez história em território transalpino. Assim como o Bota Lume, Eulálio tornou-se no terceiro português a conquistar uma camisola numa Grande Volta, numa lista que conta ainda com Rúben Guerreiro, vencedor da montanha na Volta a Itália-2023.
Foi com um sorriso rasgado e uma boa disposição contagiantes que Afonso Eulálio marcou presença esta quinta-feira numa conferência de imprensa realizada com a imprensa portuguesa. Aos jornalistas, o ciclista da Bahrain começou por dizer que partiu para o Giro “apenas como gregário, para suportar o Santiago [Buitrago]”. “Depois ia ter as minhas oportunidades mais para a frente, talvez lutar por uma ou duas etapas. No início do Giro acabámos por perder o nosso líder e as coisas acabaram por mudar muito. Abriram-se oportunidades e, logo no início, acabei por entrar na fuga e lutar por uma etapa. Não ganhei, mas ganhei vantagem na geral. Falámos dentro da equipa e decidimos lutar pela geral. Mesmo que as coisas não corressem bem, não perdia nada e ganhava experiência. Aprendi que ainda não estou pronto para lutar por um pódio ou perto disso numa Grande Volta. O nível está um pouco alto. Tenho que ganhar experiência e ser mais calmo, são 21 dias de corrida. As coisas aprendem-se e são coisas que podemos mudar durante a corrida. No futuro de certeza que vou correr de maneira diferente. As coisas acabam por sair naturalmente”, acrescentou.
“Não estava preparado para correr para a geral. Já tínhamos falado sobre isso, mas nunca passou de brincadeira. Nunca pensámos fazê-lo de verdade. Disse à equipa que queria a etapa 5. Ainda por cima estava a chover, era uma etapa que tinha a minha cara. A equipa disse logo que sim e analisámos tudo ao pormenor. Acabei por ir com tudo para essa etapa. As coisas correram quase perfeitas, só faltou mesmo a vitória na etapa. Não ia focado mentalmente para correr pela geral, mas sabia que estava bem, que me tinha preparado para o Giro, ao contrário do ano passado”, explicou Eulálio.
Quanto à explosividade e ao modo ofensivo que o caracterizam como ciclista, Afonso Eulálio assumiu que a equipa já o conhece e que, por vezes, tem de ser mais conservador. “Claro que os diretores ficavam mais contentes se eu corresse de forma mais conservadora, mas já sabem como é que gosto de correr, que cometo alguns erros, que ataco… é a minha forma de correr. Quando não ataco é porque não tenho pernas. Queria bastante a etapa. Acabámos por ganhar com o Alec [Segaert] e fico contente na mesma. Vestir de rosa, acabar com a branca e no top 10… penso que não tem mal nenhum a vitória ter ficado de lado. Espero ainda ter muitos anos para voltar a lutar pela vitória numa Grande Volta. No Mundial do ano passado diziam que tinha o segundo melhor resultado de Portugal, apenas atrás do Rui Costa. As coisas têm corrido bem e temos trabalhado bastante bem. O ano passado fiz top 10 no Mundial, este ano fiz top 10 no Giro. São resultados muito bons mas, acima de tudo, tenho de continuar a trabalhar”, prosseguiu o atleta nascido no concelho da Figueira da Foz.
“Estava muito expectante porque era algo novo para mim. É muito diferente estares num Giro a lutar por uma etapa e a perderes tempo no dia a seguir, ou a teres de chegar na frente. Tens de lutar todos os dias, em todas as subidas, em todas as descidas. Era tudo novo para mim. Estava a fazer o meu trabalho, estávamos a fazer tudo perfeito dentro da equipa, em todos os pormenores. Foi um bocadinho como no passado, em que estava a melhorar gradualmente. Este ano tive a minha oportunidade de correr de uma maneira diferente e estava a melhorar no final do Giro. Idas ao pódio? Prefiro estar no pódio do que não estar [risos]. Prefiro estar lá todos os dias. Claro que, no final de uma Grande Volta, faz toda a diferença, porque, todos os dias, tinha que ir ao pódio, controlo [antidoping], centenas de entrevistas. Quando chegava ao hotel tinha massagem e fisioterapia. Quando ia jantar, jantava sozinho, com o nutricionista ou com um colega que ficasse à minha espera, porque os outros já estavam a descansar. Como ficava mais tempo, chegava mais tarde e não tinha o mesmo tempo de recuperação. Em muitos dos dias acordavam-me às 6 horas da manhã, acabava a jantar às 22 horas. Tudo junto tirou recuperação e acabou por me deixar stressado. Alterava bastante a rotina, mas acho que recuperei bem e as coisas correram bem”, detalhou Afonso Eulálio.
Quanto à Volta a Portugal de 2024, que acabou por mudar a sua vida, o ciclista da Bahrain explicou que, na altura, nunca tinha imaginado que conseguiria chegar ao WorldTour. “Antes da Volta já havia o interesse de algumas equipas, mas nunca imaginei que fosse do WorldTour. Pensei: ‘Como é que é possível?’ Era impossível imaginar que podia vestir a rosa e acabar com a branca no Giro. O pós-corrida foi relativamente igual em relação a este Giro. Estava completamente tranquilo nas duas. As maneiras de correr são muito diferentes, mas há coisas idênticas. O pelotão português corre corridas internacionais, mas quase todas dentro do país. Não temos uma montra e não mostramos o nosso valor. Tive sorte em 2024 porque corri pela Seleção como Sub-23. No ano a seguir, o Feirense fez o esforço para corrermos no estrangeiro, em corridas importantes. Fiz top 10 regularmente em corridas fora de Portugal e foi por aí que consegui sair. Neste momento o nosso calendário é muito interno e isso não ajuda”, contou sobre a passagem pela equipa de Joaquim Andrade.
Quanto a Damiano Caruso que, no ano em que se despede do ciclismo profissional antes de abraçar a função de diretor na equipa do Médio Oriente, foi o fiel escudeiro do português, Eulálio falou da relação que ambos construíram nos últimos dois anos. “O ano passado fiz mais de metade do meu calendário com ele e, mesmo este ano, tivemos juntos bastante tempo. Estive mais tempo com ele do que com a minha família. Continuámos a fazer o que fizemos antes. Senti a importância dele, principalmente nas subidas, quando ficava sozinho. Isso mudava muito. Durante a corrida, em momentos de tensão, em que estamos a lutar pela posição, é muito importante. As nossas corridas não são só chegar à última subida e dar o nosso melhor. Temos que estar na frente em muitos momentos-chave. Ele acaba por ajudar e facilitar o meu trabalho”, contou.
O ídolo João Almeida, as conversas com Vingegaard e o futuro
Apesar de ter feito uma Volta a Itália que fez lembrar o caminho que João Almeida trilhou a partir de 2020, Afonso Eulálio recusa comparar-se com o colega da Emirates. “O João é o João. Quem me dera ter as pernas do João, seguramente tinha feito bastante melhor. É um dos melhores ciclistas de sempre, não só de Portugal. É um dos poucos que se consegue bater com o Jonas [Vingegaard]. Não há comparações. Seguramente vai dar-nos bastante alegrias até ao final do ano. Vingegaard? Falávamos de coisas normais, como a corrida, o futuro ou a nossa nutrição, que é a mesma. Quando estava na luta com o [Davide] Piganzoli pela branca, costumava dizer, na brincadeira, para ele colocar o Piganzoli a puxar no início da etapa para me ajudar”, partilhou num tom bastante descontraído.
Corrida molhada, corrida abençoada, o dia perfeito: Afonso Eulálio é camisola rosa no Giro
Quanto ao futuro nas Grandes Voltas, Eulálio assumiu que ainda não está no nível certo para terminar no pódio. “Mesmo que não seja capaz de chegar ao pódio numa Grande Volta, vou continuar a trabalhar e a fazer os meus resultados. Acima de tudo, o que gosto de fazer são as clássicas e de certeza que vou estar bastante bem. Provavelmente só vou voltar a lutar pela geral numa Grande Volta daqui a dois anos. Este ano vou focar-me nas clássicas do final do ano a 100%, como os Mundiais e os Europeus. Para o ano penso que vou fazer o Tour, totalmente relaxado. Vou tentar suportar os líderes e correr por uma ou outra etapa. Daqui a dois anos talvez vá fazer Giro e Vuelta. De resto vou continuar a trabalhar o contrarrelógio e a alta montanha”, acrescentou.
“Daqui a duas semanas vou fazer a Volta a Suíça, apenas como gregário, porque vamos com o Lenny [Martinez] e o [Antonio] Tiberi. Esta semana vou estar parado e, na próxima, vou retomar muito devagar. Vou fazer essa corrida a pensar nos Nacionais, onde vou fazer o crono para treinar. Para treinarmos o contrarrelógio é difícil, nunca temos estradas fechadas e não dá para treinar a 100%. No fundo vou tentar dar o meu melhor, sabendo que não estou no meu melhor, mas penso que posso fazer algo. Renovação? Já tinha renovado em dezembro. Tive propostas depois dos Mundiais e as coisas ficaram assim. Disse que queria ficar na equipa, as coisas estão a correr bastante bem. Estamos a trabalhar pouco a pouco. Temos feito as coisas pouco a pouco e não me exigem bastante. As coisas estão alinhavadas para o contrato ser melhorado e acrescentar mais um ou dois anos, mas não estou muito preocupado com isso”, rematou.