“Os médicos disseram-me que era um milagre ter sobrevivido. O crânio partiu, o osso fraturou e existia uma hemorragia dentro do cérebro. Estava a empurrar o cérebro para dentro e foi por isso que a cirurgia teve de acontecer logo. A fratura demorou um pouco mais do que era esperado a sarar, mas é um milagre estar aqui.”

Em 2021, em entrevista ao The Athletic, Raúl Jiménez deixou bem claro que não era suposto continuar a ser jogador de futebol. Não era suposto continuar a jogar em Inglaterra, não era suposto continuar a ser convocado para a seleção do México, não era suposto estar no Campeonato do Mundo. Esta quinta-feira, também não era suposto que Raúl Jiménez marcasse no jogo inaugural do Mundial 2026 — mas há muito que deixou claro que não está cá para fazer o que é suposto.

Quase seis anos depois do choque violento com David Luiz, numa visita do Wolverhampton ao Arsenal, o avançado de 35 anos só precisou de um instante para deixar para trás os quase 10 meses em que esteve longe dos relvados, as dúvidas sobre se alguma vez voltaria a jogar e até as incertezas sobre como regressaria à competição. Aos 67 minutos do jogo inaugural do Mundial 2026 contra a África do Sul, em pleno Estádio Azteca e em plena Cidade do México, cabeceou da melhor maneira depois de um cruzamento de Roberto Alvarado na direita, aumentou a vantagem dos mexicanos e deixou-se levar.

Começou por apontar para o céu com as duas mãos, visivelmente emocionado, e não conteve as lágrimas mesmo antes de ser abraçado por todos os colegas de equipa, recebendo depois o mesmo cumprimento dos elementos que estavam no banco de suplentes, da equipa técnica e do selecionador Javier Aguirre. Na dedicatória do antigo jogador do Benfica que deixou agora o Fulham para voltar ao Wolverhampton, mais do que o facto de estar a cumprir o sonho de marcar num Campeonato do Mundo disputado em casa, estava a memória do pai, que morreu no passado mês de março.

Também no jogo desta quinta-feira, Julián Quiñones marcou o primeiro golo do Mundial 2026 — com a curiosidade de, a jogar pelo México na Cidade do México e a marcar o primeiro golo do México no Campeonato do Mundo disputado em casa, ter nascido na Colômbia. Natural de Magüí Payán, na ponta mais a este do país, começou a jogar no Futbol Paz, um clube amador de Cali, na altura em que os mexicanos do Tigres repararam nele.

Mudou-se para o México com apenas 19 anos e passou por empréstimos ao Venados, ao BUAP e ao Atlas, acabando por merecer que estes últimos o contratassem a título definitivo. Representou o América em 2023/24, marcando 23 golos em 52 jogos, e em 2024 decidiu deixar o país para viajar até à Arábia Saudita. No Al-Qadsiah, onde jogou nas últimas duas épocas e é colega de equipa do internacional português Otávio, já marcou 62 golos em 68 jogos e nesta temporada foi mesmo o melhor marcador do Campeonato saudita, com 33 golos.

Pelo meio, naturalizou-se mexicano. O avançado de 29 anos chegou a representar os Sub-20 da Colômbia, mas em maio de 2023 recusou uma convocatória para a Seleção A dos cafeteros e continuou o processo de naturalização que já estava a realizar, sendo convocado para o México pela primeira vez em novembro do mesmo ano e somando já mais de 20 internacionalizações.