O príncipe Harry e outras seis pessoas, incluindo o cantor Elton John e a atriz Elizabeth Hurley, perderam um processo judicial contra a Associated Newspapers, empresa detentora do tabloide inglês Daily Mail, e das suas publicações adjacentes, o Mail on Sunday e o Mail Online. O veredicto foi tornado público nesta terça-feira.
Na sentença com mais de 400 páginas, o tribunal afirma que os queixosos não foram capazes de provar as alegações de que as informações relevantes haviam sido obtidas ilegalmente. O juiz Matthew Nickling diz ainda que os requerentes não podem basear as suas queixas em “suspeitas”, mesmo que estas sejam “compreensíveis”, afirmando que os jornalistas da Associated Newspapers “deram explicações legais para a origem dos artigos e incidentes contestados”. Um porta-voz da Associated Newspapers, citado pela BBC, elogiou a decisão do tribunal, alegando ser “uma magnífica vitória para o jornalismo do Daily Mail”, acrescentando que o processo “desperdiçou um tempo precioso do tribunal e mais de 50 milhões de libras em custos legais”.
O grupo juntou-se em 2022 para processar a Associated Newspapers por práticas ilegais de recolha de informações. Elton John e o seu marido, David Furnish, queixam-se da publicação dos detalhes do nascimento do seu filho através de uma barriga de aluguer, incluindo a certidão de nascimento ainda antes de o casal ter tido acesso ao documento. A atriz Elizabeth Hurley questiona as informações publicadas sobre a disputa pelo reconhecimento da paternidade do filho com o empresário Steve Bing.
Já a atriz Sadie Frost Law alega que 11 artigos sobre si foram escritos com base em informações ilegais, incluindo um sobre uma gravidez ectópica. Por outro lado, a ativista britânica de origem jamaicana Doreen Delceita Lawrence diz que cinco artigos foram escritos através de informações “roubadas” sobre a investigação da morte do filho, assassinado em 1993.
Outro caso: Simon Hughes, antigo político do Partido Liberal Democrata, afirma que o Daily Mail estava pronto para “explorar a sua sexualidade”, ao citar um artigo de 2006. Por sua vez, as alegações de Harry referem-se especificamente a 14 artigos publicados pelos títulos da empresa entre 2001 e 2013.
A editora nega as acusações de que agiu ilegalmente, afirmando que simplesmente “tinha ótimas fontes”. Entretanto, admitiu ter contratado investigadores particulares, ao passo que os jornalistas do grupo (que testemunharam) afirmaram acreditar que tais investigadores tinham acesso a bases de dados legítimas, o que lhes permitia obter informações públicas mais rapidamente.
Esta não é a primeira batalha judicial do filho de Carlos III contra grupos dos media. Em janeiro de 2025 o News Group Newspapers, dono do jornal The Sun, concordou em pagar a Harry uma “indemnização substancial” e pediu desculpas pela “grave intromissão” na sua vida privada entre 1996 e 2011. No final de 2023 o príncipe já havia vencido 15 ações no caso contra o Mirror Group Newspapers, acusando-o de coletar informações ilegalmente.
Harry está em Londres, mas não viajou a propósito da leitura da sentença. O príncipe participava num evento dos Invictus Games quando recebeu a notícia, e de acordo com a BBC, vai manter a programação prevista para esta viagem, marcada por uma nova polémica com a família.
“Ataques persistentes e cruéis, assédio e artigos intrusivos, às vezes racistas, sobre Meghan”
Quando em janeiro de 2026 testemunhou no julgamento, durante duas horas, o príncipe também divulgou o depoimento de 23 páginas por escrito, no qual explicava que a sua “relação difícil” com a imprensa começou após a morte da sua mãe, Diana, em 1997, quando ele tinha 12 anos. “Como membro da instituição, a política era ‘nunca reclamar, nunca explicar’. Não havia alternativa; fui condicionado a aceitar isso”, escreveu Harry, acrescentando: “Na maior parte das vezes, eu aceitava o interesse pelo meu desempenho nas funções públicas. No entanto, no final de 2016, quando a minha relação com Meghan, a minha atual mulher, se tornou pública, comecei a ficar cada vez mais incomodado com a abordagem de não tomar medidas contra a imprensa, após ataques persistentes e cruéis, assédio e artigos intrusivos, às vezes racistas, sobre Meghan.”
Entretanto, os episódios que estão em causa dizem respeito a artigos publicados antes de o príncipe ter conhecido a atual mulher. Harry recordou o artigo do Daily Mail publicado em julho de 2006, que detalhava as suas reações e as do irmão, o príncipe William, à publicação de uma fotografia da princesa Diana após o acidente de carro que lhe tirou a vida em 1997. Descrevendo-o como “realmente repugnante”, afirmou que foi “mais do que cruel” publicar um artigo sobre “discussões confidenciais”: “Se a Associated estava disposta a publicar este tipo de material, então isso realmente me faz questionar até onde eles estão dispostos a ir”, escreveu, acrescentando que as informações partilhadas no artigo o fizeram pensar que os jornalistas “estavam claramente a ouvir as nossas chamadas”.
Também a sua relação com Chelsy Davy, com quem namorou entre 2004 e 2010, esteve sob escrutínio. Na sua declaração, diz que o Daily Mail foi o primeiro a divulgar o nome da advogada e que “a partir desse momento tudo explodiu e a vida como ela a conhecia acabou; a sua capacidade de desfrutar de alguma privacidade evaporou-se instantaneamente”. Revelou ainda que, durante o relacionamento, estava “muito preocupado que algo de mau fosse acontecer” e que, quando Davy fez uma visita surpresa a Harry na Argentina, o príncipe “suspeitou que alguém tivesse sido pago para revelar os nossos planos”. “Nunca suspeitei da Chelsy em relação a histórias como esta, mas suspeitava das amigas dela. Se tivesse visto esta história na altura, teria ficado muito frustrado e zangado. Teria questionado como é que a Associated descobriu esta informação. Mas, ao mesmo tempo, teria sentido que tinha de aceitar isto como a realidade da minha vida. Este tipo de intrusão era assustador para a Chelsy: fazia-a sentir que estava a ser perseguida e que a imprensa a tinha apanhado, e era assustador para mim também, porque não havia nada que eu pudesse fazer para impedir isso e agora ela estava no meu mundo”, citou o The Guardian.
Harry também afirmou que a editora lançou “uma campanha, uma obsessão por manter todos os aspetos da minha vida sob vigilância, para que pudessem ganhar vantagem sobre os seus concorrentes e levar-me a um estado de paranoia inacreditável, isolando-me e, provavelmente, querendo levar-me a consumir drogas e álcool para vender mais jornais”.